{"id":30956,"date":"2026-06-03T16:38:45","date_gmt":"2026-06-03T19:38:45","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30956"},"modified":"2026-06-03T16:38:45","modified_gmt":"2026-06-03T19:38:45","slug":"o-samba-como-ato-politico-stephen-bocskay-lanca-candeia-o-samba-o-quilombo-e-o-ativismo-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=30956","title":{"rendered":"O samba como ato pol\u00edtico: Stephen Bocskay lan\u00e7a &#8216;Candeia, o Samba, o Quilombo e o Ativismo Negro&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-02-at-16.29.38.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: Divulga\u00e7\u00e3o <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Com orelha de <strong>Luiz Antonio Simas<\/strong> e apresenta\u00e7\u00e3o de <strong>Muniz Sodr\u00e9<\/strong>, a obra re\u00fane documentos in\u00e9ditos, acervos pessoais de ativistas jamais tornados p\u00fablicos e entrevistas com <strong>Martinho da Vila<\/strong>, <strong>Dona Ivone Lara<\/strong>, <strong>Dom Fil\u00f3<\/strong>, <strong>Leci Brand\u00e3o<\/strong> e outros. O lan\u00e7amento ser\u00e1 em 6 de junho, com sess\u00e3o de aut\u00f3grafos e roda de samba na <strong>Livraria Folha Seca (Centro)<\/strong> e no<strong> Alfa Bar e Cultura<\/strong>. <\/p>\n<p>O que significa sambar como ato pol\u00edtico? Uma resposta poss\u00edvel est\u00e1 em Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro, novo livro do te\u00f3rico cultural e professor norte-americano Stephen Bocskay. Lan\u00e7ada pela editora Mal\u00ea, a obra mergulha na trajet\u00f3ria de Ant\u00f4nio Candeia Filho (1935\u20131978), um dos mais respeitados baluartes do samba carioca, e no legado do Gr\u00eamio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, entidade fundada por ele em 1975 como reduto de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o do Carnaval e \u00e0 eros\u00e3o das ra\u00edzes afro-brasileiras. Com pref\u00e1cio de Muniz Sodr\u00e9 e orelha de Luiz Ant\u00f4nio Simas, a obra chega \u00e0s livrarias com os primeiros eventos marcados para 6 de junho no Rio de Janeiro e 8 de junho em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Quinze anos de pesquisa arquiv\u00edstica e de campo separam a ideia inicial da obra, um desdobramento de sua tese de doutorado pela Universidade de Brown, nos Estados Unidos, que s\u00f3 agora chega \u00e0s livrarias. O resultado \u00e9 uma constela\u00e7\u00e3o de fontes que atravessa m\u00fasica, filosofia, sociologia, hist\u00f3ria, ci\u00eancias pol\u00edticas e literatura, e que desvela, com precis\u00e3o in\u00e9dita, as m\u00faltiplas dimens\u00f5es do ativismo negro no Brasil dos anos 1970.<\/p>\n<p><em>\u201cEm minha pesquisa de quase duas d\u00e9cadas incorporei documentos policiais antes sigilosos, do Brasil e dos Estados Unidos, jamais vistos pelo p\u00fablico, documentos preciosos de acervos pessoais de ativistas tamb\u00e9m in\u00e9ditos, 24 entrevistas com artistas e ativistas negros, al\u00e9m de jornais e revistas da \u00e9poca que s\u00f3 consegui com permiss\u00e3o especial. Gra\u00e7as a essas fontes, foi poss\u00edvel mostrar as complexidades das vis\u00f5es sobre a negritude e os sentidos de luta pol\u00edtica que existiam no Brasil conforme a classe social, a escolaridade e a forma\u00e7\u00e3o cultural dos negros<\/em>\u201d, destaca o autor, sobre a abrang\u00eancia e originalidade de fontes e argumentos que diferenciam a obra.<\/p>\n<p><strong>O samba como ato pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Em 1970, Candeia lan\u00e7ou \u201cDia de Gra\u00e7a\u201d, logo tomado como um hino da negritude. A letra exigia que o negro deixasse de ser \u201crei apenas na folia\u201d: o verso \u201ccante um samba na universidade\u201d era um chamado concreto numa \u00e9poca em que o Rio de Janeiro tinha mais de 650 mil brancos com curso superior contra cerca de 9 mil negros. Logo depois, viria a censura: o samba-calangueado \u201cO Morro do Sossego\u201d foi vetado pelo regime militar por \u201cincentivar a luta de classes\u201d.<br \/>No centro do livro est\u00e1 o GRANES Quilombo (Gr\u00eamio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo), muito mais do que uma escola de samba. Fundado por Candeia e outros sambistas de renome, como Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Martinho da Vila, o Quilombo nasceu de um rompimento: depois que a diretoria da Portela ignorou uma carta de Candeia com sugest\u00f5es para preservar a tradi\u00e7\u00e3o da escola, o grupo decidiu criar sua pr\u00f3pria entidade.<\/p>\n<p>Diferente das agremia\u00e7\u00f5es tradicionais, o Quilombo recusava financiamento da Riotur, tinha entrada franca, distribu\u00eda comida para os membros e funcionava como centro de pesquisas da arte negra, com palestras sobre a situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica do negro, rodas de partido-alto, jongo e caxambu, e exibi\u00e7\u00f5es de filmes. Intelectuais como Beatriz Nascimento e L\u00e9lia Gonzalez frequentavam a escola. Luiz Ant\u00f4nio Simas define o Quilombo, na orelha do livro, como um trabalho que \u201cn\u00e3o comporta zonas de conforto\u201d.<\/p>\n<p>Em plena ditadura militar, quando o AI-5 havia desmontado os direitos civis e as transmiss\u00f5es televisivas do Carnaval passavam a ditar um novo modelo espetacular, que o sambista chamava de Escola-Show, Candeia reagiu: o partido-alto tornou-se ferramenta de rea\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o, defendendo a liberdade art\u00edstica diante do comercialismo crescente.<\/p>\n<p><strong>Uma pesquisa de f\u00f4lego<\/strong><\/p>\n<p>Para reconstituir esse universo, Bocskay ouviu e reuniu uma polifonia de vozes, que raramente aparecem juntas numa mesma pesquisa. Martinho da Vila explicou o que Candeia queria dizer com \u201cN\u00e3o sou africano\u201d; Dona Ivone Lara questionou a necessidade de \u201cidolatrar a \u00c1frica\u201d sem negar o continente; Dom Fil\u00f3 revelou que a rivalidade entre samba e soul era, em parte, uma estrat\u00e9gia de marketing; Selma Candeia, filha do compositor, compartilhou mem\u00f3rias \u00edntimas do pai. Elton Medeiros avaliou que \u201co Quilombo foi um erro\u201d, apontando as contradi\u00e7\u00f5es internas que coexistiam. Tamb\u00e9m contribu\u00edram Beth Carvalho, Noca da Portela, Fernando Pamplona, Leci Brand\u00e3o, Zez\u00e9 Motta, Marcos Valle e S\u00e9rgio Cabral, entre muitos outros.<\/p>\n<p>O autor n\u00e3o escolheu caminhos f\u00e1ceis. Ao contr\u00e1rio, seu livro complexifica e revisita as tens\u00f5es entre os sambistas e o movimento Black Rio, que ganhava muita popularidade e influ\u00eancia na \u00e9poca; as acusa\u00e7\u00f5es de \u201cracismo negro\u201d sofridas pelo Quilombo; a contradi\u00e7\u00e3o interna no tratamento da mulher negra; e os paradoxos de um ativismo que nem sempre se identificava como tal. Como escreve Muniz Sodr\u00e9, a obra traz <em>\u201c\u00e0 luz discuss\u00f5es e epis\u00f3dios pouco conhecidos da vida paralela dos sambistas cariocas<\/em>\u201d. Luiz Antonio Simas sintetiza: <em>\u201cBocskay evita as comodidades das linhas retas e assenta suas reflex\u00f5es na encruzilhada<\/em>\u201d, lugar, por excel\u00eancia, do samba.<\/p>\n<p><strong>Um pan-africanista cultural<\/strong><\/p>\n<p>Filho de um flautista de choro, fundador da Portela, aos 14, Candeia j\u00e1 compunha sambas-enredo, e levou a Portela ao t\u00edtulo em 1953 e 1957. Nos anos 1960, participou do Zicartola, do CPC da UNE e do Teatro Opini\u00e3o, e teve sua composi\u00e7\u00e3o \u201cMinhas Madrugadas\u201d interpretada por Elizeth Cardoso no show \u201cRosa de Ouro\u201d, em 1965.<\/p>\n<p>O tiro que levou naquele mesmo ano, durante uma briga de tr\u00e2nsito, mudou tudo. Cadeirante e com a sa\u00fade fragilizada, Candeia mergulhou ainda mais fundo nas ra\u00edzes do samba e na luta pela dignidade do povo negro. E fez disso mat\u00e9ria musical. Faleceu em novembro de 1978, aos 43 anos, de complica\u00e7\u00f5es renais decorrentes da paraplegia. Em 2025, completaria 90 anos.<br \/>O livro aponta para o car\u00e1ter ao mesmo tempo preservacionista e inovador do sambista que, nos anos 70, j\u00e1 explorava um experimentalismo musical afro-diasp\u00f3rico. Nos discos Raiz, de 1971, e Samba de Roda, de 1975, Candeia foi al\u00e9m, aproximando-se do Afrobeat e da soul music, dialogando com ritmos do Brasil, dos Estados Unidos, do Caribe e da \u00c1frica Ocidental, no que Bocskay chama de um \u201ctropicalismo\u201d pioneiro da m\u00fasica negra.<\/p>\n<p>Segundo o autor, Candeia foi um aut\u00eantico pan-africanista cultural. N\u00e3o no sentido de um programa pol\u00edtico transnacional e o Quilombismo pol\u00edtico de Abdias Nascimento, mas pela maneira como recriava e reconfigurava os estilos musicais da di\u00e1spora africana, sempre garantindo que outros g\u00eaneros se adaptassem ao samba, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Uma postura que o fez defender a identidade nacional sem abrir m\u00e3o da inventividade.<\/p>\n<p>A leitura de Candeia, o Samba, o Quilombo e o Ativismo Negro \u00e9 essencial para compreender o samba como uma express\u00e3o cultural que vai al\u00e9m de um g\u00eanero musical: uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social, um arquivo vivo da experi\u00eancia negra e um campo de batalha pela dignidade e pela identidade de um povo.<br \/>No enterro de Candeia, em 1978, 500 pessoas, entre os mais ilustres nomes do samba, como Cartola e Clementina de Jesus, cantaram \u201cDia de Gra\u00e7a\u201d ao redor de seu jazigo. Com o rigor de quem dedicou quinze anos a escutar e a pesquisar, Bocskay entrega um livro que mant\u00e9m essa voz ecoando.<\/p>\n<p><strong>AGENDA DE LAN\u00c7AMENTOS:<br \/>Rio de Janeiro<br \/><\/strong>02\/06 (ter\u00e7a-feira), 19h \u2014 Mesa de conversa do autor com Selma Candeia (filha do Candeia), e media\u00e7\u00e3o da cantora Teresa Cristina, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon (Av. Afr\u00e2nio de Melo Franco, 290 lj. 205A)<br \/>06\/06 (s\u00e1bado), a partir das 14h \u2014 Sess\u00e3o de aut\u00f3grafos, com roda de samba, na Livraria Folha Seca (Centro) \/ Alfa Bar e Cultura (R. do Mercado, 34 \u2013 Centro)<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo<br \/>08\/06 (segunda-feira), 19h \u2014 Sess\u00e3o de aut\u00f3grafos, na Livraria Drummond (Avenida Paulista, 2073 \u2013 Conjunto Nacional)<\/p>\n<p><strong>FICHA T\u00c9CNICA<br \/><\/strong>T\u00edtulo: Candeia, o Samba, o Quilombo e o Ativismo Negro<br \/>Autor: Stephen Bocskay<br \/>Editora: Mal\u00ea<br \/>Orelha: Luiz Antonio Simas<br \/>Pref\u00e1cio: Muniz Sodr\u00e9<br \/>G\u00eanero: acad\u00eamico<br \/>N\u00famero de p\u00e1ginas: 262<br \/>Projeto gr\u00e1fico: 14\u00d721<br \/>Ano: 2026<br \/>Data de lan\u00e7amento: 02 de junho de 2026<br \/>Pre\u00e7o: R$ 78<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/DKLXBqvvRB03P2eqZROGa4?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=2\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/o-samba-como-ato-politico-stephen-bocskay-lanca-candeia-o-samba-o-quilombo-e-o-ativismo-negro\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o Com orelha de Luiz Antonio Simas e apresenta\u00e7\u00e3o de Muniz Sodr\u00e9, a obra re\u00fane documentos in\u00e9ditos, acervos pessoais de ativistas jamais tornados p\u00fablicos e entrevistas com Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Dom Fil\u00f3, Leci Brand\u00e3o e outros. O lan\u00e7amento ser\u00e1 em 6 de junho, com sess\u00e3o de aut\u00f3grafos e roda de samba [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30957,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-30956","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/30956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=30956"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/30956\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/30957"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=30956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=30956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=30956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}