{"id":34705,"date":"2026-07-16T23:23:26","date_gmt":"2026-07-17T02:23:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=34705"},"modified":"2026-07-16T23:23:26","modified_gmt":"2026-07-17T02:23:26","slug":"crise-crise-o-dia-em-que-o-dinheiro-sumiu-e-o-rio-parou-a-quebra-da-casa-souto-e-o-panico-que-mudou-o-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=34705","title":{"rendered":"\u201cCrise! Crise!\u201d O dia em que o dinheiro sumiu e o Rio parou: a quebra da Casa Souto e o p\u00e2nico que mudou o Imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/56B8E732-9FDB-41DE-9CB6-FDFD60C8B25F.png\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Machado de Assis, colunista do Di\u00e1rio do Rio de Janeiro em 1864, presencia a quebra da Casa Souto \/ Litografia Aquarelada gerada eletronicamente<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de s\u00e1bado, <strong>10 de setembro de 1864<\/strong>, o Centro do Rio Antigo acordou como o cora\u00e7\u00e3o de um Imp\u00e9rio que ainda parecia seguro de si.<\/p>\n<p>Na Rua Direita, atual Rua Primeiro de Mar\u00e7o, caixeiros abriam os sobrados comerciais enquanto carro\u00e7as, animais, carregadores e escravos de ganho disputavam passagem pelo cal\u00e7amento. Da Alf\u00e2ndega chegavam not\u00edcias de navios e mercadorias. Na Rua do Ouvidor discutiam-se pol\u00edtica, c\u00e2mbio, caf\u00e9 e os \u00faltimos boatos da Corte. Perto dali, os sinos das igrejas continuavam marcando as horas de uma cidade em que com\u00e9rcio, religi\u00e3o e poder caminhavam quase sempre pelas mesmas ruas.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o da Candel\u00e1ria \u2013 banc\u00e1ria, por excel\u00eancia, desde o s\u00e9culo 19 at\u00e9 logo antes da pandemia \u2013  dominava aquele pequeno universo de banqueiros, negociantes, armaz\u00e9ns e reparti\u00e7\u00f5es. Na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, espremida entre a Rua do Ouvidor e o antigo <em>Becco<\/em> da Lapa \u2014 hoje a pequena Travessa do Com\u00e9rcio \u2014 rezavam os comerciantes que davam nome \u00e0 Irmandade. A poucos passos estavam o Pa\u00e7o, a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio, o porto, os trapiches e algumas das maiores fortunas do Brasil.<\/p>\n<p>Tudo parecia funcionar normalmente, at\u00e9 que, por volta das dez horas da manh\u00e3, os caixas da conceituada e popular <strong>Casa Banc\u00e1ria Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Alves Souto &amp; Companhia<\/strong> deixaram de pagar. Foi naquele momento que o dinheiro pareceu desaparecer do Centro. Ou melhor\u2026 da Cidade.<\/p>\n<p>A not\u00edcia de que a Casa Souto havia suspendido suas atividades correu, segundo os relatos posteriores, com a velocidade do vento. Ainda naquele s\u00e1bado, uma multid\u00e3o se comprimia na Rua Direita. Uns queriam retirar dep\u00f3sitos. Outros tentavam descontar letras. Muitos traziam nas m\u00e3os pap\u00e9is que, at\u00e9 algumas horas antes, pareciam valer dinheiro e agora poderiam n\u00e3o valer coisa alguma.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o era apenas a fal\u00eancia de um banqueiro \u2013 ent\u00e3o o maior banqueiro particular do pa\u00eds.  Era o come\u00e7o do maior p\u00e2nico financeiro vivido pelo Brasil imperial.<\/p>\n<p><strong>O banqueiro em quem o Rio confiava<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Alves Souto<\/strong> era um portugu\u00eas que alcan\u00e7ara no Rio uma posi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria. Negociante de grosso trato, exportador de a\u00e7\u00facar, corretor de fundos e presidente da hist\u00f3rica Real e Benem\u00e9rita Sociedade de <strong>Benefic\u00eancia Portuguesa<\/strong> \u2013 um dos maiores hospitais de caridade do pa\u00eds \u00e0 \u00e9poca, acumulou fortuna, propriedades, condecora\u00e7\u00f5es e prest\u00edgio social. Era propriet\u00e1rio, entre outros bens, da Fazenda Bela Vista, na Serra da Tijuca.\u00a0<\/p>\n<p>Sua casa banc\u00e1ria funcionava na Rua Direita, que era o principal endere\u00e7o financeiro da cidade. N\u00e3o era um banco de varejo organizado como os de hoje. As chamadas casas banc\u00e1rias recebiam dinheiro em conta, descontavam letras, emprestavam a comerciantes, fazendeiros e propriet\u00e1rios e faziam a intermedia\u00e7\u00e3o entre o Banco do Brasil e clientes que n\u00e3o chegavam diretamente aos grandes bancos.<\/p>\n<p>Souto construiu sua riqueza entre as duas pontas da sociedade carioca. De um lado, recebia as economias de milhares de pessoas, muitas delas pobres ou modestas. Do outro, emprestava grandes quantias aos negociantes mais poderosos da pra\u00e7a. Seu nome funcionava como garantia. A confian\u00e7a do Rio era parte essencial de seu capital.\u00a0<\/p>\n<p>Era justamente a\u00ed que se escondia o perigo.<\/p>\n<p>O dinheiro depositado por vi\u00favas, empregados, caixeiros, artes\u00e3os, pequenos comerciantes e escravos n\u00e3o permanecia parado nos cofres. Era transformado em empr\u00e9stimos, hipotecas, letras e opera\u00e7\u00f5es comerciais. Enquanto apenas uma parcela dos clientes pedia o dinheiro de volta, o sistema funcionava. Se todos corressem ao mesmo tempo, n\u00e3o haveria numer\u00e1rio suficiente para atender aos saques. Se isso \u00e9 ainda \u00e9 verdade hoje num sistema banc\u00e1rio muito mais evolu\u00eddo, imagine nesta \u00e9poca. <\/p>\n<p>E esta fragilidade j\u00e1 havia aparecido sete anos antes.<\/p>\n<p><strong>Em 1857, o Di\u00e1rio do Rio viu o primeiro ensaio da trag\u00e9dia<\/strong><\/p>\n<p>Em <strong>1857<\/strong>, uma crise financeira internacional trouxe m\u00e1s not\u00edcias da Europa e espalhou boatos pelas ruas do Rio. Correu a vers\u00e3o de que a Casa Souto n\u00e3o conseguiria honrar os dep\u00f3sitos. O p\u00fablico foi aos caixas.<\/p>\n<p>O <strong>DI\u00c1RIO<\/strong> acompanhou aquela primeira corrida e registrou que Souto pagara cerca de <strong>dois mil contos de r\u00e9is em apenas tr\u00eas dias<\/strong>, enfrentando uma retirada maci\u00e7a de recursos.N\u00e3o existe convers\u00e3o exata entre o dinheiro do Imp\u00e9rio e o real atual, mas, pela equival\u00eancia oficial em ouro adotada naquele per\u00edodo, a quantia corresponderia a aproximadamente 1,64 tonelada do metal \u2014 algo em torno de <strong>R$ 1,1 bilh\u00e3o pela cota\u00e7\u00e3o de 2026<\/strong>.   A cobertura ressaltava que a casa conseguira resistir, que o banqueiro contava com apoio de outras institui\u00e7\u00f5es e que entre seus depositantes estava uma multid\u00e3o de pessoas pouco abastadas.\u00a0<\/p>\n<p>O jornal n\u00e3o anunciou que a Casa Souto quebraria. Fez praticamente o contr\u00e1rio.   Ao mostrar que Souto pagava seus clientes e recebia manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade dos principais nomes da pra\u00e7a, o Di\u00e1rio ajudou a restaurar a confian\u00e7a no banqueiro. A corrida terminou e a Casa Souto continuou funcionando por mais sete anos.<\/p>\n<p>Vista daquele momento, a cobertura fazia sentido. Uma corrida causada por boatos pode destruir at\u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. Souto demonstrara que tinha dinheiro para pagar e sobrevivera ao ataque.<\/p>\n<p>Vista de hoje, por\u00e9m, a cena parece quase prof\u00e9tica.  Em 1857, o Di\u00e1rio do Rio documentou exatamente o mecanismo que derrubaria a Casa Souto em 1864: <strong>milhares de pequenos poupadores dependiam da reputa\u00e7\u00e3o de um \u00fanico homem, e a casa dependia de que todos eles n\u00e3o exigissem o dinheiro ao mesmo tempo<\/strong>.  Foi o ensaio geral da cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p><strong>Um gigante sustentado por dinheiro alheio<\/strong><\/p>\n<p>As casas banc\u00e1rias haviam crescido porque o Rio precisava desesperadamente de cr\u00e9dito. <\/p>\n<p>A cidade se expandia, o porto movimentava mercadorias, multiplicavam-se sociedades comerciais, empresas de transporte, armaz\u00e9ns, oficinas e neg\u00f3cios ligados \u00e0 economia do caf\u00e9. Havia necessidade de mais dinheiro circulando do que o sistema banc\u00e1rio formal conseguia oferecer. As casas particulares ocuparam esse espa\u00e7o, atraindo recursos tanto de outros bancos quanto da poupan\u00e7a popular.\u00a0<\/p>\n<p>O dinheiro do oper\u00e1rio, do caixeiro e do pequeno comerciante era reunido em grandes montantes e emprestado aos ricos negociantes da Corte.<\/p>\n<p>Uma comiss\u00e3o imperial resumiria depois a diferen\u00e7a entre dois dos maiores banqueiros daquele sistema. A <strong>Casa Gomes<\/strong> reunia o \u201cjornal do oper\u00e1rio\u201d, as economias da ind\u00fastria e os res\u00edduos do com\u00e9rcio. A <strong>Casa Souto<\/strong> seguiu o exemplo, mas se especializou no cr\u00e9dito pessoal, hipotec\u00e1rio e em opera\u00e7\u00f5es com pr\u00e9dios urbanos.\u00a0<\/p>\n<p>A Souto estava, portanto, profundamente ligada \u00e0 pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o f\u00edsica do Rio.<\/p>\n<p>Seu dinheiro circulava por im\u00f3veis, armaz\u00e9ns, fazendas, letras comerciais e neg\u00f3cios portu\u00e1rios. O banqueiro n\u00e3o era apenas um homem sentado atr\u00e1s de um balc\u00e3o. Era um n\u00f3 central de uma rede que alcan\u00e7ava da Rua Direita aos trapiches, dos sobrados comerciais \u00e0s propriedades rurais. Quando esse n\u00f3 se rompeu, a rede inteira come\u00e7ou a ceder.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica que apertou o cr\u00e9dito<\/strong><\/p>\n<p>A fal\u00eancia n\u00e3o pode ser explicada apenas como a aventura irrespons\u00e1vel de um banqueiro. A partir de 1860, o governo imperial procurou restringir emiss\u00f5es, controlar a expans\u00e3o monet\u00e1ria e devolver ao Banco do Brasil maior centralidade sobre o sistema. A legisla\u00e7\u00e3o conhecida como <strong>Lei dos Entraves<\/strong> imp\u00f4s limites \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras e reduziu a flexibilidade do cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>O dinheiro come\u00e7ou a ficar mais caro. As casas banc\u00e1rias, ao mesmo tempo que competiam com o Banco do Brasil, passaram a depender ainda mais dele. Captavam dep\u00f3sitos do p\u00fablico, obtinham recursos junto aos grandes bancos e os repassavam aos clientes cobrando juros superiores.<\/p>\n<p>A Casa Souto cresceu presa a essa engrenagem. Precisava que os devedores pagassem, que os depositantes mantivessem o dinheiro aplicado e que o Banco do Brasil continuasse renovando sua sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando uma dessas pe\u00e7as falhou, faltou ch\u00e3o. Naquele s\u00e1bado de setembro, Souto n\u00e3o conseguiu o cr\u00e9dito necess\u00e1rio para manter os pagamentos. Suspendeu as opera\u00e7\u00f5es. A casa que movimentava recursos superiores a dezenas de milhares de contos de r\u00e9is estava, de uma hora para outra, sem dinheiro dispon\u00edvel para enfrentar a corrida.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A Rua Direita tomada pelo povo<\/strong><\/p>\n<p>O p\u00e2nico n\u00e3o permaneceu diante da Casa Souto.<\/p>\n<p>Quem tinha dinheiro nas outras casas banc\u00e1rias pensou imediatamente: se a maior caiu, qual ser\u00e1 a pr\u00f3xima? As pessoas correram para retirar as economias de estabelecimentos como <strong>Gomes &amp; Filhos<\/strong>, <strong>Montenegro Lima &amp; Companhia<\/strong> e <strong>Oliveira &amp; Bello<\/strong>. Como os bancos n\u00e3o guardavam em esp\u00e9cie todo o dinheiro recebido, a multiplica\u00e7\u00e3o dos saques transformou a suspeita em realidade.<\/p>\n<p>Outras casas suspenderam pagamentos. O com\u00e9rcio parou.<\/p>\n<p>As letras deixaram de circular com a confian\u00e7a habitual. Homens que tinham patrim\u00f4nio eram incapazes de obter numer\u00e1rio. Pap\u00e9is que na sexta-feira passavam de m\u00e3o em m\u00e3o como dinheiro, no s\u00e1bado eram examinados com medo.<\/p>\n<p>A crise atingiu o cora\u00e7\u00e3o da Cidade Velha, mas n\u00e3o ficou limitada a ele. Os escrit\u00f3rios financeiros concentravam-se perto da Rua Direita, enquanto armaz\u00e9ns, unidades produtivas e atividades ligadas ao porto se espalhavam pela regi\u00e3o portu\u00e1ria e pela Cidade Nova \u2014 justamente \u00e1reas onde moravam e trabalhavam livres pobres, libertos e escravos.\u00a0<\/p>\n<p>O colapso come\u00e7ou nos gabinetes dos banqueiros, mas desceu rapidamente \u00e0s ruas.<\/p>\n<p><strong>\u201cCrise! Crise! Crise!\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Nove dias depois, em <strong>19 de setembro de 1864<\/strong>, o Di\u00e1rio do Rio publicou uma das mais extraordin\u00e1rias descri\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas do Centro em p\u00e2nico.<\/p>\n<p>O autor era nosso jovem articulista <strong>Machado de Assis<\/strong> \u2013 com rec\u00e9m completos 25 anos de idade. <\/p>\n<p>Ainda jovem, mas j\u00e1 dotado daquele olhar que enxergava a sociedade inteira numa sala, numa rua ou numa frase, Machado abriu sua cr\u00f4nica com tr\u00eas palavras:<\/p>\n<p><strong>\u201cCrise! Crise! Crise!\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ele contou que o grito angustioso fora ouvido \u201cde todos os peitos da popula\u00e7\u00e3o e de todos os \u00e2ngulos da cidade\u201d. O rosto dos cariocas passara sucessivamente do espanto ao terror e do terror ao desespero.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo diante de Machado era o de uma pra\u00e7a paralisada, ruas tomadas por gente, policiais a p\u00e9 fazendo sentinela e policiais a cavalo realizando correrias. O dinheiro sa\u00eda dos bancos enquanto os boatos entravam. Havia ilus\u00f5es pela manh\u00e3 e decep\u00e7\u00f5es \u00e0 tarde.\u00a0<\/p>\n<p>O Rio praticamente n\u00e3o falava de outra coisa. A crise, escreveu Machado nas p\u00e1ginas do velho <strong>DI\u00c1RIO<\/strong>, era \u201co <em>\u00faltimo pensamento da noite e o primeiro pensamento da manh\u00e3\u201d<\/em>. Dominava as conversas nas ruas, nos caf\u00e9s e nos jornais. Boatos nasciam a cada meia hora e eram repetidos com absoluta convic\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>At\u00e9 os teatros fecharam. A vida cultural da Corte, acostumada a prosseguir entre epidemias, crises pol\u00edticas e disputas ministeriais, curvou-se diante do desaparecimento do cr\u00e9dito. A apresenta\u00e7\u00e3o de Em\u00edlia das Neves, uma das grandes atrizes daquele tempo, deixou de ocorrer por causa da como\u00e7\u00e3o financeira.\u00a0<\/p>\n<p>O dinheiro conseguiu silenciar at\u00e9 o palco.<\/p>\n<p><strong>O Di\u00e1rio do Rio pediu que o governo arrombasse a porta<\/strong><\/p>\n<p>A cr\u00f4nica de Machado n\u00e3o se limitou a descrever o caos. Ela tomou posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naqueles dias, discutia-se se o governo imperial deveria respeitar rigorosamente as regras monet\u00e1rias e comerciais ou adotar medidas extraordin\u00e1rias para salvar a pra\u00e7a. Machado comparou a situa\u00e7\u00e3o a um homem preso num c\u00f4modo em chamas.<\/p>\n<p>Do lado de fora, o socorrista se recusava a arrombar a porta porque, em condi\u00e7\u00f5es normais, portas deveriam ser abertas com chaves. Enquanto experimentava uma chave ap\u00f3s outra, o inc\u00eandio crescia. O homem preso acabou morrendo e a casa foi reduzida a cinzas.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o de Machado era clara: em momentos normais, abre-se a porta com a chave; diante de um inc\u00eandio, arromba-se.<\/p>\n<p><strong>\u201cEra o caso da crise comercial.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O Di\u00e1rio do Rio defendia que o governo abandonasse temporariamente a ortodoxia, interviesse e impedisse que o inc\u00eandio financeiro destru\u00edsse o restante da economia. Machado comemorou quando, pressionado pela imprensa e aconselhado pelo Conselho de Estado, o governo adotou o que chamou de \u201c<em>meio extraordin\u00e1rio do arrombamento<\/em>\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma diferen\u00e7a importante. O <strong>DI\u00c1RIO<\/strong> n\u00e3o avisara, antes de 10 de setembro, que a Casa Souto quebraria. Mas, consumada a fal\u00eancia, percebeu rapidamente que n\u00e3o se tratava apenas do problema particular de um banqueiro. Era uma amea\u00e7a ao com\u00e9rcio, \u00e0 poupan\u00e7a e \u00e0 pr\u00f3pria estabilidade da capital.<\/p>\n<p>E exigiu uma resposta proporcional ao desastre.<\/p>\n<p><strong>O governo imperial abandona a cautela<\/strong><\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio reagiu com medidas de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Prorrogou vencimentos, flexibilizou obriga\u00e7\u00f5es, ampliou a circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e criou um regime especial para a liquida\u00e7\u00e3o das casas banc\u00e1rias. Em <strong>20 de setembro<\/strong>, dez dias ap\u00f3s o fechamento da Souto, um decreto estabeleceu regras excepcionais para aquelas fal\u00eancias.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o governo reconheceu que o sistema n\u00e3o poderia ser tratado como uma simples disputa entre credores e devedores.<\/p>\n<p>Havia milhares de pessoas envolvidas. Havia rela\u00e7\u00f5es cruzadas entre bancos, casas comerciais, propriet\u00e1rios e fazendeiros. Havia risco de que a falta de dinheiro paralisasse o com\u00e9rcio e produzisse uma onda ainda maior de quebras.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio, que passara os anos anteriores tentando controlar o cr\u00e9dito, foi obrigado a expandi-lo para impedir o colapso. Era exatamente o arrombamento defendido pelo Di\u00e1rio do Rio.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o eram apenas bar\u00f5es e grandes negociantes<\/strong><\/p>\n<p>A imagem de uma crise restrita a banqueiros de casaca esconde sua face mais dolorosa.<\/p>\n<p>As quatro principais casas atingidas \u2014 Souto, Gomes &amp; Filhos, Montenegro Lima &amp; Companhia e Oliveira &amp; Bello \u2014 reuniam grande quantidade de contas pequenas. A maior parte dos clientes n\u00e3o possu\u00eda fortunas. Eram pessoas que depositavam quantias modestas, mas que poderiam representar a economia de muitos anos.<\/p>\n<p>Entre os credores havia at\u00e9 escravos. Escravos urbanos conseguiam acumular dinheiro por meio de trabalhos de ganho, gratifica\u00e7\u00f5es e pequenos neg\u00f3cios tolerados pelos senhores. Alguns juntavam recursos para comprar a pr\u00f3pria alforria ou a liberdade de parentes.<\/p>\n<p>Quando a Casa Souto quebrou, esses dep\u00f3sitos ficaram presos na liquida\u00e7\u00e3o.  Para um grande negociante, a perda podia representar parte de uma fortuna. Para um escravo, podia significar perder a liberdade que j\u00e1 estava quase ao alcance das m\u00e3os.<\/p>\n<p>A crise exp\u00f4s uma engrenagem cruel: o dinheiro acumulado pelos mais pobres, inclusive por homens e mulheres mantidos em cativeiro, ajudava a financiar o cr\u00e9dito concedido aos negociantes mais ricos da capital. Quando a estrutura ruiu, os pequenos credores tinham menos for\u00e7a para negociar e menos condi\u00e7\u00f5es de suportar a demora.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A cidade onde tudo aconteceu<\/strong><\/p>\n<p>Quem caminha hoje pela Rua Primeiro de Mar\u00e7o dificilmente percebe que atravessa o cen\u00e1rio de uma corrida banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>A rua continua levando da regi\u00e3o da Candel\u00e1ria \u00e0 Pra\u00e7a XV. Continuam ali igrejas, fachadas antigas, reparti\u00e7\u00f5es e marcas do per\u00edodo em que aquele pequeno trecho era o centro pol\u00edtico, religioso e financeiro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A geografia ajuda a compreender a dimens\u00e3o da crise. A Casa Souto ficava na Rua Direita. A poucos minutos estavam o Banco do Brasil, a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio e a Alf\u00e2ndega. A Rua do Ouvidor era um dos principais corredores da vida social e comercial. A Igreja da Lapa dos Mercadores era frequentada pela comunidade que vivia de neg\u00f3cios. A Candel\u00e1ria dava nome \u00e0 freguesia que reunia grande parte das casas comerciais atingidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um desastre abstrato ocorrido em \u201calgum lugar do Imp\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>A crise aconteceu naquele peda\u00e7o do Centro que ainda pode ser percorrido a p\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel sair da Candel\u00e1ria, seguir pela Primeiro de Mar\u00e7o, passar diante das igrejas, alcan\u00e7ar a Rua do Ouvidor, entrar na Travessa do Com\u00e9rcio e chegar \u00e0 Pra\u00e7a XV em poucos minutos.<\/p>\n<p>Em setembro de 1864, esse mesmo percurso era feito por homens carregando letras sem valor, depositantes desesperados, policiais chamados para conter a multid\u00e3o e mensageiros levando de uma casa banc\u00e1ria a outra as \u00faltimas not\u00edcias \u2014 verdadeiras ou falsas.<\/p>\n<p><strong>E ningu\u00e9m apedrejou Souto<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um detalhe surpreendente na cr\u00f4nica de Machado.<\/p>\n<p>Apesar do p\u00e2nico, dos preju\u00edzos e da multid\u00e3o que se acumulava diante das casas, ele observou que n\u00e3o se articulavam acusa\u00e7\u00f5es pessoais contra o estabelecimento cuja quebra dera in\u00edcio \u00e0 crise.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m as ova\u00e7\u00f5es do infort\u00fanio t\u00eam os seus apedrejadores\u201d, escreveu, mas naquele momento ningu\u00e9m parecia disposto a apedrejar Souto.\u00a0<\/p>\n<p>A reputa\u00e7\u00e3o constru\u00edda durante d\u00e9cadas ainda o protegia.<\/p>\n<p>Isso talvez explique por que o banqueiro n\u00e3o entrou para a mem\u00f3ria popular simplesmente como um vigarista. Sua casa era imprudente, estava excessivamente alavancada e dependia perigosamente do cr\u00e9dito do Banco do Brasil. Mas a crise tamb\u00e9m era sist\u00eamica, agravada pela pol\u00edtica monet\u00e1ria, pelo encarecimento do dinheiro e pela fragilidade de toda a rede financeira.<\/p>\n<p>Souto perdeu a fortuna que acumulara e parte de seus bens foi destinada ao pagamento de d\u00edvidas. N\u00e3o morreu como o grande potentado que fora, mas tampouco h\u00e1 evid\u00eancia de que tenha terminado os dias na mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n<p>Morreu em 1880, muito longe do poder que tivera sobre o dinheiro da Corte, mas com parte da reputa\u00e7\u00e3o pessoal preservada.<\/p>\n<p><strong>Uma crise que entrou para a m\u00fasica e para o vocabul\u00e1rio do Rio<\/strong><\/p>\n<p>A quebra foi t\u00e3o grande que escapou dos relat\u00f3rios e dos balan\u00e7os.<\/p>\n<p>Entrou nos lundus, nos versos, nas s\u00e1tiras e nas conversas populares. A palavra \u201ccrise\u201d passou a ecoar nos palcos e nas ruas. Compositores transformaram o desastre financeiro em humor, m\u00fasica e cr\u00edtica social. A cidade tentava rir do que ainda n\u00e3o conseguia compreender completamente.\u00a0<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m destruiu projetos particulares.<\/p>\n<p>O ator negro Martinho Corr\u00eaa Vasques, por exemplo, havia acumulado economias e pretendia viver do dinheiro guardado. Seu pec\u00falio estava depositado na Casa Souto. A perda o teria obrigado a voltar aos palcos.\u00a0<\/p>\n<p>Assim, a crise alterou destinos muito al\u00e9m das mesas dos banqueiros.<\/p>\n<p><strong>O Rio jamais voltou a olhar os bancos da mesma maneira<\/strong><\/p>\n<p>A quebra da Casa Souto mostrou ao governo que a confian\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o podia ficar inteiramente entregue \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o pessoal de banqueiros particulares.<\/p>\n<p>A crise fortaleceu a ideia de institui\u00e7\u00f5es de poupan\u00e7a mais controladas pelo Estado, ampliou a interven\u00e7\u00e3o oficial e mudou o debate sobre o papel do Banco do Brasil. Tamb\u00e9m revelou a necessidade de um mecanismo capaz de socorrer o sistema quando a falta de liquidez amea\u00e7asse derrubar institui\u00e7\u00f5es que, isoladamente, poderiam at\u00e9 possuir patrim\u00f4nio, mas n\u00e3o tinham dinheiro imediato para pagar todos os clientes.<\/p>\n<p>Em linguagem moderna, o Imp\u00e9rio descobriu da pior maneira a necessidade de um emprestador de \u00faltima inst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Descobriu tamb\u00e9m que uma crise financeira n\u00e3o respeita paredes.<\/p>\n<p>Come\u00e7a no escrit\u00f3rio do banqueiro, passa pelos caixas, alcan\u00e7a as lojas, interrompe o porto, fecha o teatro, reduz o emprego, atinge o pre\u00e7o dos alimentos e entra nas casas de quem jamais participou de uma grande opera\u00e7\u00e3o comercial.<\/p>\n<p><strong>O Di\u00e1rio estava l\u00e1 \u2014 e volta agora \u00e0s pr\u00f3prias p\u00e1ginas<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 169 anos, o Di\u00e1rio do Rio registrou a primeira corrida contra a Casa Souto e ajudou a acalmar os depositantes.<\/p>\n<p>H\u00e1 162 anos, pelas palavras de Machado de Assis, mostrou uma cidade sufocada por boatos, policiais, multid\u00f5es e medo. Defendeu que o governo deixasse de procurar a chave perfeita e arrombasse a porta antes que o inc\u00eandio consumisse tudo.<\/p>\n<p>Hoje, o Di\u00e1rio volta \u00e0s pr\u00f3prias p\u00e1ginas para reconstruir aqueles dias.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque a hist\u00f3ria se repita exatamente, mas porque o Centro continua guardando, sob fachadas, esquinas e cal\u00e7adas diariamente atravessadas por milhares de cariocas, acontecimentos que mudaram o Brasil.<\/p>\n<p>A fal\u00eancia da Casa Souto n\u00e3o foi apenas uma crise banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>Foi a manh\u00e3 em que o Rio descobriu que a fortuna de seus homens mais poderosos, a liberdade sonhada por seus escravos, a sobreviv\u00eancia de seus comerciantes e a tranquilidade de suas ruas dependiam de uma coisa que n\u00e3o podia ser vista, tocada ou guardada num cofre:<\/p>\n<p><strong>a confian\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p>Quando ela desapareceu, o dinheiro desapareceu junto.<\/p>\n<p>E o cora\u00e7\u00e3o financeiro do Imp\u00e9rio, por alguns dias, deixou de bater.<\/p>\n<p><strong>BOX | O que o Di\u00e1rio do Rio publicou sobre a crise<\/strong><\/p>\n<p><strong>1857 \u2014 o primeiro p\u00e2nico<\/strong><\/p>\n<p>O Di\u00e1rio registrou uma corrida de depositantes \u00e0 Casa Souto provocada por boatos e pela crise internacional. O jornal destacou que Souto pagou cerca de dois mil contos em tr\u00eas dias e resistiu aos saques. A cobertura ajudou a mostrar solidez e a recompor a confian\u00e7a no banqueiro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>10 de setembro de 1864 \u2014 a quebra<\/strong><\/p>\n<p>A Casa Souto suspendeu os pagamentos. A not\u00edcia se espalhou rapidamente e uma multid\u00e3o tomou a Rua Direita para tentar retirar dep\u00f3sitos e descontar letras.\u00a0<\/p>\n<p><strong>19 de setembro de 1864 \u2014 Machado de Assis<\/strong><\/p>\n<p>Em sua cr\u00f4nica <em>Ao Acaso<\/em>, Machado descreveu ruas cheias, pol\u00edcia a p\u00e9 e a cavalo, boatos, desmentidos e uma popula\u00e7\u00e3o que passava do espanto ao desespero. Defendeu medidas extraordin\u00e1rias do governo para impedir que a crise destru\u00edsse toda a pra\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O Di\u00e1rio avisou?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o exatamente. Em 1857, o jornal acreditou na solidez de Souto e ajudou a acalmar o p\u00fablico. Mas registrou, sete anos antes da fal\u00eancia, o mecanismo que acabaria destruindo a casa: uma corrida simult\u00e2nea de milhares de pequenos depositantes.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/GoFichcopncHfX8xV4HArk\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/crise-crise-o-dia-em-que-o-dinheiro-sumiu-e-o-rio-parou-a-quebra-da-casa-souto-e-o-panico-que-mudou-o-imperio\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis, colunista do Di\u00e1rio do Rio de Janeiro em 1864, presencia a quebra da Casa Souto \/ Litografia Aquarelada gerada eletronicamente Na manh\u00e3 de s\u00e1bado, 10 de setembro de 1864, o Centro do Rio Antigo acordou como o cora\u00e7\u00e3o de um Imp\u00e9rio que ainda parecia seguro de si. 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