{"id":32003,"date":"2026-06-14T17:50:49","date_gmt":"2026-06-14T20:50:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=32003"},"modified":"2026-06-14T17:50:49","modified_gmt":"2026-06-14T20:50:49","slug":"viva-santo-antonio-diario-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=32003","title":{"rendered":"Viva Santo Ant\u00f4nio! &#8211; Di\u00e1rio do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/IMG_5286.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Santo Ant\u00f4nio desaparecido da Irmandade da Lapa dos Mercadores (Imagem extra\u00edda do Di\u00e1rio do Rio)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Poucos santos atravessaram com tanta for\u00e7a o imagin\u00e1rio luso-brasileiro quanto <strong>Santo Ant\u00f4nio<\/strong>. Associado a <strong>Lisboa<\/strong> por ter nascido na capital portuguesa e a <strong>P\u00e1dua<\/strong> por ter morrido nas vizinhan\u00e7as da cidade italiana, ele pertence \u00e0quela categoria rar\u00edssima de personagens religiosos que ultrapassam a liturgia, atravessam a arte, invadem o cotidiano e passam a viver no vocabul\u00e1rio afetivo das cidades. No Brasil, tornou-se santo das causas urgentes, dos objetos perdidos, dos casamentos desejados, dos pedidos dom\u00e9sticos e das promessas populares. No Rio de Janeiro, por\u00e9m, sua hist\u00f3ria ganhou uma dimens\u00e3o ainda mais singular: Santo Ant\u00f4nio foi tamb\u00e9m protetor militar da cidade, incorporado simbolicamente \u00e0s for\u00e7as defensivas e remunerado, por s\u00e9culos, com soldo.<\/p>\n<p>Antes de chegar ao Rio como sentinela espiritual, Ant\u00f4nio foi Fernando. Filho de fam\u00edlia ilustre, nasceu em Lisboa no fim do s\u00e9culo XII e ainda jovem ingressou na vida religiosa, primeiro entre os c\u00f4negos\u00a0regrantes\u00a0de Santo Agostinho e depois na <strong>Ordem dos Frades Menores<\/strong>, quando adotou o nome de Ant\u00f4nio. A mudan\u00e7a n\u00e3o foi apenas nominal. Representou uma inflex\u00e3o decisiva em sua trajet\u00f3ria espiritual, marcada pelo desejo mission\u00e1rio, pelo fasc\u00ednio com o mart\u00edrio dos franciscanos no Marrocos e pela ades\u00e3o ao ideal evang\u00e9lico de pobreza, prega\u00e7\u00e3o e itiner\u00e2ncia que caracterizou os primeiros tempos franciscanos.<\/p>\n<p>A vida de Ant\u00f4nio, como tantas vidas medievais transformadas em modelo de santidade, logo adquiriu contornos exemplares. Impedido pela enfermidade de permanecer no Marrocos, acabou levado pelos ventos para a It\u00e1lia, onde se aproximou da comunidade franciscana e encontrou S\u00e3o Francisco de Assis. N\u00e3o demorou a revelar-se extraordin\u00e1rio pregador, capaz de mobilizar multid\u00f5es e enfrentar heresias com uma eloqu\u00eancia que se tornaria c\u00e9lebre. A tradi\u00e7\u00e3o lhe atribui milagres, serm\u00f5es memor\u00e1veis e epis\u00f3dios de enorme for\u00e7a simb\u00f3lica, como aquele em que teria pregado aos peixes, diante da recusa dos homens em ouvi-lo.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p>Sua morte, em 13 de junho de 1231, foi seguida por uma difus\u00e3o impressionante de sua devo\u00e7\u00e3o. Canonizado em tempo excepcionalmente curto, Santo Ant\u00f4nio tornou-se um dos santos mais populares do catolicismo. Mais tarde, seria proclamado Doutor da Igreja, com o t\u00edtulo de Doutor Evang\u00e9lico, justamente pela densidade de seus escritos, pela for\u00e7a doutrin\u00e1ria de seus serm\u00f5es e pela capacidade de traduzir a palavra sagrada em linguagem acess\u00edvel ao povo.<\/p>\n<p>Na iconografia, Santo Ant\u00f4nio \u00e9 geralmente representado jovem, imberbe, com h\u00e1bito franciscano, tonsura, semblante piedoso e acolhedor. Seus atributos mais frequentes s\u00e3o o livro, a cruz, o l\u00edrio e o Menino Jesus, geralmente apoiado sobre o livro ou em seus bra\u00e7os. N\u00e3o por acaso, essa imagem atravessou igrejas, conventos, orat\u00f3rios dom\u00e9sticos e pequenos altares populares, tornando-se uma das representa\u00e7\u00f5es mais disseminadas da arte sacra no Brasil.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, a devo\u00e7\u00e3o encontrou um de seus pontos mais fortes no <strong>Convento de Santo Ant\u00f4nio<\/strong>, no Largo da Carioca, cuja presen\u00e7a marcou profundamente a paisagem espiritual, urbana e art\u00edstica da cidade. Entre as muitas hist\u00f3rias preservadas pela tradi\u00e7\u00e3o franciscana, uma das mais fascinantes \u00e9 a de Santo Ant\u00f4nio do Relento, assim chamado por ter permanecido em orat\u00f3rio externo na fachada da portaria do convento, exposto ao tempo e \u00e0 devo\u00e7\u00e3o dos passantes.<\/p>\n<p>Dom <strong>Clemente Maria da Silva-Nigra<\/strong>, monge beneditino e pesquisador fundamental para os estudos da arte colonial brasileira, destacou os trabalhos escult\u00f3ricos em barro de Frei Francisco dos Santos, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, incluindo a celebrada imagem de Santo Ant\u00f4nio do Relento. A tradi\u00e7\u00e3o conta que a escultura teria sido modelada em barro, mas os frades n\u00e3o se agradavam de nenhuma das cabe\u00e7as produzidas para completar a pe\u00e7a. At\u00e9 que, numa noite, ap\u00f3s ouvirem um forte estalo vindo da parte baixa do convento, desceram para averiguar e encontraram uma cabe\u00e7a que se encaixava perfeitamente no corpo da imagem. O epis\u00f3dio, entre o milagre, a lenda e a mem\u00f3ria conventual, traduz precisamente o tipo de hist\u00f3ria que o patrim\u00f4nio carioca precisa reaprender a contar.<\/p>\n<p>Mas a rela\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio com o Rio foi ainda mais longe. Durante as amea\u00e7as francesas, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, a cidade viveu momentos de enorme tens\u00e3o. Em 1710, Jean-Fran\u00e7ois\u00a0Duclerc\u00a0tentou ocupar a parte murada; no ano seguinte, em 17<strong>11, Ren\u00e9\u00a0Duguay-Trouin<\/strong> atravessou a Ba\u00eda de Guanabara e protagonizou uma das p\u00e1ginas mais dram\u00e1ticas da hist\u00f3ria colonial carioca. Nesse ambiente de medo, instabilidade e defesa territorial, a devo\u00e7\u00e3o a Santo Ant\u00f4nio foi mobilizada como for\u00e7a simb\u00f3lica de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, na v\u00e9spera do confronto contra os franceses, a imagem venerada no convento foi solenemente \u201csentada pra\u00e7a\u201d, isto \u00e9, incorporada \u00e0s for\u00e7as defensivas da cidade com o posto de Capit\u00e3o de Infantaria. A partir de 1711, com reconhecimento r\u00e9gio, Santo Ant\u00f4nio passou a figurar oficialmente nas patentes militares e na folha de pagamento da capitania. O soldo destinado ao santo ajudava, na pr\u00e1tica, a manter o culto, a igreja, a imagem, a capela e a vida conventual ligada \u00e0 sua devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio \u00e9 t\u00e3o extraordin\u00e1rio quanto revelador. O Rio, cidade constru\u00edda entre morros, mar, fortalezas, prociss\u00f5es, conventos e conflitos, confiava sua defesa n\u00e3o apenas \u00e0 artilharia e \u00e0s muralhas, mas tamb\u00e9m \u00e0 intercess\u00e3o de seus santos. Mais tarde, em 1810, D. Jo\u00e3o VI elevaria Santo Ant\u00f4nio ao posto de sargento-mor de infantaria da capitania, determinando que lhe fosse pago o soldo correspondente. Com o tempo, a tradi\u00e7\u00e3o consolidou a mem\u00f3ria de Santo Ant\u00f4nio como tenente-coronel, um santo-oficial que protegia a cidade e recebia por isso.<\/p>\n<p>O soldo teria sido pago at\u00e9 1911, quando essa curiosa rela\u00e7\u00e3o institucional entre Estado, devo\u00e7\u00e3o e patrim\u00f4nio chegou ao fim. Mas o que permaneceu \u00e9 ainda mais importante: a mem\u00f3ria de uma cidade que transformava seus s\u00edmbolos religiosos em agentes de prote\u00e7\u00e3o p\u00fablica, fundindo f\u00e9, defesa, pol\u00edtica, administra\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o popular. \u00c9 f\u00e1cil ironizar anacronicamente a hist\u00f3ria de um santo militarizado. Mais dif\u00edcil \u2014 e mais interessante \u2014 \u00e9 compreend\u00ea-la como chave de leitura para a\u00a0mentalidade de um Rio colonial, imperial e republicano, profundamente marcado pela conviv\u00eancia entre o material e o espiritual, entre a burocracia e o sagrado, entre a guerra e a devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente a\u00ed que o patrim\u00f4nio carioca encontra uma de suas maiores tarefas contempor\u00e2neas. N\u00e3o basta preservar igrejas, imagens, altares, conventos e documentos como pe\u00e7as isoladas, descoladas das hist\u00f3rias que lhes deram sentido. \u00c9 preciso resgatar as imaterialidades que habitam essas materialidades. Uma imagem de Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o \u00e9 apenas uma escultura em madeira, barro ou gesso; ela \u00e9 tamb\u00e9m promessa, prociss\u00e3o, milagre, lenda conventual, defesa da cidade, soldo militar, mem\u00f3ria urbana e devo\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Quando esses v\u00ednculos s\u00e3o esquecidos, o patrim\u00f4nio empobrece. O objeto permanece, mas perde densidade. A igreja continua de p\u00e9, mas deixa de narrar a cidade. A imagem \u00e9 restaurada, mas j\u00e1 n\u00e3o comunica o universo simb\u00f3lico que a produziu e a manteve viva. Por isso, conhecer hist\u00f3rias como a de Santo Ant\u00f4nio do Relento ou a do soldo militar pago ao santo n\u00e3o \u00e9 mera curiosidade pitoresca. \u00c9 uma forma de devolver profundidade hist\u00f3rica aos monumentos e acervos que ainda hoje estruturam a mem\u00f3ria do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Num tempo em que tantas tradi\u00e7\u00f5es populares parecem constrangidas a pedir licen\u00e7a para existir, Santo Ant\u00f4nio nos lembra que a cidade se formou justamente nessa sobreposi\u00e7\u00e3o de f\u00e9, arte, festa, defesa e pol\u00edtica. Sua presen\u00e7a no Rio revela que o patrim\u00f4nio n\u00e3o se limita \u00e0 pedra, \u00e0 talha ou \u00e0 escultura. Ele vive tamb\u00e9m nas narrativas, nos afetos, nas cren\u00e7as e nos epis\u00f3dios aparentemente improv\u00e1veis que fazem uma comunidade reconhecer-se no tempo.<\/p>\n<p>Viva Santo Ant\u00f4nio, portanto. N\u00e3o apenas o santo casamenteiro, o santo dos objetos perdidos ou o pregador dos peixes, mas tamb\u00e9m o Santo Ant\u00f4nio carioca: aquele que desceu dos altares para proteger a cidade, recebeu patente militar, entrou na folha de pagamento e permaneceu, at\u00e9 hoje, como uma das figuras mais fascinantes da nossa hist\u00f3ria religiosa, art\u00edstica e urbana.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/JoXpzt37aFy2bFyFBrcRWY?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=2\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/viva-santo-antonio\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santo Ant\u00f4nio desaparecido da Irmandade da Lapa dos Mercadores (Imagem extra\u00edda do Di\u00e1rio do Rio) Poucos santos atravessaram com tanta for\u00e7a o imagin\u00e1rio luso-brasileiro quanto Santo Ant\u00f4nio. 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