{"id":30631,"date":"2026-05-31T04:09:14","date_gmt":"2026-05-31T07:09:14","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30631"},"modified":"2026-05-31T04:09:14","modified_gmt":"2026-05-31T07:09:14","slug":"um-dos-lugares-mais-surpreendentes-do-rio-que-todo-brasileiro-deveria-conhecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30631","title":{"rendered":"Um dos lugares mais surpreendentes do Rio que todo brasileiro deveria conhecer"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_9370.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">S\u00edtio Burle Marx \/ Foto: Rafael Azevedo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Quando se fala em <strong>Roberto Burle Marx<\/strong>, quase sempre se pensa primeiro em jardins. E n\u00e3o sem raz\u00e3o. Poucos artistas brasileiros transformaram de maneira t\u00e3o decisiva a paisagem moderna quanto ele. Seus projetos redesenharam o modo como o Brasil passou a enxergar a pr\u00f3pria flora, a pr\u00f3pria cor, a pr\u00f3pria ideia de natureza tropical organizada como arte. Mas talvez ainda se fale pouco de um dos lugares mais extraordin\u00e1rios do Rio de Janeiro: o <strong>S\u00edtio Roberto Burle Marx<\/strong>, em Barra de Guaratiba,\u00a0sob a guarda do <strong>IPHAN<\/strong> e reconhecido, desde 2021, como Patrim\u00f4nio Mundial da <strong>UNESCO<\/strong>.<\/p>\n<p>O S\u00edtio n\u00e3o \u00e9 apenas um jardim, nem apenas uma antiga resid\u00eancia de artista. \u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o rara, quase\u00a0inimit\u00e1vel, onde se encontram acervos bot\u00e2nicos vivos, arte popular, arte vernacular, imagin\u00e1ria sacra, pinturas, esculturas, arquitetura hist\u00f3rica e fragmentos salvos de demoli\u00e7\u00f5es urbanas. Ali, em meio \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o tropical e subtropical, Burle Marx construiu uma esp\u00e9cie de organismo cultural total, no qual natureza e cultura n\u00e3o se separam, mas se interpenetram como partes de uma mesma experi\u00eancia sens\u00edvel.<\/p>\n<p>A\u00a0grandeza do S\u00edtio n\u00e3o se esgota no reconhecimento internacional, nem mesmo no seu acervo bot\u00e2nico extraordin\u00e1rio, composto por milhares de esp\u00e9cies de plantas tropicais e subtropicais. Seu valor mais profundo talvez resida na maneira como Burle Marx reuniu, salvou e reinterpretou testemunhos diversos da cultura brasileira. O paisagista n\u00e3o foi apenas um criador de jardins; foi tamb\u00e9m pintor, escultor, m\u00fasico, colecionador e int\u00e9rprete de formas. Um humanista de muitas faces, capaz de enxergar beleza justamente naquilo que o senso comum tantas vezes descartava.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para compreender a l\u00f3gica do S\u00edtio. Burle Marx n\u00e3o se cercou de suas cole\u00e7\u00f5es apenas por deleite, ornamento ou gosto privado. Seu conv\u00edvio com plantas, imagens sacras, objetos populares, fragmentos arquitet\u00f4nicos e obras de arte alimentava uma forma pr\u00f3pria de cria\u00e7\u00e3o, em que percep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e inven\u00e7\u00e3o se misturavam continuamente. As cole\u00e7\u00f5es funcionavam como est\u00edmulos, como repert\u00f3rios visuais e afetivos, como mat\u00e9ria viva para sua imagina\u00e7\u00e3o. Em seu universo, colecionar tamb\u00e9m era criar.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que o S\u00edtio Roberto Burle Marx se transforma em algo muito maior do que um museu convencional. Ele \u00e9, antes de tudo, um ancoradouro de salvaguarda da mem\u00f3ria brasileira. A palavra \u00e9 proposital. Ali aportaram plantas desprezadas como \u201cmato\u201d, imagens sacras danificadas, pe\u00e7as populares subestimadas, cantarias provenientes de edif\u00edcios demolidos, objetos que talvez tivessem desaparecido se n\u00e3o encontrassem abrigo no olhar generoso e agudo de Burle Marx.<\/p>\n<p>Seu gesto colecionador revela uma verdadeira ret\u00f3rica da salva\u00e7\u00e3o. Em vez de buscar apenas obras de grife, perfeitamente conservadas ou legitimadas pelo mercado erudito, Burle Marx acolheu tamb\u00e9m o fragmentado, o incompleto, o popular, o r\u00fastico e o amea\u00e7ado. Pe\u00e7as de arte sacra danificadas, imagens de orat\u00f3rio, ex-votos, santos populares e\u00a0algumas\u00a0obras sem grande prest\u00edgio comercial passaram a integrar um conjunto em que a eloqu\u00eancia da forma parecia importar mais do que o acabamento perfeito. Como defendi em estudo anterior sobre sua cole\u00e7\u00e3o de arte sacra, havia nele uma aten\u00e7\u00e3o especial aos objetos que corriam o risco de desaparecer \u2014 n\u00e3o por falta de beleza, mas por falta de olhar.<\/p>\n<p>Essa ret\u00f3rica da salva\u00e7\u00e3o aparece tamb\u00e9m na arquitetura do lugar. A\u00a0setecentista\u00a0Capela de Santo Ant\u00f4nio da Bica, j\u00e1 existente no terreno adquirido por Burle Marx no fim da d\u00e9cada de 1940, foi recuperada e incorporada \u00e0 vida do S\u00edtio. O mesmo esp\u00edrito se observa no c\u00e9lebre ateli\u00ea constru\u00eddo sob um frontisp\u00edcio inteiro em cantaria, proveniente da demoli\u00e7\u00e3o de um edif\u00edcio hist\u00f3rico da Pra\u00e7a Mau\u00e1. Aquilo que a cidade descartou, Burle Marx transformou em presen\u00e7a, abrigo e linguagem. No S\u00edtio, o fragmento salvo deixa de ser ru\u00edna e passa a organizar uma nova experi\u00eancia est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Poucos lugares no Brasil demonstram com tanta for\u00e7a que preservar n\u00e3o \u00e9 congelar o passado. Preservar, ali, \u00e9 criar novas condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia. \u00c9 permitir que uma pedra deslocada,\u00a0um f\u00f3ssil,\u00a0uma imagem popular, uma planta nativa ou uma talha antiga continuem produzindo sentido. \u00c9 fazer com que a mem\u00f3ria n\u00e3o seja tratada como peso morto, mas como mat\u00e9ria ativa de inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, o trabalho do IPHAN na manuten\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o do S\u00edtio Roberto Burle Marx merece amplo reconhecimento. A institui\u00e7\u00e3o que hoje guarda esse conjunto n\u00e3o administra apenas um bem tombado ou um jardim hist\u00f3rico. Administra um acervo vivo, complexo e delicado, que re\u00fane dimens\u00f5es bot\u00e2nicas, museol\u00f3gicas, arquitet\u00f4nicas, art\u00edsticas e afetivas. Trata-se de uma das responsabilidades preservacionistas mais sofisticadas do pa\u00eds, justamente porque seu objeto n\u00e3o cabe em categorias simples.<\/p>\n<p>O Brasil costuma compartimentar o patrim\u00f4nio: de um lado a natureza, de outro a arte; de um lado o museu, de outro o jardim; de um lado a arquitetura, de outro a bot\u00e2nica; de um lado o popular, vernacular ou identit\u00e1rio, de outro o erudito. O S\u00edtio Roberto Burle Marx desmonta essa divis\u00e3o. Ali, uma\u00a0helic\u00f4nia\u00a0pode dialogar com uma imagem de Santo Ant\u00f4nio; uma pintura pode encontrar eco no desenho de um jardim; uma carranca, um ex-voto, uma pe\u00e7a de arte sacra ou uma planta rara podem participar da mesma sintaxe cultural.<\/p>\n<p>Talvez seja exatamente essa integra\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a do S\u00edtio uma das institui\u00e7\u00f5es preservacionistas mais ic\u00f4nicas do mundo. N\u00e3o se trata apenas de conservar cole\u00e7\u00f5es, mas de conservar rela\u00e7\u00f5es. Rela\u00e7\u00f5es entre arte e natureza, entre mem\u00f3ria e inven\u00e7\u00e3o, entre modernismo e cultura popular, entre paisagismo e brasilidade. O S\u00edtio \u00e9 a prova viva de que o patrim\u00f4nio brasileiro n\u00e3o \u00e9 uma sucess\u00e3o de objetos isolados, mas um tecido de conex\u00f5es.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso, Barra de Guaratiba precisa ser mais lembrada nos roteiros culturais do Rio. Enquanto milh\u00f5es de turistas percorrem anualmente o Cristo Redentor, o P\u00e3o\u00a0de A\u00e7\u00facar, Copacabana, o Centro hist\u00f3rico e os grandes museus, ainda s\u00e3o relativamente poucos aqueles que se deslocam at\u00e9 esse extremo oeste da cidade para conhecer uma das experi\u00eancias culturais mais completas que o Brasil oferece. E isso \u00e9 um desperd\u00edcio.<\/p>\n<p>O S\u00edtio Roberto Burle Marx oferece ao visitante algo muito diferente da experi\u00eancia dos grandes equipamentos tur\u00edsticos tradicionais. N\u00e3o \u00e9 apenas uma visita; \u00e9 uma imers\u00e3o. \u00c9 a possibilidade de caminhar por jardins que s\u00e3o obras de arte vivas, observar cole\u00e7\u00f5es que revelam o gosto e a intelig\u00eancia de um dos maiores criadores brasileiros, entrar em contato com\u00a0fragmentos\u00a0reinterpretados, compreender a for\u00e7a da arte\u00a0vernacular e tradicional,\u00a0percebendo ainda\u00a0como a natureza brasileira foi elevada por Burle Marx \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de linguagem universal.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds que tantas vezes destruiu seus tesouros o S\u00edtio Roberto Burle Marx permanece como uma resposta luminosa. Ali, aquilo que poderia ter sido esquecido foi salvo. Aquilo que poderia ter sido tratado como resto foi transformado em repert\u00f3rio. Aquilo que poderia ter desaparecido ganhou nova vida.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o\u00a0um dos maiores tesouros\u00a0do Rio talvez esteja mesmo em Barra de Guaratiba. Porque ali Roberto Burle Marx n\u00e3o apenas viveu, criou e colecionou. Ali ele ensinou, com plantas, pedras, imagens, pinturas e objetos, que a verdadeira preserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita a guardar o passado: ela o salva\u00a0e reconfigura\u00a0para que continue inspirando o futuro.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/Griyw8pRnEUEsZPEBS0sNk\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/um-dos-lugares-mais-surpreendentes-do-rio-que-todo-brasileiro-deveria-conhecer\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00edtio Burle Marx \/ Foto: Rafael Azevedo Quando se fala em Roberto Burle Marx, quase sempre se pensa primeiro em jardins. 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