{"id":30922,"date":"2026-06-03T08:22:57","date_gmt":"2026-06-03T11:22:57","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30922"},"modified":"2026-06-03T08:22:57","modified_gmt":"2026-06-03T11:22:57","slug":"as-irmandades-que-ajudaram-a-construir-o-rio-e-atravessaram-uma-grande-transformacao-no-seculo-xix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30922","title":{"rendered":"As irmandades que ajudaram a construir o Rio e atravessaram uma grande transforma\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_5787.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, a 8 de Setembro de 1937, no Arco do Teles &#8211; Travessa do Com\u00e9rcio \/ Foto: Irmandade de N. S. da Lapa, Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos, as irmandades religiosas estiveram entre as institui\u00e7\u00f5es mais influentes do Rio de Janeiro. Muito antes de existirem secretarias de assist\u00eancia social, funda\u00e7\u00f5es culturais ou mesmo parte da estrutura p\u00fablica que conhecemos hoje, confrarias formadas por comerciantes, artes\u00e3os, militares, funcion\u00e1rios p\u00fablicos e homens comuns ajudavam a sustentar igrejas, socorrer necessitados, organizar festas religiosas e moldar a pr\u00f3pria vida urbana da cidade.<\/p>\n<p>Quem percorre hoje as ruas do Centro Hist\u00f3rico talvez n\u00e3o imagine que boa parte dos templos, prociss\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es que marcaram a hist\u00f3ria carioca nasceu justamente dessas associa\u00e7\u00f5es de leigos. Em uma \u00e9poca em que a religi\u00e3o ocupava papel central na vida cotidiana, as irmandades constitu\u00edam uma verdadeira rede de sociabilidade, assist\u00eancia e devo\u00e7\u00e3o que atravessava praticamente todos os setores da sociedade.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro do s\u00e9culo XIX era uma cidade profundamente diferente daquela que conhecemos. As ruas estreitas do Centro eram frequentemente tomadas por prociss\u00f5es. Imagens sacras sa\u00edam dos templos acompanhadas por estandartes, tochas, m\u00fasica e multid\u00f5es de fi\u00e9is. As festas dos padroeiros movimentavam bairros inteiros. As igrejas n\u00e3o eram apenas locais de ora\u00e7\u00e3o, mas centros de encontro, identidade e conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>As irmandades estavam no cora\u00e7\u00e3o desse universo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos imaginam hoje, elas n\u00e3o eram meros grupos de ora\u00e7\u00e3o reunidos em torno de uma devo\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Possu\u00edam estrutura administrativa pr\u00f3pria, patrim\u00f4nio, receitas, compromissos escritos, cargos eletivos e responsabilidades concretas. Muito mais do que hoje, administravam dezenas de milhares de im\u00f3veis, alugavam casas, cuidavam de terrenos, arrecadavam rendas, financiavam obras, mantinham igrejas e organizavam celebra\u00e7\u00f5es que mobilizavam centenas ou mesmo milhares de pessoas.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p>O historiador <strong>Anderson Jos\u00e9 Machado de Oliveira<\/strong> lembra que essas institui\u00e7\u00f5es desempenhavam ainda um papel essencial na assist\u00eancia social, frequentemente suprindo fun\u00e7\u00f5es que caberiam ao pr\u00f3prio Estado. Em uma sociedade sem previd\u00eancia p\u00fablica, sistema universal de sa\u00fade ou rede estatal de assist\u00eancia, as irmandades ajudavam irm\u00e3os enfermos, financiavam funerais, socorriam necessitados e garantiam amparo aos seus membros.<\/p>\n<p>Essa presen\u00e7a era t\u00e3o marcante que as confrarias se transformaram em importantes instrumentos de organiza\u00e7\u00e3o da vida urbana e religiosa da cidade, atuando lado a lado com autoridades civis e eclesi\u00e1sticas e exercendo influ\u00eancia que, em muitos aspectos, ajudava a definir o funcionamento cotidiano da pr\u00f3pria cidade.<\/p>\n<p>As igrejas que constru\u00edam e mantinham eram motivo de orgulho. Muitas vezes erguidas com recursos arrecadados entre os pr\u00f3prios irm\u00e3os, tornavam-se refer\u00eancias de bairros inteiros. As confrarias zelavam pelos altares, imagens, paramentos e celebra\u00e7\u00f5es, cuidando para que seus templos refletissem o prest\u00edgio e a devo\u00e7\u00e3o de seus membros.<\/p>\n<p>As festas religiosas ocupavam lugar especial nesse mundo. Muito al\u00e9m das cerim\u00f4nias lit\u00fargicas, constitu\u00edam momentos de encontro social, refor\u00e7o de la\u00e7os comunit\u00e1rios e afirma\u00e7\u00e3o p\u00fablica da f\u00e9. Prociss\u00f5es cruzavam a cidade, congregando moradores de diferentes condi\u00e7\u00f5es sociais. As ruas transformavam-se em cen\u00e1rio de manifesta\u00e7\u00f5es religiosas que eram, ao mesmo tempo, acontecimentos espirituais e eventos sociais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m faziam parte desse universo os tradicionais banquetes confraternais. Herdeiros de costumes medievais trazidos de Portugal, esses encontros reuniam os irm\u00e3os ap\u00f3s determinadas solenidades religiosas. Comer juntos era uma forma de fortalecer os v\u00ednculos da confraria e celebrar a comunh\u00e3o entre seus membros. Aos olhos dos participantes, tratava-se de uma continua\u00e7\u00e3o natural da festa religiosa.<\/p>\n<p>Era, portanto, um catolicismo profundamente vivido nas ruas, nas casas, nas igrejas e na conviv\u00eancia cotidiana.<\/p>\n<p>Mas justamente quando as irmandades alcan\u00e7avam grande influ\u00eancia, a Igreja Cat\u00f3lica atravessava uma fase de profundas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XIX, os bispos brasileiros passaram a participar de um amplo movimento de renova\u00e7\u00e3o religiosa que aproximava cada vez mais o pa\u00eds de Roma. Inspirados pelos princ\u00edpios da chamada Reforma Cat\u00f3lica ou Romaniza\u00e7\u00e3o, procuravam fortalecer a autoridade episcopal, reformar a forma\u00e7\u00e3o do clero e incentivar pr\u00e1ticas religiosas consideradas mais alinhadas \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es da Santa S\u00e9.<\/p>\n<p>Nesse contexto, as antigas irmandades tornaram-se objeto de crescente aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque fossem vistas como inimigas da Igreja. Pelo contr\u00e1rio. Eram institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas por excel\u00eancia e desempenhavam papel fundamental na manuten\u00e7\u00e3o da vida religiosa. O problema residia no fato de que haviam crescido ao longo de s\u00e9culos com ampla autonomia.<\/p>\n<p>Muitas confrarias administravam seus pr\u00f3prios bens, controlavam igrejas, organizavam festas e tomavam decis\u00f5es internas com pouca interfer\u00eancia externa. Seus capel\u00e3es frequentemente atuavam de acordo com as necessidades definidas pelas mesas administrativas compostas por leigos. Essa realidade havia se consolidado ao longo de gera\u00e7\u00f5es e parecia perfeitamente natural para os irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Para os bispos reformadores, entretanto, surgia uma quest\u00e3o delicada. Como harmonizar essa tradi\u00e7\u00e3o de autonomia leiga com uma Igreja que buscava maior unidade disciplinar e maior centraliza\u00e7\u00e3o de autoridade?<\/p>\n<p>Foi dessa diferen\u00e7a de perspectivas que nasceram algumas tens\u00f5es.<\/p>\n<p>O bispo <strong>Dom Pedro Maria de Lacerda<\/strong>, uma das figuras centrais desse per\u00edodo, demonstrava preocupa\u00e7\u00e3o com o elevado grau de independ\u00eancia das confrarias cariocas. Em correspond\u00eancia da \u00e9poca, chegou a descrever ordens terceiras, irmandades e confrarias como verdadeiros \u201cEstados dentro do Estado\u201d, observando que administravam seus bens e propriedades com grande liberdade.<\/p>\n<p>Ainda assim, a realidade mostrou-se mais complexa do que qualquer projeto de reforma.<\/p>\n<p>As irmandades possu\u00edam ra\u00edzes profundas na sociedade carioca. Eram respeitadas pelos fi\u00e9is, controlavam patrim\u00f4nios significativos e desempenhavam fun\u00e7\u00f5es religiosas e sociais que continuavam indispens\u00e1veis. Reform\u00e1-las integralmente revelou-se tarefa muito mais dif\u00edcil do que os bispos inicialmente imaginavam.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o pr\u00f3prio discurso mais duro de alguns setores reformadores acabou sendo suavizado. Em vez de propor mudan\u00e7as radicais ou a substitui\u00e7\u00e3o das antigas confrarias, cresceu a percep\u00e7\u00e3o de que seria mais prudente aproxim\u00e1-las gradualmente das orienta\u00e7\u00f5es da Igreja.<\/p>\n<p>Afinal, como observou o pr\u00f3prio processo hist\u00f3rico, as irmandades continuavam sendo uma das principais pontes entre a f\u00e9 cat\u00f3lica e a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado foi um longo processo de adapta\u00e7\u00e3o m\u00fatua. A Igreja procurou fortalecer sua autoridade e uniformizar pr\u00e1ticas religiosas. As irmandades, por sua vez, preservaram boa parte de suas tradi\u00e7\u00f5es, identidade e mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Mais de um s\u00e9culo depois, essa heran\u00e7a ainda permanece muito vis\u00edvel no Rio de Janeiro, e mais de 50 irmandades permanecem ativas, se n\u00e3o com import\u00e2ncia a rivalizar com o Estado, com dezenas de obras sociais de alta import\u00e2ncia, e muito atuantes no dia-a-dia do carioca.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p>Ela est\u00e1 presente nos templos erguidos e preservados por confrarias seculares. Nas prociss\u00f5es que continuam percorrendo ruas hist\u00f3ricas. Nas imagens veneradas por gera\u00e7\u00f5es sucessivas de cariocas. Nos arquivos, livros e compromissos que registram s\u00e9culos de devo\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m nas institui\u00e7\u00f5es que sobreviveram \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e religiosas da cidade. Embora muitas tenham perdido parte da influ\u00eancia que exerciam em outros tempos, as irmandades continuam ativas, administrando patrim\u00f4nios, mantendo obras assistenciais, escolas, asilos, cemit\u00e9rios, orfanatos, hospitais e outras iniciativas que preservam sua presen\u00e7a na vida religiosa e social da cidade.<\/p>\n<p>Conhecer a hist\u00f3ria das irmandades \u00e9 compreender que o Rio antigo n\u00e3o foi constru\u00eddo apenas por governadores, vice-reis, imperadores ou grandes comerciantes. Foi tamb\u00e9m obra de milhares de homens e mulheres comuns que encontraram nessas confrarias uma forma de expressar sua f\u00e9, praticar a caridade e participar ativamente da constru\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>E talvez seja justamente essa combina\u00e7\u00e3o de devo\u00e7\u00e3o, solidariedade e participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica que explique por que, passados tantos s\u00e9culos, as irmandades continuam ocupando um lugar singular na mem\u00f3ria do Rio de Janeiro.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/DKLXBqvvRB03P2eqZROGa4?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=2\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/as-irmandades-que-ajudaram-a-construir-o-rio-e-atravessaram-uma-grande-transformacao-no-seculo-xix\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, a 8 de Setembro de 1937, no Arco do Teles &#8211; Travessa do Com\u00e9rcio \/ Foto: Irmandade de N. 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