{"id":34921,"date":"2026-07-19T20:26:00","date_gmt":"2026-07-19T23:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=34921"},"modified":"2026-07-19T20:26:00","modified_gmt":"2026-07-19T23:26:00","slug":"entre-rivalidade-e-preconceito-a-argentina-merece-ser-vista-pelo-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=34921","title":{"rendered":"Entre rivalidade e preconceito, a Argentina merece ser vista pelo futebol"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leo_Messi_Argentina_v_Egypt_7_July_2026-1-scaled-e1784482338427.jpg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: Berlination\/WikiMediaCommons<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>por Cristina Rigitano, jornalista<\/em><\/p>\n<p>E a Argentina, hein? Que inveja\u2026 S\u00f3 um dos mais poderosos e destrutivos sentimentos humanos seria capaz de demonizar um escrete que, al\u00e9m do talento incontest\u00e1vel de um g\u00eanio da bola, tem sangue correndo nas veias para virar jogos e representar em campo toda a grandeza de um povo.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre os jogadores brasileiros e nossos hermanos come\u00e7a na execu\u00e7\u00e3o do Hino Nacional. Enquanto os meninos daqui, liderados pelo velho menino <strong>Ney<\/strong>, pareciam mascar os chicletes roubados do treinador para driblar a letra dif\u00edcil e n\u00e3o se afogar \u00e0s margens do Ipiranga, <strong>Messi<\/strong> e sua turma, como num juramento de gl\u00f3ria ou morte, urram em transe o c\u00e2ntico de louvor que exalta a independ\u00eancia, a liberdade e a soberania da sua na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do jogo contra a Inglaterra, um tsunami de indigna\u00e7\u00e3o varreu as redes sociais, com senten\u00e7a e castigo aos argentinos: povo racista, jogadores omissos ao racismo, que apoiam o trio <strong>Trump<\/strong>\u2013<strong>Netanyahu<\/strong>\u2013<strong>Milei<\/strong>; time beneficiado pelo VAR do <strong>Infantino<\/strong>\u2026 E ai de quem torcer por eles!<\/p>\n<p>Era s\u00f3 o que me faltava\u2026 J\u00e1 sou obrigada a tanta coisa \u2014 e vou driblando o que querem me enfiar goela abaixo! E agora mais essa: v\u00e3o me dizer pra quem devo ou n\u00e3o torcer?<\/p>\n<p>A rivalidade \u00e9 motivo suficiente para que brasileiros tor\u00e7am para a Argentina voltar pra casa chupando o dedo. Respeito. Da mesma forma que eu, tricolor, se o Flamengo jogar com o time do inferno, sou Inferno Futebol Clube at\u00e9 morrer!<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, o Fluminense n\u00e3o permitia a entrada de negros na sua aristocr\u00e1tica sede das Laranjeiras. Mas esse passado racista n\u00e3o pesou na minha escolha pelo p\u00f3 de arroz. Eu n\u00e3o preciso renegar minha paix\u00e3o futebol\u00edstica para provar que sou absolutamente contra o racismo.<\/p>\n<p>Na Copa e a todo tempo, assistimos a demonstra\u00e7\u00f5es de racismo de argentinos, mas n\u00e3o s\u00f3 deles. E n\u00f3s, brasileiros, n\u00e3o somos racistas? Na Argentina, negros n\u00e3o s\u00e3o mortos por seguran\u00e7as de supermercados\u2026 E os espanh\u00f3is, que hoje disputam com eles a final, por acaso s\u00e3o exemplo de conduta? Tamb\u00e9m n\u00e3o vejo coer\u00eancia em quem torceu pelos ingleses na semifinal. Quem traficava africanos para a Am\u00e9rica? E os estragos que os ingleses fizeram no continente africano? U\u00e9? Isso n\u00e3o conta?<\/p>\n<p>E hoje, na final, n\u00f3s, latino-americanos, vamos esquecer o que passamos em Barajas? Vamos apagar o que fazem com o <strong>Vini J\u00fanior<\/strong>? E o exterm\u00ednio das civiliza\u00e7\u00f5es incas, astecas e maias? E o exterm\u00ednio e a expuls\u00e3o dos judeus da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica? E a Inquisi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ah, mas os argentinos exterminaram os negros\u2026 Os historiadores desmentem. Em artigo publicado sobre a popula\u00e7\u00e3o negra na Argentina, a historiadora americana negra <strong>Erika Edwards<\/strong> questiona o mito de que a Argentina \u00e9 um pa\u00eds <em>\u201cbranco\u201d<\/em> e mostra que a popula\u00e7\u00e3o afro-argentina teve um papel importante em sua forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. <strong>Erika<\/strong> explica que, durante o per\u00edodo colonial, 200 mil africanos escravizados desembarcaram nas margens do Rio da Prata. No final do s\u00e9culo 18, havia uma presen\u00e7a significativa de pessoas negras, muitas delas escravizadas, especialmente em Buenos Aires, onde um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o era negra. <strong>Edwards<\/strong> conta que existem v\u00e1rios mitos que supostamente <em>\u201cexplicam\u201d<\/em> a aus\u00eancia de argentinos negros. O mais popular \u00e9 o de que homens negros foram usados como <em>\u201cbucha de canh\u00e3o\u201d<\/em> e mortos em massa durante as guerras do s\u00e9culo 19. <em>\u201cOs ex\u00e9rcitos revolucion\u00e1rios recrutaram pessoas escravizadas para lutar nas guerras de independ\u00eancia da Argentina (1810\u20131819) contra as for\u00e7as espanholas, prometendo-lhes a liberdade ap\u00f3s cinco anos de servi\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, em vez de morrerem no campo de batalha, muitos desertaram. Registros militares mostram que, em 1829, a unidade argentina Quarto Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores (Fourth Cazadores) perdeu 31 soldados em combate e 802 por deser\u00e7\u00e3o. Alguns desses homens mudaram-se para o norte, para Lima, no Peru\u201d<\/em>, conta <strong>Edwards<\/strong>. Dados censit\u00e1rios de Buenos Aires revelam que a popula\u00e7\u00e3o de ascend\u00eancia africana mais do que dobrou entre 1778 e 1836.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 19, l\u00edderes e intelectuais argentinos constru\u00edram a narrativa de que a Argentina precisava ser civilizada seguindo os moldes das na\u00e7\u00f5es europeias, deslocando sua popula\u00e7\u00e3o negra f\u00edsica e culturalmente. E este <em>\u201cbranqueamento\u201d<\/em> foi bem-sucedido com a ajuda da imigra\u00e7\u00e3o em massa de brancos europeus.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o apenas a ideia de que a Argentina \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o branca \u00e9 incorreta, como tamb\u00e9m ela revela uma longa hist\u00f3ria de apagamento da popula\u00e7\u00e3o negra no centro da constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional.<\/p>\n<p><strong>Edwards<\/strong> ressalta que pesquisas mais recentes v\u00eam mostrando que a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente continua presente na Argentina, ainda que por muito tempo tenha permanecido invisibilizada.<\/p>\n<p>J\u00e1 o historiador argentino <strong>Leandro Benmergui<\/strong>, diretor do curso de Hist\u00f3ria da Universidade Estadual de Nova York, que tem importante trabalho sobre a Am\u00e9rica Latina, lembra que as Copas do Mundo sempre foram muito mais do que um torneio esportivo. <em>\u201cNelas est\u00e3o em jogo narrativas sobre a na\u00e7\u00e3o, o orgulho coletivo, a masculinidade e o pertencimento. O futebol tem sido, historicamente, um dos espa\u00e7os privilegiados de constru\u00e7\u00e3o das identidades nacionais, e essas identidades nunca s\u00e3o neutras: s\u00e3o atravessadas por quest\u00f5es de ra\u00e7a, g\u00eanero, classe e mem\u00f3ria hist\u00f3rica\u201d<\/em>, diz.<\/p>\n<p><strong>Leandro<\/strong> acredita que as redes sociais amplificam as paix\u00f5es pr\u00f3prias do nacionalismo esportivo e privilegiam afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas, estere\u00f3tipos e indigna\u00e7\u00e3o, em detrimento da an\u00e1lise hist\u00f3rica. <em>\u201cPa\u00edses inteiros acabam reduzidos a r\u00f3tulos simplificadores \u2014 \u2018racistas\u2019, \u2018civilizados\u2019, \u2018europeus\u2019, \u2018mesti\u00e7os\u2019 \u2014 que dizem tanto sobre as rivalidades do presente quanto sobre processos hist\u00f3ricos muito mais complexos\u201d<\/em>, diz. Para <strong>Benmergui<\/strong>, o problema \u00e9 que, em meio a essa din\u00e2mica, os matizes desaparecem. <em>\u201cFala-se muito pouco sobre como as rela\u00e7\u00f5es raciais foram historicamente constitu\u00eddas em cada pa\u00eds, sobre as diferentes trajet\u00f3rias da escravid\u00e3o, das migra\u00e7\u00f5es, das pol\u00edticas estatais ou das maneiras pelas quais cada sociedade construiu suas narrativas sobre a na\u00e7\u00e3o e a diversidade. \u00c9 significativo que, em um debate de enorme intensidade p\u00fablica, tenham sido relativamente poucas as vozes de historiadores, soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos capazes de oferecer esse contexto\u201d<\/em>, afirma.<\/p>\n<p><strong>Benmergui<\/strong> diz que as acusa\u00e7\u00f5es trocadas entre torcidas e usu\u00e1rios das redes sociais n\u00e3o devem ser confundidas com uma an\u00e1lise das sociedades. <em>\u201cExpressam, antes de tudo, como o nacionalismo esportivo ativa mecanismos de identifica\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o que frequentemente se apoiam em estere\u00f3tipos raciais e de g\u00eanero. Compreender esse fen\u00f4meno exige menos indigna\u00e7\u00e3o imediata e mais perspectiva hist\u00f3rica. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel distinguir entre os preconceitos que efetivamente existem em todas as nossas sociedades e as simplifica\u00e7\u00f5es produzidas pelas l\u00f3gicas virais das plataformas digitais\u201d<\/em>, afirma.<\/p>\n<p>Enfim, muitos argentinos s\u00e3o racistas e se sentem \u00e0 vontade para s\u00ea-lo porque o racismo n\u00e3o \u00e9 criminalizado na Argentina. Os absurdos que muitos torcedores idiotas v\u00eam promovendo nas arquibancadas devem ser punidos, e o racismo deve ser amplamente combatido e discutido. A FIFA n\u00e3o pode se fazer de morta; os jogadores argentinos deveriam se posicionar. Ainda assim, voltando ao futebol, como n\u00e3o se emocionar com o show de bola que os hermanos t\u00eam dado? Temos que admitir: os argentinos s\u00e3o insuportavelmente talentosos. Estou encantada e vou torcer por eles. Quem quiser que tor\u00e7a contra. Mas <strong>Maradona<\/strong> n\u00e3o \u00e9 melhor que <strong>Pel\u00e9<\/strong>\u2026<\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/GoFichcopncHfX8xV4HArk\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/entre-rivalidade-e-preconceito-a-argentina-merece-ser-vista-pelo-futebol\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Berlination\/WikiMediaCommons por Cristina Rigitano, jornalista E a Argentina, hein? 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