{"id":31912,"date":"2026-06-13T10:24:44","date_gmt":"2026-06-13T13:24:44","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=31912"},"modified":"2026-06-13T10:24:44","modified_gmt":"2026-06-13T13:24:44","slug":"o-rio-das-irmandades-um-mundo-de-procissoes-patrimonio-e-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=31912","title":{"rendered":"O Rio das irmandades: um mundo de prociss\u00f5es, patrim\u00f4nio e poder"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC6120-scaled.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Prociss\u00e3o no Centro do Rio de Janeiro, 2025 \/ Foto: Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Antes dos autom\u00f3veis, dos arranha-c\u00e9us, dos bondes el\u00e9tricos e at\u00e9 mesmo da Avenida Central, existiu um Rio de Janeiro em que a religi\u00e3o ocupava as ruas com uma intensidade dif\u00edcil de imaginar nos dias atuais.<\/p>\n<p>Ao amanhecer de determinados dias festivos, sinos come\u00e7avam a tocar por toda a cidade. Das igrejas sa\u00edam imagens centen\u00e1rias, estandartes bordados em ouro, cruzes processionais, lanternas e tochas. Comerciantes fechavam temporariamente suas portas. Artes\u00e3os abandonavam suas oficinas. Funcion\u00e1rios p\u00fablicos, militares, homens livres, escravizados, libertos, ricos e pobres misturavam-se em prociss\u00f5es que percorriam o cora\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Era um Rio profundamente cat\u00f3lico, mas tamb\u00e9m profundamente comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Naquele mundo, as irmandades religiosas estavam por toda parte.<\/p>\n<p>Muito al\u00e9m da dimens\u00e3o espiritual, elas funcionavam como algumas das institui\u00e7\u00f5es mais influentes da cidade. Constru\u00edam igrejas, administravam patrim\u00f4nios, financiavam obras, organizavam festas, cuidavam de seus membros e mantinham uma complexa rede de solidariedade que ajudava a sustentar a vida urbana do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Hoje, quando algu\u00e9m entra na Igreja da Candel\u00e1ria, visita a Igreja do Ros\u00e1rio e S\u00e3o Benedito dos Homens Pretos, passa diante da Igreja da Lapa dos Mercadores ou contempla tantos outros templos hist\u00f3ricos espalhados pelo Centro, dificilmente imagina a impressionante for\u00e7a que essas associa\u00e7\u00f5es donas destes templos possu\u00edam.<\/p>\n<p>As irmandades estavam entre os grandes motores da vida carioca.<\/p>\n<p>O historiador <strong>Anderson Jos\u00e9 Machado de Oliveira<\/strong> lembra que elas desempenhavam fun\u00e7\u00f5es religiosas, assistenciais e at\u00e9 administrativas que muitas vezes supriam aus\u00eancias do pr\u00f3prio Estado. Em uma \u00e9poca sem previd\u00eancia social, sem sistema p\u00fablico de sa\u00fade e sem a estrutura assistencial moderna, essas confrarias amparavam irm\u00e3os enfermos, ajudavam vi\u00favas, financiavam funerais e prestavam aux\u00edlio a quem enfrentava dificuldades.<\/p>\n<p>Mas seu papel n\u00e3o terminava a\u00ed.<\/p>\n<p>Muitas possu\u00edam patrim\u00f4nio consider\u00e1vel: eram dezenas de milhares de im\u00f3veis. Compravam, vendiam, alugavam e administravam im\u00f3veis. Mantinham igrejas pr\u00f3prias. Cuidavam de terrenos, casas e rendas. Algumas movimentavam recursos expressivos para os padr\u00f5es da \u00e9poca que se comparavam as maiores empresas e bar\u00f5es do pa\u00eds e exerciam influ\u00eancia que ultrapassava em muito os limites do culto religioso.<\/p>\n<p>Era um Rio onde a f\u00e9 ajudava a organizar a pr\u00f3pria cidade.<\/p>\n<p>As prociss\u00f5es talvez fossem a express\u00e3o mais vis\u00edvel desse universo. Para os cariocas do s\u00e9culo XIX, elas n\u00e3o eram apenas cerim\u00f4nias religiosas. Eram acontecimentos urbanos.<\/p>\n<p>As ruas enchiam-se de espectadores. Janelas e sacadas eram decoradas. Fam\u00edlias inteiras acompanhavam a passagem dos cortejos. As imagens dos santos percorriam caminhos conhecidos por gera\u00e7\u00f5es sucessivas de moradores.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o moderna que separa rigorosamente o religioso do social, os cariocas daquela \u00e9poca viam as duas dimens\u00f5es caminharem juntas.<\/p>\n<p>As festas das irmandades eram igualmente aguardadas. N\u00e3o se tratava apenas de missas solenes. Havia m\u00fasica, confraterniza\u00e7\u00e3o, encontros e refei\u00e7\u00f5es coletivas. Herdados de antigas tradi\u00e7\u00f5es portuguesas e medievais, os chamados banquetes confraternais reuniam os irm\u00e3os em torno da mesa ap\u00f3s determinadas celebra\u00e7\u00f5es religiosas. Comer juntos era parte da vida da confraria, um gesto de uni\u00e3o t\u00e3o importante quanto muitas das cerim\u00f4nias realizadas dentro da igreja.<\/p>\n<p>Esse mundo, por\u00e9m, come\u00e7aria a mudar na segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Enquanto o Rio crescia e se transformava, a pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica passava por um amplo processo de renova\u00e7\u00e3o. Os bispos brasileiros aproximavam-se cada vez mais de Roma e procuravam fortalecer a disciplina e a unidade da institui\u00e7\u00e3o. Era o per\u00edodo que os historiadores costumam chamar de Reforma Cat\u00f3lica ou Romaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto, as antigas irmandades passaram a despertar aten\u00e7\u00e3o crescente da hierarquia eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque fossem consideradas inimigas da Igreja. Pelo contr\u00e1rio. Eram institui\u00e7\u00f5es profundamente cat\u00f3licas e fundamentais para a vida religiosa da cidade. Mas haviam se desenvolvido ao longo de s\u00e9culos com uma autonomia que surpreendia muitos dos novos bispos reformadores.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios capel\u00e3es frequentemente possu\u00edam poderes limitados pelas mesas administrativas compostas pelos irm\u00e3os leigos. As confrarias tomavam decis\u00f5es, administravam patrim\u00f4nios e organizavam suas atividades segundo costumes consolidados havia gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio que surgiram algumas tens\u00f5es.<\/p>\n<p>Nomeado bispo do Rio em 1868, <strong>Dom Pedro Maria de Lacerda<\/strong> tornou-se uma das figuras centrais desse processo. Em correspond\u00eancia da \u00e9poca, demonstrou preocupa\u00e7\u00e3o com a ampla autonomia das irmandades cariocas, chegando a descrev\u00ea-las como verdadeiros \u201cEstados dentro do Estado\u201d. Para ele, era necess\u00e1rio aproxim\u00e1-las mais diretamente da autoridade eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o era delicada.<\/p>\n<p>Do ponto de vista dos bispos reformadores, tratava-se de fortalecer a unidade da Igreja. Do ponto de vista das irmandades, tratava-se de preservar tradi\u00e7\u00f5es, privil\u00e9gios e formas de organiza\u00e7\u00e3o que remontavam aos tempos coloniais.<\/p>\n<p>Como observa Anderson Oliveira, n\u00e3o se tratava necessariamente de um embate entre f\u00e9 e rebeldia, nem de uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja. Na maioria dos casos, as confrarias buscavam preservar espa\u00e7os de autonomia constru\u00eddos ao longo de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>No fim das contas, a pr\u00f3pria realidade carioca imp\u00f4s limites a qualquer tentativa de transforma\u00e7\u00e3o radical.<\/p>\n<p>As irmandades continuavam essenciais. Mantinham igrejas, organizavam o culto, preservavam tradi\u00e7\u00f5es e exerciam papel importante junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Aos poucos, o discurso mais duro foi cedendo lugar a uma conviv\u00eancia mais pragm\u00e1tica. A reforma avan\u00e7ou, mas as confrarias tamb\u00e9m sobreviveram.<\/p>\n<p>Talvez por isso ainda seja poss\u00edvel encontrar sua presen\u00e7a no Rio contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Ela est\u00e1 nos altares preservados, nos livros de atas cuidadosamente guardados, nas imagens seculares que continuam sendo veneradas, nas prociss\u00f5es que ainda percorrem ruas hist\u00f3ricas e nas institui\u00e7\u00f5es que atravessaram imp\u00e9rios, rep\u00fablicas, reformas urbanas e mudan\u00e7as de costumes.<\/p>\n<p>Ao caminhar hoje pelo Centro Hist\u00f3rico, entre igrejas coloniais, sobrados antigos e ruas abertas h\u00e1 s\u00e9culos, o carioca continua cercado por vest\u00edgios desse universo.<\/p>\n<p>Um mundo em que a f\u00e9 sa\u00eda \u00e0s ruas, as confrarias ajudavam a construir a cidade e as irmandades figuravam entre as institui\u00e7\u00f5es mais importantes do Rio de Janeiro.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/JoXpzt37aFy2bFyFBrcRWY?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=2\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/o-rio-das-irmandades-um-mundo-de-procissoes-patrimonio-e-poder\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prociss\u00e3o no Centro do Rio de Janeiro, 2025 \/ Foto: Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores Antes dos autom\u00f3veis, dos arranha-c\u00e9us, dos bondes el\u00e9tricos e at\u00e9 mesmo da Avenida Central, existiu um Rio de Janeiro em que a religi\u00e3o ocupava as ruas com uma intensidade dif\u00edcil de imaginar nos dias atuais. 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