{"id":34859,"date":"2026-07-18T21:00:16","date_gmt":"2026-07-19T00:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=34859"},"modified":"2026-07-18T21:00:16","modified_gmt":"2026-07-19T00:00:16","slug":"o-dia-em-que-uma-aurora-boreal-iluminou-o-ceu-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=34859","title":{"rendered":"O dia em que uma Aurora \u2018Boreal\u2019 iluminou o c\u00e9u do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_1108.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Imagem ilustrativa de uma aurora austral fotografada da Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional. O fen\u00f4meno observado sobre o Rio de Janeiro em 1875 provavelmente apresentava aspecto diferente e n\u00e3o foi registrado por fotografias, inexistentes para esse tipo de observa\u00e7\u00e3o na \u00e9poca : Foto: WikiCommons<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p>Quando se fala em <em>aurora boreal<\/em>, a imagem que vem \u00e0 mente \u00e9 a de cortinas verdes e avermelhadas dan\u00e7ando sobre os c\u00e9us da Noruega, Isl\u00e2ndia, Canad\u00e1 ou Alasca. Pouqu\u00edssimos imaginam que um fen\u00f4meno semelhante j\u00e1 teria sido observado tamb\u00e9m no Rio de Janeiro \u2014 e justamente quando a cidade era a capital do Imp\u00e9rio do Brasil.<\/p>\n<p>Na noite de <strong>15 de fevereiro de 1875<\/strong>, moradores da Corte testemunharam um espet\u00e1culo incomum no c\u00e9u. Do alto do <strong>Imperial Observat\u00f3rio<\/strong>, instalado no ent\u00e3o existente <strong>Morro do Castelo<\/strong>, o astr\u00f4nomo franc\u00eas <strong>Emmanuel Liais<\/strong> acompanhou durante horas um conjunto de grandes faixas luminosas que atravessavam o firmamento. Quase s\u00e9culo e meio depois, pesquisadores brasileiros, japoneses, indianos e norte-americanos revisitaram seu relato e conclu\u00edram que ele pode descrever uma <strong>rar\u00edssima aurora espor\u00e1dica<\/strong>, observada em uma latitude onde esse tipo de fen\u00f4meno praticamente n\u00e3o ocorre.<\/p>\n<p>Embora o t\u00edtulo desta reportagem utilize a express\u00e3o <strong>\u201caurora boreal\u201d<\/strong>, por ser o nome pelo qual esse espet\u00e1culo \u00e9 conhecido pelo grande p\u00fablico, a denomina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para um fen\u00f4meno observado no hemisf\u00e9rio sul seria <strong>aurora austral<\/strong>. Mais especificamente, o estudo cient\u00edfico sugere que o caso do Rio deve ter sido uma <strong>aurora espor\u00e1dica<\/strong> \u2014 um tipo extremamente raro de aurora que pode surgir muito longe das regi\u00f5es polares, mesmo sem a ocorr\u00eancia de grandes tempestades geomagn\u00e9ticas.<\/p>\n<p><strong>Um dos maiores cientistas do Imp\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p>O autor da observa\u00e7\u00e3o estava longe de ser um curioso.<\/p>\n<p><strong>Emmanuel Liais<\/strong> (1826\u20131900) era um dos astr\u00f4nomos mais respeitados do s\u00e9culo XIX. Integrante do Observat\u00f3rio de Paris, ganhou proje\u00e7\u00e3o internacional por seus trabalhos em astronomia, f\u00edsica e observa\u00e7\u00e3o de eclipses antes de ser convidado por <strong>Dom Pedro II<\/strong> para assumir a dire\u00e7\u00e3o do Imperial Observat\u00f3rio do Rio de Janeiro. No Brasil, al\u00e9m de modernizar a institui\u00e7\u00e3o, realizou importantes pesquisas astron\u00f4micas, descobriu cometas, publicou obras cient\u00edficas de refer\u00eancia e ajudou a consolidar o prest\u00edgio internacional da ci\u00eancia produzida durante o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Sua credibilidade \u00e9 um dos aspectos mais importantes dessa hist\u00f3ria. Anos antes de chegar ao Rio, Liais j\u00e1 havia observado e estudado auroras na Europa, dominava as t\u00e9cnicas mais avan\u00e7adas de espectroscopia da \u00e9poca e conhecia como poucos os fen\u00f4menos luminosos da atmosfera. Por isso, quando descreveu o c\u00e9u carioca como semelhante ao de uma aurora, n\u00e3o fazia uma compara\u00e7\u00e3o baseada na imagina\u00e7\u00e3o, mas na experi\u00eancia direta de quem j\u00e1 havia presenciado esse espet\u00e1culo em altas latitudes. Foi justamente esse conjunto de fatores que levou os pesquisadores modernos a considerar seu relato um documento cient\u00edfico de enorme valor hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>Quando o c\u00e9u da Corte surpreendeu o g\u00eanio da astronomia<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0s <strong>19h45 da noite de 15 de fevereiro de 1875<\/strong>, Emmanuel Liais percebeu que algo extraordin\u00e1rio come\u00e7ava a acontecer sobre o c\u00e9u da capital do Imp\u00e9rio. Do terra\u00e7o do Imperial Observat\u00f3rio, no alto do Morro do Castelo, viu surgir grandes faixas esbranqui\u00e7adas que se estendiam de sul para norte, formando uma esp\u00e9cie de v\u00e9u luminoso sobre a cidade. Astr\u00f4nomo experiente e conhecedor das auroras observadas na Europa, compreendeu imediatamente que estava diante de um fen\u00f4meno absolutamente incomum para uma cidade situada t\u00e3o longe das regi\u00f5es polares.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a noite avan\u00e7ava, o espet\u00e1culo tornou-se ainda mais impressionante. As grandes faixas luminosas come\u00e7aram a oscilar de intensidade e a deslocar-se lentamente pelo c\u00e9u, reproduzindo um comportamento t\u00edpico das auroras observadas nas regi\u00f5es polares. N\u00e3o era uma luz fixa, mas um fen\u00f4meno vivo, em constante transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco depois, Liais registrou um detalhe decisivo: as faixas passaram a apresentar uma discreta colora\u00e7\u00e3o avermelhada na parte inferior e um tom esverdeado na superior \u2014 exatamente as cores mais frequentemente associadas \u00e0s auroras. Convencido de que estava diante de algo extraordin\u00e1rio, recorreu ao espectrosc\u00f3pio, um dos instrumentos cient\u00edficos mais modernos da \u00e9poca, para analisar a natureza daquela luminosidade e registrar o fen\u00f4meno com o maior rigor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, interpretou as linhas espectrais observadas segundo os conhecimentos cient\u00edficos dispon\u00edveis no s\u00e9culo XIX. Embora essa explica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica tenha sido posteriormente superada pela ci\u00eancia moderna, o registro espectrosc\u00f3pico permanece como um dos elementos que mais chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores atuais.<\/p>\n<p><strong>Um astr\u00f4nomo escrevendo hist\u00f3ria em tempo real<\/strong><\/p>\n<p>Um dos detalhes mais curiosos da narrativa \u00e9 que Liais n\u00e3o esperou o fen\u00f4meno terminar para comunicar sua descoberta.<\/p>\n<p>Ainda durante a observa\u00e7\u00e3o, interrompeu seu trabalho por alguns minutos para enviar uma nota ao <strong>Jornal do Commercio<\/strong>, informando que um acontecimento extraordin\u00e1rio estava em curso sobre o c\u00e9u da cidade.  Gra\u00e7as a essa iniciativa, a descri\u00e7\u00e3o produzida naquela mesma noite atravessou quase um s\u00e9culo e meio e chegou at\u00e9 os pesquisadores que, em 2020, reexaminaram o caso \u00e0 luz dos conhecimentos atuais da f\u00edsica espacial<\/p>\n<p>Depois retornou imediatamente ao observat\u00f3rio e continuou acompanhando o fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>As luzes enfraqueceram por volta das nove da noite, reapareceram cerca de uma hora depois e voltaram novamente durante a madrugada, permanecendo vis\u00edveis at\u00e9 pouco antes do amanhecer.<\/p>\n<p><strong>Quase 150 anos de esquecimento<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da import\u00e2ncia do relato, o epis\u00f3dio acabou praticamente desaparecendo da mem\u00f3ria cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Somente em <strong>2020<\/strong> um grupo internacional de pesquisadores decidiu reexaminar toda a documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica preservada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.<\/p>\n<p>O estudo confrontou a descri\u00e7\u00e3o de Liais com conhecimentos modernos sobre f\u00edsica solar, atividade geomagn\u00e9tica, espectroscopia e din\u00e2mica das auroras.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o foi cautelosa, mas extremamente significativa: diversos elementos presentes no relato s\u00e3o compat\u00edveis com uma <strong>aurora espor\u00e1dica<\/strong>, um fen\u00f4meno excepcionalmente raro em regi\u00f5es de baixa latitude magn\u00e9tica como o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Os autores ressaltam que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar o caso com certeza absoluta \u2014 afinal, n\u00e3o existem fotografias nem medi\u00e7\u00f5es instrumentais modernas. No entanto, destacam que a combina\u00e7\u00e3o entre a forma das faixas luminosas, seu movimento, as cores descritas, a observa\u00e7\u00e3o espectrosc\u00f3pica e a experi\u00eancia pr\u00e9via de Emmanuel Liais torna essa hip\u00f3tese altamente plaus\u00edvel.<\/p>\n<p>Mais do que solucionar uma curiosidade hist\u00f3rica, o estudo devolveu ao Rio de Janeiro um cap\u00edtulo praticamente esquecido de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria cient\u00edfica. Um fen\u00f4meno observado do alto do Morro do Castelo por um astr\u00f4nomo do Imp\u00e9rio, registrado na imprensa da \u00e9poca e preservado por quase um s\u00e9culo e meio na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional voltou a chamar a aten\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica internacional, demonstrando como documentos hist\u00f3ricos podem ganhar novo significado quando reinterpretados \u00e0 luz do conhecimento contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong>Um espet\u00e1culo praticamente imposs\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>Auroras costumam ocorrer nas proximidades dos polos terrestres, onde part\u00edculas vindas do Sol interagem com o campo magn\u00e9tico da Terra.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro, por sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, est\u00e1 muito distante dessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que o epis\u00f3dio desperta tanto interesse entre os especialistas. Caso a interpreta\u00e7\u00e3o esteja correta, o fen\u00f4meno observado em 1875 representa um dos mais extraordin\u00e1rios registros hist\u00f3ricos de aurora em baix\u00edssima latitude j\u00e1 documentados no mundo.<\/p>\n<p><strong>Um c\u00e9u perdido sobre um morro desaparecido<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um elemento particularmente simb\u00f3lico para os cariocas.<\/p>\n<p>Toda essa observa\u00e7\u00e3o foi realizada a partir do <strong>Imperial Observat\u00f3rio do Rio de Janeiro<\/strong>, ent\u00e3o instalado no alto do <strong>Morro do Castelo<\/strong>, uma das colinas fundadoras da cidade, posteriormente demolido. Criado por decreto de <strong>Dom Pedro I<\/strong>, em 1827, e posteriormente transformado por <strong>Dom Pedro II<\/strong> em um dos mais importantes centros cient\u00edficos da Am\u00e9rica do Sul, o observat\u00f3rio n\u00e3o se dedicava apenas \u00e0 astronomia. Era respons\u00e1vel pela determina\u00e7\u00e3o da hora oficial da Corte, pela elabora\u00e7\u00e3o das efem\u00e9rides astron\u00f4micas, por observa\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, estudos geod\u00e9sicos e pesquisas fundamentais para a navega\u00e7\u00e3o e a cartografia do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Foi desse centro de excel\u00eancia cient\u00edfica que Emmanuel Liais acompanhou, durante horas, um dos fen\u00f4menos celestes mais intrigantes j\u00e1 registrados no Brasil. D\u00e9cadas depois, entre 1920 e 1922, o Morro do Castelo seria demolido durante as grandes reformas urbanas do Rio de Janeiro, obrigando a transfer\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o para S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. O Imperial Observat\u00f3rio daria origem ao atual <strong>Observat\u00f3rio Nacional<\/strong>, que continua sendo uma das mais importantes institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas brasileiras. Assim, a observa\u00e7\u00e3o que hoje desperta o interesse de astr\u00f4nomos do mundo inteiro nasceu em um lugar que desapareceu da paisagem carioca, mas permanece vivo na hist\u00f3ria da ci\u00eancia nacional.<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/GoFichcopncHfX8xV4HArk\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/o-dia-em-que-uma-aurora-boreal-iluminou-o-ceu-do-rio-de-janeiro\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem ilustrativa de uma aurora austral fotografada da Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional. 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