{"id":30627,"date":"2026-05-31T01:58:22","date_gmt":"2026-05-31T04:58:22","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30627"},"modified":"2026-05-31T01:58:22","modified_gmt":"2026-05-31T04:58:22","slug":"o-saara-quase-desapareceu-a-historia-dos-imigrantes-que-transformaram-a-rua-da-alfandega-no-grande-bazar-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30627","title":{"rendered":"O SAARA quase desapareceu: a hist\u00f3ria dos imigrantes que transformaram a Rua da Alf\u00e2ndega no grande bazar carioca"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/IMG_5100.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">A regi\u00e3o do Saara est\u00e1 lotada, no Centro do Rio, por conta das compras de Natal \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o do Facebook<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>H\u00e1 lugares no Rio de Janeiro que n\u00e3o s\u00e3o apenas endere\u00e7os. S\u00e3o organismos vivos, feitos de vozes, cheiros, fachadas antigas, fregueses apressados, comerciantes atentos, vitrines coloridas, hist\u00f3rias de fam\u00edlia e uma mem\u00f3ria coletiva que parece resistir ao tempo com a teimosia pr\u00f3pria das coisas profundamente cariocas. O <strong>SAARA<\/strong>, no cora\u00e7\u00e3o do Centro do Rio, \u00e9 um desses lugares. Quem atravessa suas ruas estreitas em dezembro, quando o Natal toma conta das lojas, ou nos dias que antecedem o Carnaval, quando fantasias, brilhos, plumas e adere\u00e7os parecem escorrer das vitrines para a cal\u00e7ada, talvez n\u00e3o imagine que aquele grande mercado popular a c\u00e9u aberto guarda uma das mais ricas hist\u00f3rias de imigra\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia urbana e amor ao com\u00e9rcio tradicional que a cidade ainda conserva.<\/p>\n<p>A pesquisadora <strong>Neiva Vieira da Cunha<\/strong>, da <strong>UERJ<\/strong> e do LeMetro\/IFCS-UFRJ, estudou o SAARA como uma das mais tradicionais pra\u00e7as de mercado popular do Rio, marcada pela rela\u00e7\u00e3o entre fluxos migrat\u00f3rios, atividades comerciais e identidades culturais. Segundo seu trabalho, a regi\u00e3o foi originalmente ocupada por imigrantes na virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, reunindo diferentes grupos \u00e9tnicos que deram ao lugar uma fei\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, constru\u00edda em torno do com\u00e9rcio e das formas de sociabilidade da rua. \u00a0<\/p>\n<p>A primeira beleza dessa hist\u00f3ria est\u00e1 justamente a\u00ed: o SAARA, um dos lugares mais cariocas do Rio, nasceu em grande parte pelas m\u00e3os de estrangeiros. S\u00edrios, libaneses, judeus sefaraditas e ashquenazitas, portugueses, espanh\u00f3is, gregos, arm\u00eanios e, mais tarde, comerciantes asi\u00e1ticos deram ao lugar uma fisionomia singular. Cada grupo trouxe seus costumes, suas redes de parentesco, seus modos de vender, suas especialidades, suas formas de negociar e tamb\u00e9m suas esperan\u00e7as. O resultado foi uma esp\u00e9cie de bazar mediterr\u00e2neo, oriental e carioca ao mesmo tempo, transplantado para o miolo hist\u00f3rico da cidade, entre a Avenida Presidente Vargas, a Rua Buenos Aires, a Rua dos Andradas e a Pra\u00e7a da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Muito antes de o nome SAARA se tornar conhecido por qualquer carioca, a Rua da Alf\u00e2ndega j\u00e1 era uma das vias fundamentais da vida econ\u00f4mica do Rio. Sua proximidade com o porto, especialmente com o antigo <strong>Cais Pharoux<\/strong>, na atual <strong>Pra\u00e7a XV<\/strong>, fazia da regi\u00e3o um ponto estrat\u00e9gico para o desembarque, armazenamento e distribui\u00e7\u00e3o de mercadorias. Ali se concentravam firmas atacadistas, dep\u00f3sitos de bebidas, g\u00eaneros aliment\u00edcios, tecidos e produtos de armarinho. Dali partiam mercadorias que abasteciam n\u00e3o apenas a capital, mas tamb\u00e9m cidades do interior. O Centro do Rio, nesse tempo, era mais do que centro administrativo: era porto, mercado, vitrine, entreposto e ponto de encontro do Brasil com o mundo.<\/p>\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio que come\u00e7aram a chegar, ainda no fim do s\u00e9culo XIX e com for\u00e7a especial nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, os imigrantes s\u00edrios e libaneses. Muitos vinham fugindo das dificuldades pol\u00edticas e econ\u00f4micas ligadas ao <strong>Imp\u00e9rio Otomano<\/strong>. Como desembarcavam com passaportes turcos, passaram a ser genericamente chamados de \u201cturcos\u201d, embora fossem, em grande parte, s\u00edrios e libaneses, muitos deles crist\u00e3os ortodoxos ou maronitas. Instalaram-se inicialmente na Rua da Alf\u00e2ndega e nas imedia\u00e7\u00f5es da Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, criando redes de com\u00e9rcio que logo se tornariam fundamentais para a economia popular da cidade.<\/p>\n<p>Pouco depois, chegaram tamb\u00e9m os judeus de diferentes origens. Alguns vinham do Oriente M\u00e9dio, os sefaraditas; outros, da Europa Central e Oriental, os ashquenazitas, especialmente da Pol\u00f4nia, da R\u00fassia e da Rom\u00eania. Muitos tinham como refer\u00eancia inicial a Pra\u00e7a Onze, outro territ\u00f3rio essencial da mem\u00f3ria judaica e popular do Rio, e depois se estabeleceram na Rua Senhor dos Passos e arredores. Embora unidos pela religi\u00e3o, esses grupos eram muito diferentes entre si. Falavam l\u00ednguas diversas, traziam costumes distintos e vinham de contextos culturais pr\u00f3prios. No entanto, o Centro do Rio, com sua voca\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de acolher, misturar e transformar, deu a todos eles uma gram\u00e1tica comum: o com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Um dos personagens mais cinematogr\u00e1ficos dessa hist\u00f3ria \u00e9 o mascate. Antes de se tornarem lojistas estabelecidos, muitos desses imigrantes come\u00e7aram vendendo mercadorias de porta em porta, carregando malas, caixotes e pequenos estoques de bot\u00f5es, fitas, gravatas, perfumes, tecidos, linhas e agulhas. Eram os \u201cturcos da presta\u00e7\u00e3o\u201d e os \u201cjudeus da presta\u00e7\u00e3o\u201d, figuras que se tornaram familiares em muitas cidades brasileiras. Vendiam fiado, parcelavam, negociavam, adaptavam-se \u00e0 renda do fregu\u00eas e criavam la\u00e7os pessoais com a clientela. Assim, ajudaram a popularizar o acesso a bens manufaturados e introduziram pr\u00e1ticas comerciais que fariam parte da vida cotidiana do Brasil urbano.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das chaves para entender o esp\u00edrito do SAARA. O com\u00e9rcio ali nunca foi apenas troca de dinheiro por mercadoria. Sempre foi conversa, confian\u00e7a, barganha, freguesia, repeti\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia, palavra dada. O pre\u00e7o, em muitos casos, n\u00e3o \u00e9 apenas uma informa\u00e7\u00e3o fixa, mas o in\u00edcio de uma intera\u00e7\u00e3o. No SAARA, compra-se negociando, olhando, tocando, perguntando, comparando, ouvindo o vendedor chamar, entrando e saindo de lojas, voltando ao primeiro balc\u00e3o depois de circular por tr\u00eas ruas. \u00c9 uma forma de com\u00e9rcio profundamente diferente da experi\u00eancia ass\u00e9ptica do shopping center. No SAARA, a rua participa da venda.<\/p>\n<p>E a rua, no Centro do Rio, nunca \u00e9 neutra. O casario ecl\u00e9tico de dois e tr\u00eas pavimentos, as fachadas estreitas, os sobrados cont\u00edguos, as lojas abertas diretamente para o passeio e as ruas de pedestres criam uma intimidade rara entre o espa\u00e7o p\u00fablico e o privado. A loja se derrama sobre a rua, e a rua entra dentro da loja. Mercadorias aparecem em balc\u00f5es m\u00f3veis, vitrines improvisadas, cestos, araras e mostru\u00e1rios. As vozes dos vendedores misturam-se ao som ambiente, aos an\u00fancios, ao burburinho dos compradores, \u00e0s conversas r\u00e1pidas, aos chamados de quem procura um tecido, uma fantasia, uma bijuteria, uma panela, uma fita, uma especiaria, um brinquedo ou um enfeite natalino.<\/p>\n<p>Poucos lugares do Rio t\u00eam uma paisagem t\u00e3o mut\u00e1vel. No come\u00e7o do ano, o SAARA se cobre de Carnaval. Logo depois, v\u00eam os materiais escolares, mochilas, cadernos, l\u00e1pis, estojos e uniformes. Em ano de Copa do Mundo, o verde e amarelo toma as ruas. Em dezembro, o lugar vira quase uma cidade natalina, com tren\u00f3s, guirlandas, \u00e1rvores, luzes, pres\u00e9pios, bolas coloridas e aquela sensa\u00e7\u00e3o carioca de que o Natal come\u00e7a quando o SAARA come\u00e7a a brilhar. Essa mudan\u00e7a constante, mais do que simples estrat\u00e9gia comercial, \u00e9 parte do calend\u00e1rio afetivo do Centro. O ano do Rio passa pelas vitrines do SAARA.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Eduardo Cavaliere no Saara \u2013 Foto: Marco Antonio Lima<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas essa hist\u00f3ria de vida, mistura e com\u00e9rcio quase foi destru\u00edda. A constru\u00e7\u00e3o da Avenida Presidente Vargas, nos anos 1940, foi uma das maiores interven\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas da hist\u00f3ria do Rio e rasgou violentamente uma parte fundamental do tecido antigo da cidade. Segundo o estudo de Neiva Vieira da Cunha, a abertura da avenida apagou da regi\u00e3o nada menos que  <strong>525<\/strong> lojas e resid\u00eancias, al\u00e9m de quatro igrejas e parte significativa do Campo de Santana. Foi um golpe profundo numa \u00e1rea que j\u00e1 possu\u00eda uma vida social intensa, feita de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, familiares e culturais entre comerciantes de v\u00e1rias origens.<\/p>\n<p>O SAARA n\u00e3o \u00e9 apenas um lugar que cresceu. \u00c9 um lugar que sobreviveu. Sobreviveu \u00e0 l\u00f3gica monumental das grandes avenidas, \u00e0 obsess\u00e3o modernizante que tantas vezes tratou o passado carioca como obst\u00e1culo, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de quarteir\u00f5es inteiros, ao desaparecimento de igrejas, sobrados, moradias e pequenos com\u00e9rcios que davam sentido humano ao Centro. A Avenida Presidente Vargas, com toda a sua escala monumental, produziu tamb\u00e9m uma ferida urbana. O SAARA permaneceu como uma esp\u00e9cie de resto glorioso, uma por\u00e7\u00e3o resistente da cidade mi\u00fada, caminh\u00e1vel, misturada e profundamente humana que o urbanismo do s\u00e9culo XX tantas vezes tentou eliminar.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a, por\u00e9m, n\u00e3o terminou ali. No fim dos anos 1950, voltou a circular a ideia de abertura de uma nova via, a <strong>Avenida Diagonal<\/strong>, que poderia fazer desaparecer o grande mercado a c\u00e9u aberto. Foi diante dessa possibilidade que os comerciantes decidiram se organizar. Em 1962, nasceu a <strong>Sociedade dos Amigos das Adjac\u00eancias da Rua da Alf\u00e2ndega<\/strong>, cuja sigla formaria o nome SAARA. A associa\u00e7\u00e3o surgiu como instrumento de defesa coletiva, administra\u00e7\u00e3o local e afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos comerciantes diante das amea\u00e7as do urbanismo oficial.<\/p>\n<p>\u00c9 bonito perceber que o nome SAARA, hoje t\u00e3o natural para qualquer carioca, nasceu de uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia. A sigla virou identidade. A entidade passou a cuidar de servi\u00e7os como limpeza, coleta de lixo, transporte de mercadorias, propaganda e seguran\u00e7a. Ao fazer isso, os comerciantes demonstraram que aquele territ\u00f3rio n\u00e3o era um amontoado ca\u00f3tico de lojas, mas uma comunidade econ\u00f4mica organizada, capaz de gerir seu pr\u00f3prio cotidiano e defender sua perman\u00eancia no Centro.<\/p>\n<p>H\u00e1 nisso uma li\u00e7\u00e3o poderosa para o Rio de hoje. O Centro n\u00e3o se revitaliza apenas com grandes projetos, incentivos fiscais ou reformas vistosas. Ele se revitaliza \u2014 e sobretudo permanece vivo \u2014 quando seus usos tradicionais s\u00e3o reconhecidos, quando sua popula\u00e7\u00e3o cotidiana \u00e9 respeitada, quando o com\u00e9rcio de rua \u00e9 entendido como patrim\u00f4nio cultural e quando se percebe que a vitalidade urbana nasce da mistura. O SAARA \u00e9 uma aula pr\u00e1tica de cidade. Ele re\u00fane com\u00e9rcio, circula\u00e7\u00e3o de transporte, mem\u00f3ria imigrante, arquitetura, uso intenso da rua e uma impressionante capacidade de atrair gente de todos os cantos. \u00c9 justamente o contr\u00e1rio da cidade vazia, cenogr\u00e1fica, feita apenas para passagem ou contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o familiar do SAARA tamb\u00e9m \u00e9 um de seus elementos mais comoventes. Muitas lojas foram passadas de pai para filho, de av\u00f4 para neto. A segunda e a terceira gera\u00e7\u00e3o dos descendentes dos primeiros imigrantes ainda marcou fortemente a regi\u00e3o. Em v\u00e1rios casos, a loja foi mais do que um neg\u00f3cio: foi o centro da vida familiar, o ponto de encontro, a heran\u00e7a concreta deixada por quem chegou ao Brasil com pouco dinheiro, muita disposi\u00e7\u00e3o e uma rede de parentes ou conterr\u00e2neos dispostos a ajudar. Durante d\u00e9cadas, era comum que as fam\u00edlias morassem sobre as lojas ou nos fundos dos estabelecimentos. O sobrado do Centro era casa e trabalho, intimidade e balc\u00e3o, cozinha e estoque, vida dom\u00e9stica e vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Essa conjuga\u00e7\u00e3o entre morar e trabalhar \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais antigas e mais urbanas do Rio. O Centro antigo era feito disso. Pessoas viviam sobre lojas, ao lado de oficinas, perto das igrejas, das reparti\u00e7\u00f5es, dos portos, das pra\u00e7as e dos mercados. A separa\u00e7\u00e3o radical entre zona de trabalho e zona de moradia, t\u00e3o t\u00edpica da cidade moderna, empobreceu muito a vida urbana. O SAARA preservou, ainda que parcialmente, a lembran\u00e7a de um Rio em que o cotidiano era mais integrado, mais pedestre, mais pr\u00f3ximo e mais intenso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso, o SAARA n\u00e3o pode ser visto apenas como \u201ccom\u00e9rcio popular\u201d. Ele \u00e9 uma experi\u00eancia completa de cidade. O conjunto formado pelo casario, pelas ruas estreitas, pelas vozes, pelas mercadorias, pelos cheiros de especiarias, pelo som dos passos, pelo calor humano, pela pressa e pela pausa, pela pechincha e pela vitrine, pela proximidade do metr\u00f4, do trem, dos \u00f4nibus e do velho cora\u00e7\u00e3o comercial da cidade cria uma atmosfera que nenhum shopping consegue reproduzir. \u00c9 o Centro em estado bruto, vivo, popular e aut\u00eantico.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"> Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Bras<\/figcaption><\/figure>\n<p>O SAARA envolve o visitante porque n\u00e3o se revela apenas aos olhos. \u00c9 preciso atravessar, procurar, perguntar, negociar, entrar, sair, voltar, esbarrar, ouvir. O SAARA \u00e9 uma experi\u00eancia corporal do Centro do Rio. Talvez por isso seja t\u00e3o amado: porque ele n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o urbana. \u00c9 concreto, barulhento, colorido, \u00fatil, barato, cheio, imperfeito e vivo.<\/p>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o ajuda a explicar essa for\u00e7a. O SAARA est\u00e1 encravado numa \u00e1rea servida por m\u00faltiplos meios de transporte. Suas ruas funcionam como passagem para trabalhadores, consumidores, moradores de v\u00e1rios bairros, suburbanos, gente da Zona Sul, carnavalescos, costureiras, decoradores, donas de casa, lojistas de outras regi\u00f5es, turistas curiosos e personagens an\u00f4nimos da vida carioca. O estudo menciona uma circula\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de cerca de 60 mil consumidores, atra\u00eddos pela variedade dos produtos e pelos pre\u00e7os baixos. \u00c9 uma multid\u00e3o que mant\u00e9m aceso o velho papel do Centro como ponto de encontro da cidade inteira.<\/p>\n<p>E h\u00e1 algo profundamente carioca nessa mistura social. O SAARA \u00e9 democr\u00e1tico sem precisar anunciar isso. Ali o morador do sub\u00farbio e o decorador sofisticado podem procurar a mesma fita. A senhora que prepara uma festa de fam\u00edlia cruza com o carnavalesco que busca material para uma fantasia. O lojista conversa com o cliente antigo pelo nome. A pechincha convive com o atacado. O popular e o especializado se encontram na mesma cal\u00e7ada. Poucos lugares expressam t\u00e3o bem a velha capacidade do Centro de juntar mundos diferentes.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio de especiarias e produtos orientais \u00e9 outro ponto precioso. Entre lojas de tecidos, armarinhos, brinquedos, bijuterias, artigos para festas e papelarias, aparecem restaurantes, armaz\u00e9ns e casas onde se compram gr\u00e3os, temperos, condimentos, nozes, am\u00eandoas, frutas secas e especialidades do Oriente. \u00c9 uma sobreviv\u00eancia sensorial da imigra\u00e7\u00e3o. O cheiro das especiarias, os doces \u00e1rabes, os gr\u00e3os a granel e os produtos t\u00edpicos funcionam como pequenas c\u00e1psulas de mem\u00f3ria. O SAARA guarda, em plena cidade portuguesa, imperial, republicana e carioca, ecos de Beirute, Damasco, Alepo, Istambul, Vars\u00f3via, Lisboa, Madri, Atenas e tantos outros pontos de partida.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do SAARA \u00e9 muito mais do que a trajet\u00f3ria de uma \u00e1rea comercial. Ela revela como o Centro do Rio foi constru\u00eddo por sucessivas camadas humanas, econ\u00f4micas e culturais. A Rua da Alf\u00e2ndega, cujo pr\u00f3prio nome remete ao com\u00e9rcio, \u00e0 aduana, ao porto e \u00e0s mercadorias que entravam na cidade, tornou-se palco de uma experi\u00eancia urbana rar\u00edssima. O antigo eixo comercial do Rio Imperial foi sendo ocupado por imigrantes que trouxeram pr\u00e1ticas de bazar, redes familiares, venda a cr\u00e9dito, esp\u00edrito de trabalho e uma impressionante capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. Depois, quando as grandes reformas amea\u00e7aram varrer tudo do mapa, esses comerciantes criaram uma associa\u00e7\u00e3o e salvaram seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>No fundo, a hist\u00f3ria do SAARA \u00e9 a hist\u00f3ria de uma vit\u00f3ria do pequeno com\u00e9rcio sobre a cidade abstrata dos gabinetes. \u00c9 a vit\u00f3ria da rua sobre a avenida monumental. Da loja estreita sobre o tra\u00e7ado impessoal. Da conversa sobre o sil\u00eancio dos grandes centros comerciais fechados. Da mem\u00f3ria familiar sobre a demoli\u00e7\u00e3o. Do Centro vivo sobre o Centro tratado apenas como passagem.<\/p>\n<p>Num momento em que o Centro do Rio vive um novo ciclo vigoroso de revitaliza\u00e7\u00e3o, com mais moradores, novos neg\u00f3cios, bares, restaurantes, projetos culturais, retrofits e reocupa\u00e7\u00e3o urbana, revisitar a hist\u00f3ria do SAARA \u00e9 tamb\u00e9m lembrar que a vitalidade da regi\u00e3o nunca deixou de existir. Ela estava ali, pulsando nas ruas estreitas, nos comerciantes, nas lojas de fam\u00edlia, nos fregueses, nos cheiros e nas mercadorias. O SAARA nunca precisou fingir ser aut\u00eantico. Ele simplesmente \u00e9.<\/p>\n<p>Por isso, qualquer projeto s\u00e9rio de valoriza\u00e7\u00e3o do Centro precisa olhar para o SAARA n\u00e3o como uma \u00e1rea meramente comercial, mas como patrim\u00f4nio vivo da cidade. Seu valor n\u00e3o est\u00e1 apenas nos pr\u00e9dios, embora o casario ecl\u00e9tico seja parte essencial da paisagem. N\u00e3o est\u00e1 apenas nas lojas, embora elas sustentem milhares de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. N\u00e3o est\u00e1 apenas na mem\u00f3ria dos imigrantes, embora ela seja fundamental. Est\u00e1 na soma de tudo isso: arquitetura, com\u00e9rcio, circula\u00e7\u00e3o, oralidade, trabalho, fam\u00edlia, festa, pechincha e perman\u00eancia.<\/p>\n<p>O Rio antigo n\u00e3o sobrevive apenas nas igrejas barrocas das irmandades cat\u00f3licas tricenten\u00e1rias, nos sobrados restaurados, nas fachadas tombadas ou nas fotografias em s\u00e9pia. Ele sobrevive tamb\u00e9m quando uma rua continua sendo rua. Quando o vendedor chama o fregu\u00eas. Quando o com\u00e9rcio ocupa o t\u00e9rreo e a vida passa a p\u00e9. Quando um lugar conserva a escala humana. Quando a cidade ainda permite encontro, surpresa e negocia\u00e7\u00e3o. O SAARA \u00e9 uma dessas raras perman\u00eancias.<\/p>\n<p>Talvez seja por isso que o carioca, mesmo sem saber a hist\u00f3ria completa, reconhe\u00e7a ali alguma coisa familiar. O SAARA parece antigo mesmo quando vende mercadoria nova. Parece estrangeiro mesmo sendo absolutamente carioca. Parece ca\u00f3tico, mas obedece a uma ordem pr\u00f3pria. Parece popular, mas carrega uma sofistica\u00e7\u00e3o urbana que muitos bairros planejados jamais alcan\u00e7aram. Ele \u00e9, ao mesmo tempo, mercado, mem\u00f3ria e teatro.<\/p>\n<p>Poucos cariocas imaginam que o lugar onde hoje compram fantasias, tecidos, enfeites de Natal, brinquedos ou artigos para festas guarda uma das hist\u00f3rias mais importantes da forma\u00e7\u00e3o social do Centro do Rio. \u00c9 um cap\u00edtulo escrito por imigrantes que desembarcaram na Pra\u00e7a XV, caminharam para a Rua da Alf\u00e2ndega, venderam de porta em porta, abriram lojas, formaram fam\u00edlias, enfrentaram demoli\u00e7\u00f5es e deixaram para a cidade uma heran\u00e7a que continua viva.<\/p>\n<p>O SAARA, afinal, \u00e9 uma pequena epopeia carioca. Uma epopeia sem est\u00e1tuas, sem generais e sem solenidade oficial. Seus her\u00f3is foram mascates, lojistas, costureiros, caixeiros, comerciantes, fregueses, fam\u00edlias inteiras que transformaram necessidade em trabalho e trabalho em cidade. No meio do Centro, entre a mem\u00f3ria do porto, a sombra da Presidente Vargas, a proximidade da Pra\u00e7a XV, o casario resistente e o burburinho di\u00e1rio de milhares de pessoas, o SAARA continua contando a hist\u00f3ria de um Rio que se recusa a desaparecer.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/Griyw8pRnEUEsZPEBS0sNk\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/o-saara-quase-desapareceu-a-historia-dos-imigrantes-que-transformaram-a-rua-da-alfandega-no-grande-bazar-carioca\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A regi\u00e3o do Saara est\u00e1 lotada, no Centro do Rio, por conta das compras de Natal \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o do Facebook H\u00e1 lugares no Rio de Janeiro que n\u00e3o s\u00e3o apenas endere\u00e7os. S\u00e3o organismos vivos, feitos de vozes, cheiros, fachadas antigas, fregueses apressados, comerciantes atentos, vitrines coloridas, hist\u00f3rias de fam\u00edlia e uma mem\u00f3ria coletiva que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30628,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30627","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/30627","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=30627"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/30627\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/30628"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=30627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=30627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=30627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}