{"id":32591,"date":"2026-06-20T19:05:13","date_gmt":"2026-06-20T22:05:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=32591"},"modified":"2026-06-20T19:05:13","modified_gmt":"2026-06-20T22:05:13","slug":"inscricao-persa-no-theatro-municipal-do-rio-e-decifrada-apos-117-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=32591","title":{"rendered":"Inscri\u00e7\u00e3o persa no Theatro Municipal do Rio \u00e9 decifrada ap\u00f3s 117 anos"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Inscricao-no-Salao-Assirio.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: Matheus Treuk\/Divulga\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Uma inscri\u00e7\u00e3o no <strong>Theatro Municipal do Rio de Janeiro<\/strong> passou 117 anos sem tradu\u00e7\u00e3o at\u00e9 ser decifrada por dois pesquisadores da <strong>UFRJ<\/strong> e da <strong>UERJ<\/strong>. A frase, grafada em cuneiforme persa, fica no painel central do <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong>, um dos ambientes mais conhecidos do teatro carioca. <em>As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o da revista Arte!Brasileiros.<\/em><\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o revelou uma sauda\u00e7\u00e3o ao rei aquem\u00eanida <strong>Artaxerxes<\/strong>, soberano da antiga <strong>P\u00e9rsia<\/strong>. O texto, agora identificado pelos pesquisadores, diz: <em>\u201cDo Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario\u201d<\/em>. O texto cuneiforme original (vertido para o padr\u00e3o Unicode) \u00e9 esse:\u00a0<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>O <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong> foi inaugurado em 14 de julho de 1909, junto com o <strong>Theatro Municipal<\/strong>. O espa\u00e7o, todo revestido em cer\u00e2mica esmaltada e mosaicos, j\u00e1 funcionou como restaurante, cabar\u00e9 e palco de bailes de m\u00e1scaras. Hoje, recebe visitantes em visitas guiadas ao pr\u00e9dio hist\u00f3rico.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Descoberta come\u00e7ou em uma visita ao sal\u00e3o<\/h3>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o da inscri\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em janeiro de 2025, durante uma visita ao <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong>. O professor <strong>Alex Mazzanti J\u00fanior<\/strong>, da <strong>Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/strong>, especialista em estudos cl\u00e1ssicos e lingu\u00edstica indo-europeia, percebeu que o texto parecia ter sido composto em persa antigo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma leitura inicial, ele compartilhou imagens da inscri\u00e7\u00e3o com <strong>Matheus Treuk<\/strong>, professor de arqueologia da <strong>Universidade do Estado do Rio de Janeiro<\/strong> e especialista em <strong>P\u00e9rsia Aquem\u00eanida<\/strong>. A partir da\u00ed, os dois passaram a investigar a origem e o significado da frase.<\/p>\n<p>A muse\u00f3loga <strong>Raquel Villagr\u00e1n Seoane<\/strong>, coordenadora do <strong>Centro de Documenta\u00e7\u00e3o do Theatro Municipal<\/strong>, tamb\u00e9m participou do trabalho. Ela cedeu imagens em alta resolu\u00e7\u00e3o da inscri\u00e7\u00e3o e documentos hist\u00f3ricos sobre o sal\u00e3o, o que permitiu aos pesquisadores analisar o conjunto decorativo com mais precis\u00e3o.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sal\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com achados persas do Louvre<\/h3>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Matheus Treuk\/Divulga\u00e7\u00e3o<br \/><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A decora\u00e7\u00e3o do <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong> foi executada pela empresa francesa <strong>La Grande Tuilerie d\u2019Ivry<\/strong>, tamb\u00e9m conhecida como <strong>Gr\u00e8s Muller<\/strong>. Fundada em Paris pelo engenheiro <strong>\u00c9mile Muller<\/strong>, em 1854, a companhia tamb\u00e9m construiu as balaustradas de cer\u00e2mica da <strong>Torre Eiffel<\/strong>.<\/p>\n<p>Um dos \u00faltimos trabalhos da empresa, antes de fechar as portas em 1908, foi justamente a ambienta\u00e7\u00e3o do sal\u00e3o do teatro carioca, realizada entre 1905 e 1909, j\u00e1 sob dire\u00e7\u00e3o de <strong>Louis Muller<\/strong>, filho do fundador.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, os motivos usados no <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong> dialogam com cole\u00e7\u00f5es de artefatos iranianos, ou persas, do <strong>Museu do Louvre<\/strong>. Esses objetos chegaram a <strong>Paris<\/strong> no contexto da <strong>Exposi\u00e7\u00e3o Universal de 1889<\/strong>, que tamb\u00e9m marcou a inaugura\u00e7\u00e3o da <strong>Torre Eiffel<\/strong>.<\/p>\n<p>O termo cuneiforme significa \u201cem forma de cunha\u201d e designa um dos sistemas de escrita mais antigos da humanidade, criado pelos sum\u00e9rios na <strong>Mesopot\u00e2mia<\/strong>, atual <strong>Iraque<\/strong>, por volta de 3200 a.C.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Rei persa aparece no centro da composi\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Matheus Treuk\/Divulga\u00e7\u00e3o<br \/><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A inscri\u00e7\u00e3o fica acima da figura de um altar de fogo. Ao lado, h\u00e1 a imagem de um guardi\u00e3o com lan\u00e7a, que emoldura o in\u00edcio do texto. Do outro lado, aparece a figura do rei, em um gesto de oferenda ou consagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O termo <strong>Apadana<\/strong>, presente na frase traduzida, vem do persa antigo e designa um sal\u00e3o de recep\u00e7\u00f5es solenes ou pal\u00e1cio dos antigos reis da <strong>P\u00e9rsia<\/strong>. <strong>Artaxerxes<\/strong>, citado na inscri\u00e7\u00e3o, viveu entre 497 a.C. e 427 a.C. e era filho de <strong>Dario<\/strong>.<\/p>\n<p>A descoberta tamb\u00e9m reacende uma discuss\u00e3o antiga sobre o pr\u00f3prio nome do sal\u00e3o. J\u00e1 na \u00e9poca da inaugura\u00e7\u00e3o do <strong>Theatro Municipal<\/strong>, cronistas questionavam se o ambiente chamado de \u201cass\u00edrio\u201d n\u00e3o deveria ser visto como persa, j\u00e1 que parte de sua iconografia se baseia em artefatos encontrados pelos franceses em <strong>Susa<\/strong>, uma das cidades mais antigas do <strong>Oriente Pr\u00f3ximo<\/strong>, no atual <strong>Ir\u00e3<\/strong>.<\/p>\n<p>O <strong>Apadana<\/strong> representado no <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong> tem inspira\u00e7\u00e3o no de <strong>Susa<\/strong>. Mas os pesquisadores apontam que a decora\u00e7\u00e3o n\u00e3o copia uma \u00fanica fonte. Ela mistura refer\u00eancias de <strong>Susa<\/strong>, <strong>Pers\u00e9polis<\/strong> e <strong>Naqsh-i Rostam<\/strong>, compondo uma leitura pr\u00f3pria da Antiguidade Persa.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Jo\u00e3o do Rio escreveu sobre o espa\u00e7o<\/h3>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Matheus Treuk\/Divulga\u00e7\u00e3o<br \/><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>O cronista <strong>Jo\u00e3o do Rio<\/strong>, um dos nomes centrais da cr\u00f4nica moderna no Brasil, escreveu sobre o sal\u00e3o em 1913, durante o per\u00edodo de constru\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do espa\u00e7o. Ele assinou o texto com um de seus pseud\u00f4nimos, <strong>Paulo Barreto<\/strong>.<\/p>\n<p><em>\u201cO teto que parece esmagar, as evoca\u00e7\u00f5es de grandes ciclos hist\u00f3ricos em que a Gr\u00e9cia sentia a \u00c1sia colossal, a evoca\u00e7\u00e3o desses per\u00edodos pela reprodu\u00e7\u00e3o dos frisos, tudo isso ainda \u00e9 mais aumentado pelo prolongamento multiplicado, refletido nos espelhos engastados em bronze antigo, pelo murm\u00fario das fontes d\u2019\u00e1gua remorejando sobre piscinas esguias, pela ilumina\u00e7\u00e3o leitosa das l\u00e2mpadas de formas original\u00edssimas\u201d<\/em>, escreveu <strong>Jo\u00e3o do Rio<\/strong>.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, o sal\u00e3o combina refer\u00eancias arqueol\u00f3gicas de per\u00edodos e lugares diferentes para criar uma composi\u00e7\u00e3o nova. <em>\u201cA composi\u00e7\u00e3o de algo inteiramente novo a partir da combina\u00e7\u00e3o de temas presentes em diversos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos e provenientes de diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos \u00e9 uma atesta\u00e7\u00e3o da alta expertise e erudi\u00e7\u00e3o da Gr\u00e8s Muller\u201d<\/em>, afirmam <strong>Alex Mazzanti J\u00fanior<\/strong> e <strong>Matheus Treuk<\/strong> em artigo produzido para a <strong>SciELO<\/strong>.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma obra rara no orientalismo brasileiro<\/h3>\n<p>No estudo, os autores explicam que o artista respons\u00e1vel pela decora\u00e7\u00e3o adaptou modelos antigos ao substituir personagens ass\u00edrios por figuras persas. O rei e seus guardas, por exemplo, aparecem em uma composi\u00e7\u00e3o que combina elementos de <strong>Pers\u00e9polis<\/strong> e <strong>Naqsh-i Rostam<\/strong>.<\/p>\n<p>Os atendentes ao lado do rei seguram objetos associados a tradi\u00e7\u00f5es distintas. Na m\u00e3o direita, aparece um tipo de abanador de moscas ligado aos relevos da <strong>Sala do Trono de Pers\u00e9polis<\/strong>. Na esquerda, h\u00e1 uma toalha de inspira\u00e7\u00e3o ass\u00edria, em vez de um modelo t\u00edpico persa.<\/p>\n<p>O altar de fogo, por sua vez, substitui a mesa de oferendas ass\u00edria e remete aos altares vistos em relevos funer\u00e1rios aquem\u00eanidas de <strong>Naqsh-i Rostam<\/strong>.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m observa que a presen\u00e7a dessas refer\u00eancias no <strong>Rio de Janeiro<\/strong> est\u00e1 ligada ao fasc\u00ednio orientalista do s\u00e9culo XIX, marcado pela redescoberta de artefatos de <strong>Susa<\/strong> e pela circula\u00e7\u00e3o desses modelos em exposi\u00e7\u00f5es europeias. Na <strong>Exposi\u00e7\u00e3o Universal de 1889<\/strong>, em <strong>Paris<\/strong>, a civiliza\u00e7\u00e3o persa apareceu em pavilh\u00f5es e mostras voltadas ao p\u00fablico, dentro de um contexto tamb\u00e9m marcado por ideias colonialistas.<\/p>\n<p>Para os autores, o <strong>Sal\u00e3o Assyrio<\/strong> merece mais aten\u00e7\u00e3o nos estudos sobre arte, arquitetura e recep\u00e7\u00e3o da Antiguidade no Brasil. <em>\u201cO Sal\u00e3o Assyrio constitui, sem sombra de d\u00favida, uma das obras mais fascinantes e excepcionais da hist\u00f3ria do orientalismo e da recep\u00e7\u00e3o da Antiguidade Persa, devendo ter um lugar de destaque nos estudos sobre o tema no pa\u00eds\u201d<\/em>, afirmam <strong>Alex Mazzanti J\u00fanior<\/strong> e <strong>Matheus Treuk<\/strong>.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/GEAzsOGQbD5IKdVaij61NF\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/inscricao-persa-no-theatro-municipal-do-rio-e-decifrada-apos-117-anos\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Matheus Treuk\/Divulga\u00e7\u00e3o Uma inscri\u00e7\u00e3o no Theatro Municipal do Rio de Janeiro passou 117 anos sem tradu\u00e7\u00e3o at\u00e9 ser decifrada por dois pesquisadores da UFRJ e da UERJ. 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