{"id":31425,"date":"2026-06-07T15:29:59","date_gmt":"2026-06-07T18:29:59","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=31425"},"modified":"2026-06-07T15:29:59","modified_gmt":"2026-06-07T18:29:59","slug":"sao-joao-e-corpus-christi-nao-precisam-pedir-licenca-para-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=31425","title":{"rendered":"S\u00e3o Jo\u00e3o e Corpus Christi n\u00e3o precisam pedir licen\u00e7a para existir"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1o-Encontro-Estadual-de-Folias-de-Reis-2-scaled.jpg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\"><\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Poucos pa\u00edses do mundo constru\u00edram sua identidade cultural a partir de um calend\u00e1rio festivo t\u00e3o rico quanto o Brasil. Durante s\u00e9culos, as festas de S\u00e3o Jo\u00e3o, Santo Ant\u00f4nio, S\u00e3o Pedro, <strong>Corpus Christi<\/strong>, <strong>Folia de Reis<\/strong>, <strong>Divino Esp\u00edrito Santo<\/strong> e tantas outras funcionaram como espa\u00e7os de encontro entre comunidades, fam\u00edlias e territ\u00f3rios. Eram celebra\u00e7\u00f5es religiosas, sem d\u00favida,\u00a0mas tamb\u00e9m manifesta\u00e7\u00f5es culturais, art\u00edsticas, gastron\u00f4micas e sociais que ajudavam a dar sentido \u00e0 vida coletiva.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, entretanto, algo curioso come\u00e7ou a acontecer. Em nome de uma suposta neutralidade ou de uma equivocada compreens\u00e3o da diversidade religiosa, muitas dessas manifesta\u00e7\u00f5es passaram a ser progressivamente descaracterizadas. Festas juninas tornaram-se genericamente \u201carrai\u00e1s\u201d. Refer\u00eancias a santos foram sendo omitidas. Elementos tradicionais passaram a ser vistos com constrangimento. Como se reconhecer a origem hist\u00f3rica dessas celebra\u00e7\u00f5es significasse automaticamente privilegiar uma cren\u00e7a espec\u00edfica.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 paradoxal. Ao mesmo tempo em que certas refer\u00eancias culturais brasileiras s\u00e3o suavizadas ou escondidas, cresce o consumo de festas e s\u00edmbolos importados que possuem origem religiosa igualmente expl\u00edcita. O <em>Halloween<\/em>, associado ao calend\u00e1rio crist\u00e3o ocidental; o <em>Saint\u00a0Patrick\u2019s\u00a0Day<\/em>, vinculado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica irlandesa; e diversas outras celebra\u00e7\u00f5es estrangeiras s\u00e3o absorvidos sem maiores questionamentos por parcelas da sociedade e do mercado.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 condenar essas influ\u00eancias. Culturas sempre dialogaram entre si. O problema surge quando um pa\u00eds perde a capacidade de reconhecer valor nas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es enquanto celebra, com entusiasmo, manifesta\u00e7\u00f5es importadas. O resultado \u00e9 um curioso processo de coloniza\u00e7\u00e3o cultural volunt\u00e1ria, no qual abrimos m\u00e3o daquilo que nos singulariza sem que nada equivalente seja constru\u00eddo em seu lugar.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o torna-se ainda mais importante quando observamos o patrim\u00f4nio material brasileiro. Grande parte dos monumentos hist\u00f3ricos do pa\u00eds nasceu justamente das tradi\u00e7\u00f5es que hoje parecem constranger determinados setores da sociedade. Igrejas, capelas, prociss\u00f5es, irmandades, festas religiosas e celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias constituem parte insepar\u00e1vel da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira.<\/p>\n<p>O caso do Rio de Janeiro \u00e9 emblem\u00e1tico. Da Baixada Fluminense ao Centro Hist\u00f3rico, passando pelo interior do estado, existem centenas de monumentos cuja preserva\u00e7\u00e3o depende n\u00e3o apenas de recursos financeiros ou de tombamentos legais, mas tamb\u00e9m da exist\u00eancia de comunidades que reconhe\u00e7am valor na sua perman\u00eancia. Quando desaparece o v\u00ednculo afetivo e cultural com essas tradi\u00e7\u00f5es, enfraquece-se tamb\u00e9m a pr\u00f3pria justificativa social para a preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa transformar patrim\u00f4nio em instrumento de catequese. Significa compreender que preservar uma prociss\u00e3o de Corpus Christi ou uma festa de S\u00e3o Jo\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que impor uma religi\u00e3o. Da mesma forma que preservar um terreiro de matriz africana n\u00e3o significa converter ningu\u00e9m \u00e0s suas pr\u00e1ticas religiosas, preservar uma igreja colonial ou uma celebra\u00e7\u00e3o tradicional n\u00e3o implica qualquer privil\u00e9gio institucional a determinada f\u00e9.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m conv\u00e9m desfazer um equ\u00edvoco recorrente que costuma emergir sempre que se debate a preserva\u00e7\u00e3o das festas populares brasileiras. Antes que algum leitor mais apressado conclua que a defesa dessas manifesta\u00e7\u00f5es representa uma amea\u00e7a ao trabalho ou \u00e0 atividade econ\u00f4mica, conv\u00e9m recordar que as grandes economias do mundo n\u00e3o abandonaram suas tradi\u00e7\u00f5es para enriquecer. Muito pelo contr\u00e1rio. Italianos, espanh\u00f3is, alem\u00e3es, franceses e portugueses continuam celebrando festas seculares, prociss\u00f5es, romarias, mercados tradicionais e datas comunit\u00e1rias sem que isso comprometa a produtividade de seus pa\u00edses. O Brasil tampouco sofre de excesso de mem\u00f3ria ou de excesso de feriados\u00a0(estamos abaixo da m\u00e9dia mundial). Sofre, isso sim, de um progressivo empobrecimento simb\u00f3lico que, em muitos casos, faz com que abandonemos nossas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es enquanto consumimos, sem qualquer resist\u00eancia, refer\u00eancias culturais produzidas em outros lugares.<\/p>\n<p><strong>O patrim\u00f4nio cultural existe justamente porque determinadas experi\u00eancias hist\u00f3ricas produziram marcas duradouras na forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade. E poucas experi\u00eancias foram t\u00e3o determinantes para a constru\u00e7\u00e3o da cultura brasileira quanto as festas populares.<\/strong><\/p>\n<p>Talvez por isso os editais e pol\u00edticas culturais precisem voltar a olhar com mais aten\u00e7\u00e3o para essas manifesta\u00e7\u00f5es. Nos \u00faltimos anos, parte significativa dos investimentos concentrou-se em agendas identit\u00e1rias\u00a0e bandeirasespec\u00edficas \u2014 muitas delas leg\u00edtimas e necess\u00e1rias. Mas talvez seja hora de reconhecer que as festas populares brasileiras constituem um dos mais poderosos instrumentos de afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria j\u00e1 produzidos pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o, Folia de Reis, Divino, Congadas, Cavalhadas, Prociss\u00f5es, C\u00edrios e tantas outras manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o apenas heran\u00e7as portuguesas. S\u00e3o express\u00f5es profundamente brasileiras, transformadas ao longo dos s\u00e9culos pela contribui\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, africana, europeia e popular. Poucos fen\u00f4menos culturais sintetizam de forma t\u00e3o clara a complexidade da nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, algumas das correntes que mais se apresentam como decoloniais acabam ignorando justamente essas manifesta\u00e7\u00f5es. E o fazem sem perceber que talvez estejam diante de algumas das express\u00f5es culturais mais bem acabadas da experi\u00eancia hist\u00f3rica brasileira. Ao julg\u00e1-las a partir de categorias te\u00f3ricas importadas, terminam por reproduzir uma forma curiosa de neocolonialismo intelectual: desconfiam daquilo que o Brasil produziu de mais pr\u00f3prio para validar lentes interpretativas concebidas em outros contextos e para outras realidades.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds que tanto discute identidade, diversidade e pertencimento, seria um erro deixar que suas festas tradicionais desaparecessem por constrangimento, desconhecimento ou abandono. Porque quando uma sociedade perde seus pr\u00f3prios referenciais simb\u00f3licos, o espa\u00e7o vazio raramente permanece vazio por muito tempo. Algu\u00e9m sempre estar\u00e1 disposto a ocup\u00e1-lo. E, quase sempre, com refer\u00eancias produzidas em outro lugar.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/DKLXBqvvRB03P2eqZROGa4?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=2\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/sao-joao-e-corpus-christi-nao-precisam-pedir-licenca-para-existir\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos pa\u00edses do mundo constru\u00edram sua identidade cultural a partir de um calend\u00e1rio festivo t\u00e3o rico quanto o Brasil. 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