{"id":35179,"date":"2026-07-22T22:24:28","date_gmt":"2026-07-23T01:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=35179"},"modified":"2026-07-22T22:24:28","modified_gmt":"2026-07-23T01:24:28","slug":"quem-morava-no-morro-do-castelo-o-bairro-que-o-rio-apagou-do-mapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=35179","title":{"rendered":"Quem morava no Morro do Castelo, o bairro que o Rio apagou do mapa"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ecfe336e-054c-4c53-84dc-6b12e6819eca.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">A hist\u00f3rica Catedral de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Morro do Castelo \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fam\u00edlia deixou a casa um dia antes de ela ser demolida. N\u00e3o havia mais o que esperar. As autoridades j\u00e1 tinham passado, de porta em porta, avisando que era preciso sair. Ao redor, o bairro desaparecia lentamente. Primeiro iam embora os vizinhos. Depois ca\u00edam as casas. As ruas conhecidas desde a inf\u00e2ncia transformavam-se em lama, terra revolvida e ru\u00ednas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Florinda Al\u00f3i<\/strong>, ent\u00e3o com 20 anos, e seu irm\u00e3o, <strong>Francisco Al\u00f3i Moreno<\/strong>, de 12, haviam nascido no <strong>Morro do Castelo<\/strong>. Ali aprenderam a subir e descer suas ladeiras, estudaram, fizeram catecismo, conheceram os vizinhos e acompanharam o trabalho dos pais. N\u00e3o estavam deixando apenas uma constru\u00e7\u00e3o condenada. Perdiam o lugar onde toda a sua vida havia acontecido.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da casa no Castelo, a fam\u00edlia seguiu para os barrac\u00f5es de madeira erguidos na <strong>Pra\u00e7a da Bandeira<\/strong>. Segundo os irm\u00e3os, o novo lugar era muito ruim e nem sequer dispunha de \u00e1gua no in\u00edcio. Anos mais tarde, mudaram-se novamente, desta vez para a Rua Paula Matos, na subida de Santa Teresa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria dos Al\u00f3i \u00e9 apenas uma entre milhares.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em setembro de 1921, quando o arrasamento j\u00e1 come\u00e7ava a transformar a paisagem, 4.200 pessoas ainda viviam nos 408 pr\u00e9dios existentes sobre o morro. Eram os castelenses \u2014 moradores de um bairro inteiro que a mem\u00f3ria do <strong>Rio de Janeiro<\/strong> quase sempre reduziu a cen\u00e1rio de fotografias antigas ou a obst\u00e1culo removido para a constru\u00e7\u00e3o da cidade moderna.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas quem eram aquelas pessoas? Como trabalhavam? Onde compravam comida? Em que igrejas rezavam? Onde as crian\u00e7as estudavam? O que acontecia quando algu\u00e9m adoecia? E, sobretudo, para onde foram quando o lugar em que viviam foi literalmente apagado do mapa?<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As respostas aparecem na disserta\u00e7\u00e3o <em>O Rio de Janeiro e o Morro do Castelo: populares, estrat\u00e9gias de vida e hierarquias sociais \u2014 1904-1922<\/em>, apresentada em 2008 pela historiadora <strong>Cl\u00e1udia M\u00edriam Quelhas Paix\u00e3o<\/strong> ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da <strong>Universidade Federal Fluminense<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho, localizado pelo <strong>DI\u00c1RIO DO RIO<\/strong>, muda o ponto de observa\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria que os cariocas pensam conhecer. Em vez de acompanhar somente os prefeitos, engenheiros, sanitaristas e defensores do desmonte, a pesquisadora procura enxergar o Castelo por meio de seus moradores.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, examinou fotografias de <strong>Augusto Malta<\/strong>, jornais, obras liter\u00e1rias, documentos oficiais e centenas de registros da 5\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia, respons\u00e1vel pela \u00e1rea. Recuperou ainda depoimentos de antigos castelenses gravados pelo projeto Arquivo Vivo, do <strong>Museu da Imagem e do Som<\/strong>, entre eles o de Florinda e Francisco.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O bairro que existia sobre o ber\u00e7o do Rio<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Morro do Castelo n\u00e3o era um ponto qualquer da cidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi para aquela eleva\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o conhecida como Morro do Descanso, que o n\u00facleo urbano do Rio foi transferido em 1567, depois da expuls\u00e3o definitiva dos franceses. Protegido pela altura e com vista para a entrada da <strong>Ba\u00eda de Guanabara<\/strong>, o lugar abrigou as principais institui\u00e7\u00f5es da cidade colonial: a Casa do Governador, a C\u00e2mara, a Cadeia, fortifica\u00e7\u00f5es, armaz\u00e9ns, igrejas e o Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali tamb\u00e9m foi erguida a <strong>Igreja de S\u00e3o Sebasti\u00e3o<\/strong>, inaugurada no s\u00e9culo XVI e durante muito tempo sede religiosa da cidade. Nela permaneceram os restos mortais de <strong>Est\u00e1cio de S\u00e1<\/strong>, fundador do Rio, at\u00e9 serem trasladados diante do iminente desaparecimento do morro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Castelo nasceu como centro do poder. Com o passar dos s\u00e9culos, por\u00e9m, autoridades, fam\u00edlias abastadas e reparti\u00e7\u00f5es foram descendo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00e1rzea. A dificuldade de acesso, o transporte de \u00e1gua e o crescimento da cidade contribu\u00edram para transformar o antigo centro administrativo e aristocr\u00e1tico em um bairro predominantemente popular.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o Castelo j\u00e1 era um lugar de casas simples, sobrados antigos, estalagens e habita\u00e7\u00f5es coletivas. Mas tamb\u00e9m conservava igrejas, institui\u00e7\u00f5es, pequenos com\u00e9rcios, escolas, oficinas, \u00e1rvores, quintais e recantos de apar\u00eancia quase rural a poucos passos da Avenida Central.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas fotografias, roupas brancas secam em varais. Crian\u00e7as descal\u00e7as brincam no ch\u00e3o de terra ou sobre o cal\u00e7amento de pedra. Mulheres carregam latas. H\u00e1 cabras, cachorros, charretes, pequenas casas de madeira e constru\u00e7\u00f5es coloniais de um ou dois pavimentos. Ao fundo, surgem o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, o mar e os edif\u00edcios monumentais da cidade que pretendia ser moderna.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contraste era quase teatral. Aos p\u00e9s do morro, o Rio abria avenidas, levantava pal\u00e1cios e imitava Paris. L\u00e1 em cima, continuava existindo uma cidade de vizinhan\u00e7a, lampi\u00f5es, ladeiras, sinos, roupa no varal e \u00e1gua carregada nos bra\u00e7os.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Altar da Igreja de S\u00e3o Sebasti\u00e3o no Morro do Castelo, demolida com o arrasamento do morro \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma fam\u00edlia entre o mercado, a costura e a igreja<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Florinda nasceu no Castelo em 12 de novembro de 1902. Francisco veio ao mundo em 1910. O pai, italiano, era comerciante e mantinha uma barraca de frutas no antigo <strong>Mercado Municipal da Pra\u00e7a XV<\/strong>. A m\u00e3e era costureira, prestava servi\u00e7os para uma loja da <strong>Rua do Carmo<\/strong> e tamb\u00e9m atuava como parteira \u2014 of\u00edcio exercido ainda pela av\u00f3 e por uma tia dos irm\u00e3os.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fam\u00edlia, portanto, ajuda a desmontar a imagem de que todos os moradores formavam uma massa indistinta, sem profiss\u00e3o ou organiza\u00e7\u00e3o. O pai participava da intensa vida comercial da Pra\u00e7a XV. A m\u00e3e trabalhava fora e dentro de casa, costurando e auxiliando outras mulheres na hora do parto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os filhos estudaram no <strong>Col\u00e9gio Carlos Chagas<\/strong>, localizado na Pra\u00e7a do Castelo. Tamb\u00e9m fizeram catecismo na <strong>Igreja dos Barbadinhos<\/strong>, como era conhecida a igreja dos capuchinhos, onde suas irm\u00e3s mais tarde se casariam.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a da Igreja marcava o calend\u00e1rio do bairro. A festa de <strong>S\u00e3o Sebasti\u00e3o<\/strong> atra\u00eda fi\u00e9is de v\u00e1rias partes da cidade, que subiam as ladeiras e enchiam o templo. No Natal, havia Missa do Galo e prociss\u00e3o. Durante a Semana Santa, os moradores acompanhavam cerim\u00f4nias, apresenta\u00e7\u00f5es e a tradicional malha\u00e7\u00e3o do Judas no S\u00e1bado de Aleluia. A Festa do Divino era celebrada na Ch\u00e1cara da Floresta.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fam\u00edlias tamb\u00e9m viajavam em trens lotados at\u00e9 a <strong>Festa da Penha<\/strong>. Ali, os pais pagavam promessas, rezavam e depois faziam piqueniques. F\u00e9 e divers\u00e3o n\u00e3o apareciam como atividades opostas. Eram partes de um mesmo calend\u00e1rio familiar, profundamente carioca e cat\u00f3lico, no qual a prociss\u00e3o, a missa, a comida levada de casa e o encontro com os amigos pertenciam ao mesmo dia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00faltima missa na Igreja de S\u00e3o Sebasti\u00e3o foi celebrada em 1\u00ba de novembro de 1921. A cidade assistia ao fechamento do templo que guardara por s\u00e9culos a mem\u00f3ria de sua funda\u00e7\u00e3o. Pouco depois, seus altares, t\u00famulos e imagens desapareceriam junto com as casas ao redor.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um bairro de trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os livros da 5\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia permitiram a Cl\u00e1udia Paix\u00e3o identificar parte das profiss\u00f5es dos castelenses.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os moradores que aparecem nos registros havia alfaiates, carpinteiros, carregadores, carroceiros, motoristas, empregados do com\u00e9rcio, dom\u00e9sticas, donos de botequim, eletricistas, ferreiros, jornaleiros, lavadeiras, leiteiros, marinheiros, oper\u00e1rios, ourives, pedreiros, peixeiros, pescadores, pintores, quitandeiros, sapateiros, vendedores ambulantes e at\u00e9 vendedor de sorvete.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Morro do Castelo visto do mar, s\u00e9culo 19 \/ Quadro de Paulo Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era um bairro de gente desligada da economia da cidade. Era justamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Morar no Castelo significava estar perto de praticamente tudo. Os trabalhadores podiam descer a p\u00e9 para a Pra\u00e7a XV, para a Rua do Carmo, para a regi\u00e3o da Miseric\u00f3rdia, para os estabelecimentos comerciais do Centro e para o mercado. Carregadores, vendedores, dom\u00e9sticas, alfaiates e oper\u00e1rios dependiam da proximidade com os lugares onde encontravam servi\u00e7o diariamente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa conclui que a localiza\u00e7\u00e3o da moradia era vital para a sobreviv\u00eancia daquela popula\u00e7\u00e3o. Eram profiss\u00f5es dependentes do movimento do Centro, numa \u00e9poca em que a regi\u00e3o ainda concentrava n\u00e3o apenas reparti\u00e7\u00f5es e casas comerciais, mas tamb\u00e9m grande n\u00famero de moradores.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3pria vida interna do bairro gerava trabalho. Havia armaz\u00e9ns, quitandas, botequins, alfaiates e outros pequenos estabelecimentos. Parte dos moradores trabalhava no alto do morro; outra parte descia diariamente para o Mercado Municipal e para as ruas comerciais ao redor.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m havia muitas lavadeiras. A roupa estendida por toda parte, t\u00e3o presente nas fotografias antigas, n\u00e3o era mero detalhe pitoresco. Era o sinal vis\u00edvel de um of\u00edcio exercido por mulheres que dependiam da \u00e1gua, dos tanques e dos varais para sustentar suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c1gua em latas e luz de lampi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da localiza\u00e7\u00e3o central, as condi\u00e7\u00f5es de infraestrutura estavam longe de ser confort\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1gua n\u00e3o chegava regularmente encanada \u00e0s casas. Os moradores precisavam carreg\u00e1-la em latas. Quando o abastecimento falhava no alto do morro, desciam para busc\u00e1-la nas proximidades da <strong>Santa Casa da Miseric\u00f3rdia<\/strong>. Algumas grandes estalagens mantinham caixas-d\u2019\u00e1gua para atender aos inquilinos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ilumina\u00e7\u00e3o era feita por lampi\u00f5es. Autom\u00f3veis n\u00e3o subiam. O acesso ocorria sobretudo pela <strong>Ladeira da Miseric\u00f3rdia<\/strong> ou pela Ladeira do Castelo, ambas \u00edngremes. Ainda assim, Florinda e Francisco recordavam que os moradores estavam acostumados \u00e0 subida e n\u00e3o faziam dela motivo de reclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vida material era dura. Havia casas mal conservadas, habita\u00e7\u00f5es coletivas, ruas sem pavimenta\u00e7\u00e3o adequada e evidente pobreza. A pesquisa n\u00e3o tenta negar essas condi\u00e7\u00f5es, mas demonstra que elas n\u00e3o resumem a exist\u00eancia dos castelenses.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma casa pobre continuava sendo uma casa. Uma rua sem cal\u00e7amento continuava sendo a rua onde crian\u00e7as brincavam, vizinhos conversavam e fam\u00edlias carregavam suas compras. O bairro n\u00e3o deixava de possuir la\u00e7os, afetos e identidade apenas porque suas constru\u00e7\u00f5es n\u00e3o correspondiam ao modelo de eleg\u00e2ncia desejado pelos reformadores.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A Ch\u00e1cara da Floresta<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos lugares mais lembrados pelos irm\u00e3os Al\u00f3i era a <strong>Ch\u00e1cara da Floresta<\/strong>, grande conjunto de habita\u00e7\u00f5es localizado na subida da Ladeira do Semin\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A documenta\u00e7\u00e3o e as fotografias indicam que se tratava de uma das maiores habita\u00e7\u00f5es coletivas existentes no Centro. Os antigos moradores, por\u00e9m, guardavam outra imagem do lugar. Francisco descreveu a Floresta como uma avenida arborizada, fechada por um port\u00e3o e ladeada por casas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na lembran\u00e7a do castelense, seus habitantes viviam pr\u00f3ximos uns dos outros: <em>\u201cEra quase como uma fam\u00edlia s\u00f3\u201d<\/em>. Quando algu\u00e9m adoecia ou uma fam\u00edlia enfrentava dificuldades, havia um vizinho, um amigo ou at\u00e9 um padre disposto a ajudar.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mem\u00f3ria n\u00e3o elimina os conflitos encontrados pela pesquisadora nos registros policiais. Havia brigas, furtos, acidentes, embriaguez e desordens \u2014 como em qualquer bairro popular densamente habitado. A pr\u00f3pria presen\u00e7a de um posto policial diante da Ch\u00e1cara da Floresta mostra que o poder p\u00fablico vigiava de perto seus moradores.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a hist\u00f3ria de uma vizinhan\u00e7a n\u00e3o pode ser escrita apenas a partir das vezes em que algu\u00e9m entrou numa delegacia. Os livros policiais registravam o conflito; n\u00e3o registravam a sopa levada ao doente, a crian\u00e7a observada pela vizinha, a parteira chamada durante a madrugada ou o padre que aparecia para confortar uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi justamente por isso que Cl\u00e1udia Paix\u00e3o cruzou documentos policiais, fotografias, imprensa e mem\u00f3ria oral. Cada fonte enxergava um Castelo diferente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Aluguel, propriet\u00e1rios e desapropria\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maioria dos castelenses n\u00e3o era propriet\u00e1ria das casas em que vivia. Na lembran\u00e7a dos irm\u00e3os Al\u00f3i, aproximadamente 90% dos moradores pagavam aluguel. A disserta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aponta a <strong>Santa Casa da Miseric\u00f3rdia do Rio de Janeiro<\/strong> como uma das maiores propriet\u00e1rias de im\u00f3veis comerciais e residenciais no morro. A reportagem procurou a Mordomia dos Pr\u00e9dios \u2013 o departamento de patrim\u00f4nio da institui\u00e7\u00e3o de 444 anos \u2013 e o Mordomo <strong>Cl\u00e1udio Andr\u00e9 de Castro <\/strong>consultou os registros da irmandade e localizou mais de 80 im\u00f3veis que possu\u00eda a Santa Casa no bairro desaparecido. \u201c<em>Sem contar que t\u00ednhamos o Hospital S\u00e3o Zacharias em cima do morro, depois transportado para Botafogo\u201d<\/em>, diz, explicando que at\u00e9 hoje existe o antigo passadi\u00e7o que ligava o Hospital \u00e0 pequena montanha, assim como seus muros de conten\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa circunst\u00e2ncia \u2013 a quantidade de inquilinos que l\u00e1 residiam \u2013  ajuda a compreender uma das maiores injusti\u00e7as do desmonte \u2013 o drama do despejo. Afinal, n\u00e3o eram im\u00f3veis irregulares e nem fruto de ocupa\u00e7\u00e3o informal. <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As indeniza\u00e7\u00f5es decorrentes das desapropria\u00e7\u00f5es eram destinadas aos donos dos im\u00f3veis. Mas os propriet\u00e1rios n\u00e3o necessariamente moravam no Castelo. Quem alugava um quarto, uma casa ou uma parte de estalagem podia perder a moradia sem receber qualquer compensa\u00e7\u00e3o correspondente \u00e0 ruptura de sua vida.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A casa desaparecia, o propriet\u00e1rio era indenizado e o inquilino precisava procurar outro lugar.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A demoli\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o transferiu apenas pr\u00e9dios e terras. Transferiu fam\u00edlias inteiras. Rompeu rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a e afastou trabalhadores dos locais onde encontravam ocupa\u00e7\u00e3o. Fez desaparecer um bairro residencial para que o Centro assumisse progressivamente a fun\u00e7\u00e3o quase exclusiva de espa\u00e7o administrativo, comercial e monumental.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Carnaval, futebol e praia<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Castelo tamb\u00e9m tinha suas divers\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois blocos movimentavam o bairro: o <strong>Castelo de Ouro<\/strong>, de estandarte verde, e o <strong>Prazer do Castelo<\/strong>, que usava verde e amarelo. A rivalidade aumentava no carnaval, com disputa de fantasias, torcidas e algumas brigas. A pastorinha vencedora era tratada como princesa pelo restante do ano.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia ainda o bloco Mis\u00e9ria e Fome, da Rua da Miseric\u00f3rdia, conhecido por um coral masculino que podia ser ouvido do alto do morro. Seus integrantes mantinham amizade com os castelenses e \u00e0s vezes subiam as ladeiras cantando.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O bairro tamb\u00e9m tinha um time de futebol, o <strong>Paulistano<\/strong>. A sede ficava no Castelo, mas o campo estava nas proximidades da Pra\u00e7a XV, na \u00e1rea onde hoje se encontra o Museu Hist\u00f3rico Nacional. Nos dias de jogo, muitos moradores desciam para torcer.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As crian\u00e7as brincavam de roda, amarelinha, cobra-cega e berlinda. Florinda contou que foi ao cinema apenas duas vezes em toda a vida: uma ainda menina e outra quando estava noiva. Em compensa\u00e7\u00e3o, a rua, as festas religiosas, os blocos e as excurs\u00f5es familiares ofereciam um mundo inteiro de sociabilidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia tamb\u00e9m a pequena Praia de Dona Constan\u00e7a, diante da Igreja de Santa Luzia, aos p\u00e9s do morro. Antes dos aterros afastarem o mar, os castelenses podiam descer de casa e alcan\u00e7ar uma praia no cora\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A cidade decidiu que o morro precisava desaparecer<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o s\u00e9culo XIX havia projetos para eliminar o Castelo. Seus defensores alegavam que a eleva\u00e7\u00e3o impedia a circula\u00e7\u00e3o dos ventos, prejudicava o saneamento, escondia a cidade de quem chegava pelo mar e ocupava um terreno valioso demais para permanecer coberto por constru\u00e7\u00f5es antigas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1904, durante as reformas do prefeito <strong>Francisco Pereira Passos<\/strong>, uma parte do morro j\u00e1 havia sido cortada para a abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A etapa decisiva come\u00e7ou com o prefeito <strong>Carlos Sampaio<\/strong>, que autorizou o desmonte em 17 de agosto de 1920. O Castelo tinha cerca de 63 metros de altura e ocupava aproximadamente 184 mil metros quadrados. Seus limites correspondiam \u00e0s atuais Avenida Rio Branco e ruas Santa Luzia, Miseric\u00f3rdia e S\u00e3o Jos\u00e9.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O morro foi desfeito principalmente com poderosos jatos d\u2019\u00e1gua. A terra transformada em lama escorria por canais, era transportada e empregada em aterros. A imagem do Castelo sendo dissolvido pela for\u00e7a hidr\u00e1ulica tornou-se uma das mais impressionantes representa\u00e7\u00f5es da moderniza\u00e7\u00e3o carioca.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte da \u00e1rea liberada recebeu instala\u00e7\u00f5es da <strong>Exposi\u00e7\u00e3o Internacional do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia<\/strong>, inaugurada em 7 de setembro de 1922. Mas a desmontagem e a ocupa\u00e7\u00e3o definitiva do terreno se prolongaram por mais tempo. Fotografias de Augusto Malta ainda mostram trabalhos de conclus\u00e3o do arrasamento em 1928.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os defensores da obra falavam em higiene, circula\u00e7\u00e3o, embelezamento e progresso. O problema \u00e9 que, no debate sobre o futuro da cidade, os moradores quase nunca apareciam como donos de uma hist\u00f3ria digna de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Lima Barreto<\/strong> foi uma das raras vozes que chamou aten\u00e7\u00e3o para a falta de l\u00f3gica de destruir habita\u00e7\u00f5es quando o Rio j\u00e1 atravessava uma crise de moradia. Outros intelectuais criticaram a perda do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. Mas mesmo boa parte dos que desejavam conservar o morro estava mais preocupada com igrejas, fortalezas, rel\u00edquias e lendas do que com as milhares de pessoas que viviam entre elas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ningu\u00e9m acreditava que o Castelo pudesse cair<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A demoli\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu de uma vez.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fam\u00edlias foram recebendo avisos e deixando suas casas \u00e0 medida que as obras avan\u00e7avam. Os capuchinhos estavam entre os primeiros a sair. Outros resistiam pela perman\u00eancia, pela dificuldade de encontrar moradia ou simplesmente porque n\u00e3o acreditavam que o governo fosse realmente capaz de destruir um morro inteiro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o houve uma grande revolta organizada. Houve algo talvez mais silencioso e mais humano: gente esperando at\u00e9 o \u00faltimo momento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Florinda e Francisco sa\u00edram somente na v\u00e9spera da demoli\u00e7\u00e3o de sua casa. O endere\u00e7o em que haviam nascido e passado a inf\u00e2ncia seria desfeito no dia seguinte.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os barrac\u00f5es da Pra\u00e7a da Bandeira deveriam receber os castelenses sem destino. Eram constru\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias de madeira, destinadas \u00e0s fam\u00edlias mais pobres. Muitos moradores evitaram permanecer ali. Parte da popula\u00e7\u00e3o buscou casas no <strong>Morro do Pinto<\/strong>, no <strong>Morro de Santo Ant\u00f4nio<\/strong> e nas encostas de <strong>Santa Teresa<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisadora levanta uma hip\u00f3tese especialmente bonita: talvez a principal forma de resist\u00eancia dos antigos moradores tenha sido insistir em continuar vivendo perto do Centro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles podiam ter perdido o Castelo, mas tentaram n\u00e3o perder inteiramente as ruas, os empregos, os mercados, as igrejas e as rela\u00e7\u00f5es que sustentavam suas vidas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que restou<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, quem caminha pelo bairro do Castelo encontra largas avenidas, edif\u00edcios p\u00fablicos, torres comerciais, estacionamentos, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e outros monumentos da cidade republicana.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar que ali existiram ladeiras cheias de crian\u00e7as, casas coloniais, lavadeiras, botequins, estalagens, prociss\u00f5es e pequenos quintais. O nome permaneceu. O bairro, n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da antiga trama urbana do morro, restaram apenas cerca de 30 metros da Ladeira da Miseric\u00f3rdia, junto \u00e0 Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso. \u00c9 um fragmento de pedra espremido entre constru\u00e7\u00f5es posteriores, quase uma lembran\u00e7a involunt\u00e1ria da cidade que havia ali.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Castelo costuma ser lembrado por suas rel\u00edquias: o t\u00famulo de Est\u00e1cio de S\u00e1, o marco da cidade, as igrejas, os jesu\u00edtas e a lenda dos tesouros enterrados. Tudo isso merece ser lembrado.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas havia outro tesouro sobre o morro: sua gente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eram homens e mulheres que acordavam cedo, desciam para o mercado, carregavam mercadorias, lavavam roupas, costuravam vestidos, consertavam sapatos, vendiam leite, frutas, jornais e sorvetes. Eram crian\u00e7as que estudavam na Pra\u00e7a do Castelo, aprendiam o catecismo, brincavam nas ladeiras e acompanhavam os pais nas festas de S\u00e3o Sebasti\u00e3o e da Penha.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o viviam num cen\u00e1rio. Viviam num bairro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D\u00e9cadas depois, ao recordar o lugar onde nascera e do qual sa\u00edra somente quando sua casa estava prestes a cair, Florinda resumiu em poucas palavras aquilo que os planos urban\u00edsticos, os discursos oficiais e as fotografias das demoli\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram capazes de registrar:<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cO Castelo era bom. Eu me sentia bem.\u201d<\/em><\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/GoFichcopncHfX8xV4HArk\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/quem-morava-no-morro-do-castelo-o-bairro-que-o-rio-apagou-do-mapa\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3rica Catedral de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Morro do Castelo \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o A fam\u00edlia deixou a casa um dia antes de ela ser demolida. N\u00e3o havia mais o que esperar. As autoridades j\u00e1 tinham passado, de porta em porta, avisando que era preciso sair. Ao redor, o bairro desaparecia lentamente. Primeiro iam embora os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35180,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-35179","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=35179"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35179\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/35180"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=35179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=35179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=35179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}