{"id":36527,"date":"2026-08-08T19:35:45","date_gmt":"2026-08-08T22:35:45","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=36527"},"modified":"2026-08-08T19:35:45","modified_gmt":"2026-08-08T22:35:45","slug":"quando-o-comercio-do-rio-inteiro-se-vestiu-para-nossa-senhora-a-festa-monumental-da-lapa-dos-mercadores-em-1900","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=36527","title":{"rendered":"Quando o com\u00e9rcio do Rio inteiro se vestiu para Nossa Senhora: a festa monumental da Lapa dos Mercadores em 1900"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/IMG_0054.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">Imagem noturna da Rua do Ouvidor vista da Prineiro de Mar\u00e7o, no dia 08 de Setembro de 1937 &#8211; ao fundo, iluminada, a Igrdja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores \/ Foto: Acervo Irmandade dos Mercadores<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito antes dos grandes eventos patrocinados, dos palcos montados em pra\u00e7a p\u00fablica e das festas capazes de interditar ruas inteiras do Centro, havia um dia do ano em que uma pequena igreja encaixada entre a Rua do Ouvidor e a Travessa do Com\u00e9rcio conseguia mobilizar todo o cora\u00e7\u00e3o mercantil do Rio de Janeiro. Isso ocorria todo fim de agosto e in\u00edcio de setembro, por mais de 200 anos. Em torno de sua Padroeira, comerciantes se organizavam por ruas, firmas financiavam ornamenta\u00e7\u00f5es, empregados do com\u00e9rcio criavam suas pr\u00f3prias comiss\u00f5es, bandas militares tocavam em coretos especialmente constru\u00eddos, gambiarras de g\u00e1s iluminavam quarteir\u00f5es inteiros e foguetes e grandes bal\u00f5es encerravam uma jornada em homenagem a Nossa Senhora. Era a <strong>Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores<\/strong>, cuja edi\u00e7\u00e3o de 8 de setembro de 1900 pode hoje ser praticamente reconstru\u00edda gra\u00e7as a uma extensa reportagem publicada no dia seguinte pelo jornal <em>O Paiz<\/em>, preservada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A riqueza desse documento est\u00e1 justamente no fato de que o rep\u00f3rter n\u00e3o se limitou a reproduzir o programa oficial. Ele foi \u00e0 festa da hist\u00f3rica irmandade, atravessou as ruas ornamentadas, entrou com dificuldade na igreja lotada, observou as senhoras que chegavam vestidas especialmente para a solenidade, ouviu o repert\u00f3rio executado por coro e orquestra, sentiu o perfume de rosas e incenso no interior do templo e acompanhou, j\u00e1 \u00e0 noite, a multid\u00e3o espalhada pelas imedia\u00e7\u00f5es da Pra\u00e7a XV. O que aparece naquela reportagem \u00e9 muito mais do que uma celebra\u00e7\u00e3o religiosa particularmente solene: \u00e9 o retrato de uma \u00e9poca em que a Lapa justificava plenamente o sobrenome \u201cdos Mercadores\u201d, porque sua festa n\u00e3o pertencia apenas \u00e0 igreja, mas a todo o com\u00e9rcio do entorno. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele s\u00e1bado, o Rio ainda n\u00e3o conhecia a Avenida Central, que seria aberta poucos anos depois durante as reformas de Pereira Passos. O n\u00facleo econ\u00f4mico da capital da Rep\u00fablica permanecia concentrado no emaranhado de ruas antigas herdadas do per\u00edodo colonial e do Imp\u00e9rio, sobretudo entre a Rua do Ouvidor, Primeiro de Mar\u00e7o, Rua do Mercado, Pra\u00e7a XV e Travessa do Com\u00e9rcio. Foi exatamente esse territ\u00f3rio que amanheceu transformado em 8 de setembro de 1900, embora o tempo estivesse longe de colaborar. O c\u00e9u surgira carregado, e o cronista de <em>O Paiz<\/em> lamentava que todo o esfor\u00e7o dos irm\u00e3os, comerciantes e moradores pudesse ser prejudicado pela chuva, observando que nem os foguetes, nem o repique dos sinos, nem a m\u00fasica dos coretos conseguiam produzir plenamente a mesma sensa\u00e7\u00e3o festiva sob um c\u00e9u cinzento. Depois de tantos preparativos, dizia ele, os organizadores mereciam aquilo que chamou poeticamente de um \u201cdia de rosas\u201d. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A preocupa\u00e7\u00e3o fazia sentido porque a festa j\u00e1 tomava as ruas desde cedo. Na Rua Primeiro de Mar\u00e7o havia sido erguido um grande arco triunfal, considerado pelo jornal de bel\u00edssimo efeito, enquanto nas proximidades do Mercado surgira um coreto amplo e elegante. A Rua do Mercado, a Pra\u00e7a XV, a Travessa do Com\u00e9rcio e outros trechos vizinhos estavam cobertos por folhagens, bandeiras e elementos decorativos organizados pelas pr\u00f3prias comiss\u00f5es de comerciantes. N\u00e3o se tratava, portanto, de uma simples ornamenta\u00e7\u00e3o diante da porta da igreja, mas de uma interven\u00e7\u00e3o festiva sobre v\u00e1rios quarteir\u00f5es do Centro. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A organiza\u00e7\u00e3o daquele aparato revela a dimens\u00e3o corporativa da Irmandade. A Rua do Ouvidor tinha sua pr\u00f3pria comiss\u00e3o, presidida por Joaquim Ant\u00f4nio Carvalho Guimar\u00e3es e integrada por Francisco Lopes Ferraz, Domingos Jos\u00e9 Lemos Reis, Joaquim Pinto Magalh\u00e3es, representantes da firma Garcia &amp; Paz, Jos\u00e9 Francisco Maia e Francisco Dias Silva Moreira. No Largo do Pa\u00e7o, ent\u00e3o j\u00e1 oficialmente Pra\u00e7a XV, aparecia Joaquim Jos\u00e9 Dias, ligado \u00e0 firma Dias Pereira &amp; Cia.; na Rua do Mercado estavam Jo\u00e3o da Silva Pinho e Manoel Brand\u00e3o; na Travessa do Com\u00e9rcio, Manoel Martins Ferreira Mattos, Oliveira Lopes Irm\u00e3o e a firma Lixa &amp; Avelino. Havia ainda uma subcomiss\u00e3o formada exclusivamente por empregados do com\u00e9rcio, presidida por Ant\u00f4nio Martins Fernandes e integrada tamb\u00e9m por Manoel Cunha Figueiredo. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse detalhe talvez seja um dos mais importantes de toda a festa, porque demonstra que o t\u00edtulo de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores n\u00e3o era, em 1900, uma reminisc\u00eancia antiquada. O com\u00e9rcio era efetivamente o corpo social que sustentava a celebra\u00e7\u00e3o. Participavam os donos das casas, as firmas e os empregados, numa mobiliza\u00e7\u00e3o que ultrapassava a pr\u00f3pria <strong>Mesa Administrativa da Irmandade <\/strong>hoje muito conhecida pela recupera\u00e7\u00e3o de arte sacra roubada e pelas Missas Solenes com Coral e Orquestra nos fins de semana da rua do Ouvidor. O jornalista percebeu essa caracter\u00edstica e descreveu os respons\u00e1veis pela festa como homens de recursos, em sua maioria portugueses, que n\u00e3o economizavam quando se tratava de dar esplendor \u00e0 devo\u00e7\u00e3o. Segundo ele, havia naquele ambiente algo das antigas romarias portuguesas, adaptado naturalmente \u00e0 vida dos comerciantes estabelecidos na capital brasileira. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem social constru\u00edda pelo rep\u00f3rter \u00e9 reveladora. Eram homens acostumados \u00e0 severidade dos neg\u00f3cios, aos balc\u00f5es, \u00e0s contas, ao movimento das casas comerciais e \u00e0 disciplina cotidiana do trabalho, mas que, uma vez por ano, davam a si pr\u00f3prios uma esp\u00e9cie de licen\u00e7a para viver a festa com expansividade. <em>O Paiz<\/em> chegou a chamar aquele conjunto de comerciantes de uma verdadeira \u201ccolmeia humana\u201d, estimando em cerca de doze horas o tempo que dedicavam naquele dia \u00e0 devo\u00e7\u00e3o, \u00e0 confraterniza\u00e7\u00e3o, \u00e0s m\u00fasicas, aos foguetes e \u00e0 vida nas ruas. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro da igreja, o cen\u00e1rio era igualmente grandioso. O jornalista escreveu que teve dificuldade para entrar, tamanha era a concentra\u00e7\u00e3o de pessoas. Encontrou a multid\u00e3o ajoelhada, altares ricamente preparados, intensa ilumina\u00e7\u00e3o, flores e m\u00fasica sacra ocupando o pequeno templo. O ar, segundo sua descri\u00e7\u00e3o, estava impregnado pelo perfume de incenso e rosas, enquanto do lado de fora o cronista ainda se preocupava com as senhoras que chegavam vestidas para a solenidade e corriam o risco de ter suas toilettes arruinadas por uma pancada de chuva. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s 11 horas come\u00e7ou a Missa Solene, celebrada pelo capel\u00e3o da igreja, Padre Pedro Hermes Monteiro, assistido pelos padres Pinto de Almeida e Francisco de Paula. Monsenhor Pedrinha atuou como mestre de cerim\u00f4nias e tamb\u00e9m pregou ao Evangelho. A solenidade contou com coro e orquestra sob a dire\u00e7\u00e3o do professor Guilherme de Oliveira, num programa musical que demonstrava o padr\u00e3o de aparato cultivado pela Irmandade. A obra central era uma Missa intitulada <em>Nossa Senhora do Carmo<\/em>, e o repert\u00f3rio inclu\u00eda ainda uma <em>Ave Maria<\/em> de Martelli, o <em>Credo<\/em> de Canessa, um Ofert\u00f3rio de Verdi e um <em>O Salutaris<\/em> cuja execu\u00e7\u00e3o foi especialmente elogiada pelo jornalista. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a de coro, orquestra, solistas e repert\u00f3rio de grande ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era uma excepcionalidade daquele ano. A Hemeroteca mostra que a m\u00fasica de aparato fazia parte das grandes festas da Lapa havia d\u00e9cadas, com maestros, grandes conjuntos e obras de compositores europeus sendo regularmente contratados para as solenidades. Essa tradi\u00e7\u00e3o combinava com o pr\u00f3prio patrim\u00f4nio material da igreja, enriquecido ao longo do s\u00e9culo XIX por sucessivas Mesas que ofereciam banquetas, vasos de prata, Missais guarnecidos do mesmo metal, ricos tecidos, tapetes e outros objetos destinados justamente ao esplendor do culto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi tamb\u00e9m dentro da igreja que o rep\u00f3rter de 1900 se deparou com um dos grandes s\u00edmbolos da mem\u00f3ria institucional da Irmandade: o quadro com os retratos da Mesa que comandara a reconstru\u00e7\u00e3o do templo entre 1869 e 1873. Ali apareciam Adriano Corr\u00eaa Bandeira, provedor; Narciso Luiz Martins Ribeiro, vice-provedor; o Bar\u00e3o da Lagoa, secret\u00e1rio; Ant\u00f4nio Maria de Paula Ramos, tesoureiro; e Jos\u00e9 Joaquim Brand\u00e3o dos Santos, procurador. O quadro fora oferecido pela administra\u00e7\u00e3o seguinte, de 1873\u20131874, como homenagem aos irm\u00e3os respons\u00e1veis por aquela grande transforma\u00e7\u00e3o. Em 1900, Adriano Corr\u00eaa Bandeira continuava vivo e j\u00e1 recebera o t\u00edtulo de protetor da Irmandade, enquanto Jos\u00e9 Joaquim Brand\u00e3o dos Santos tamb\u00e9m permanecia vivo. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A continuidade entre gera\u00e7\u00f5es ficava ainda mais evidente quando se recordava outra crise muito recente. A igreja havia sofrido graves danos durante a Revolta da Armada, e a pr\u00f3pria reportagem de 1900 lembrava que um proj\u00e9til atingira o templo, obrigando posteriormente a Irmandade a custear uma cara reconstru\u00e7\u00e3o. Depois de tentar sem sucesso obter indeniza\u00e7\u00e3o, os irm\u00e3os decidiram executar as obras por conta pr\u00f3pria, gastando mais de 70 contos de r\u00e9is e chegando a vender parte das ap\u00f3lices que integravam o patrim\u00f4nio da institui\u00e7\u00e3o. A recupera\u00e7\u00e3o foi conclu\u00edda em 1897 sob a provedoria de Domingos Jos\u00e9 Dias Pereira, que apenas tr\u00eas anos depois continuava ligado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o como definidor. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a festa de 1900 n\u00e3o era promovida por uma irmandade decadente que sobrevivia apenas de lembran\u00e7as. Era organizada por uma corpora\u00e7\u00e3o que havia acabado de reconstruir seu templo depois de uma guerra civil, mobilizando patrim\u00f4nio pr\u00f3prio e sacrificando parte de suas reservas financeiras. \u00c0 frente da administra\u00e7\u00e3o daquele ano estava o comendador Ant\u00f4nio Manoel Fernandes da Silva, provedor, acompanhado por Eduardo Jos\u00e9 S. Pereira, vice-provedor; Jos\u00e9 M. Ferreira de Pinho, secret\u00e1rio; Luiz Francisco Moreira, tesoureiro; Arthur Leite Vasconcellos, procurador; e Jos\u00e9 Joaquim C. Guimar\u00e3es, diretor de novi\u00e7os. A Defini\u00e7\u00e3o reunia ainda diversos irm\u00e3os, entre eles o pr\u00f3prio Domingos Jos\u00e9 Dias Pereira e o Visconde de Castro Guimar\u00e3es. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da tarde, o tempo come\u00e7ou a melhorar, e as ruas voltaram a ganhar movimento. O momento de maior transforma\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ocorreu quando anoiteceu. Dentro da igreja, as velas refor\u00e7avam a ilumina\u00e7\u00e3o dos altares; do lado de fora, gambiarras de g\u00e1s acendiam-se sobre os logradouros decorados, espalhando uma luz dourada sobre bandeiras, folhagens, fachadas e coretos. Antes da eletrifica\u00e7\u00e3o generalizada do Centro, esse tipo de ilumina\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria era capaz de modificar completamente a apar\u00eancia das ruas, e a Lapa dos Mercadores parece ter explorado esse efeito em grande escala. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00fasica tamb\u00e9m se multiplicava pelo espa\u00e7o urbano. No grande coreto pr\u00f3ximo ao Mercado tocava a Banda dos Marinheiros Nacionais. Em outro, constru\u00eddo especialmente para a ocasi\u00e3o, revezavam-se a banda do Corpo de Infantaria de Marinha, a do 1\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria e a da Brigada Policial. Quatro corpora\u00e7\u00f5es musicais militares ou navais estavam, portanto, envolvidas nos festejos de uma igreja que ocupava apenas um pequeno trecho da Travessa do Com\u00e9rcio. A esse ambiente somavam-se foguetes e gir\u00e2ndolas, mencionados repetidamente pelo rep\u00f3rter como parte natural de uma festa em que as ruas, mais do que simples acessos ao templo, funcionavam como extens\u00e3o da pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s 19 horas teve in\u00edcio o Te Deum, novamente cercado de grande aparato musical. Antes do hino de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, a orquestra executou uma abertura de Daniel Auber; o serm\u00e3o coube ao Padre Agostinho Benassi; e a solenidade terminou com uma <em>Ave Maria<\/em> de Fl\u00e9gier, cantada por D. Elvira Pires Moreira. Entre os solistas daquele dia figuravam ainda o tenor Pedro Cunha e o baixo Rossi, al\u00e9m de outros artistas e amadores distinguidos pelo jornal. <em>O Paiz<\/em> foi categ\u00f3rico ao afirmar que dificilmente a parte religiosa poderia ter sido mais completa e que tudo aquilo fazia honra ao bom gosto da Irmandade. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o Te Deum encerrava a parte lit\u00fargica, a festa continuava nas ruas. Foi ent\u00e3o que a comiss\u00e3o da Rua Moreira C\u00e9sar soltou dois grandes bal\u00f5es, recebidos com aplausos por uma multid\u00e3o que o rep\u00f3rter descreveu com uma imagem que vale por qualquer fotografia: as pessoas \u201cformigavam nas ruas\u201d. Naquele momento, a pequena igreja iluminada permanecia no centro de uma paisagem composta pelo arco triunfal da Primeiro de Mar\u00e7o, pelas gambiarras de g\u00e1s, pelos coretos, pelas bandas, pelos foguetes, pelas fam\u00edlias, pelos comerciantes, pelos empregados, pelas senhoras que haviam enfrentado a amea\u00e7a da chuva e pelos irm\u00e3os que durante todo o dia se revezaram entre a igreja e as ruas. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/178691\/per178691_1900_05816.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Festa de Nossa Senhora da Lapa n\u00e3o come\u00e7ou em 1900 e tampouco terminou naquele ano. A Hemeroteca permite acompanh\u00e1-la por praticamente todo o s\u00e9culo XIX. Em 1824 j\u00e1 havia an\u00fancios do in\u00edcio das Novenas em 30 de agosto e da grande festa em 8 de setembro. Em outros per\u00edodos, a solenidade esteve associada \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de esmolas aos irm\u00e3os pobres, \u00e0 elei\u00e7\u00e3o e posse das Mesas e a devo\u00e7\u00f5es mantidas pela Irmandade, entre elas Sant\u2019Ana e S\u00e3o Joaquim, o Menino Deus e o Senhor Bom Jesus da Caridade. D\u00e9cadas depois de 1900, os jornais ainda descreviam a celebra\u00e7\u00e3o como uma das festas tradicionais do Rio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1919, <em>A Noite<\/em> observava que a Lapa dos Mercadores continuava mantendo parte de seu antigo brilho e lembrava que o pr\u00f3prio nome da igreja permanecia perfeitamente adequado, j\u00e1 que aquele entorno seguia fundamentalmente ocupado pelo com\u00e9rcio. Celebrar segundo as antigas praxes significava, para o jornal, recordar o \u201cRio antigo\u201d. Em 1933, outra retrospectiva ainda evocava as Novenas, a ilumina\u00e7\u00e3o exterior da igreja e a antiga fama dos festejos da Lapa. (<a href=\"https:\/\/hemeroteca-pdf.bn.gov.br\/348970\/per348970_1919_02780.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hemeroteca-pdf.bn.gov.br<\/a>)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se perdeu gradualmente n\u00e3o foi apenas uma festa religiosa, mas o tecido urbano que a tornava poss\u00edvel. Vieram a abertura da Avenida Central, as reformas de Pereira Passos, a verticaliza\u00e7\u00e3o, as mudan\u00e7as no perfil comercial do Centro, o desaparecimento de antigas firmas e, com o passar das d\u00e9cadas, o enfraquecimento daquele mundo no qual o comerciante da Rua do Ouvidor, o negociante da Rua do Mercado e o lojista da Travessa do Com\u00e9rcio reconheciam na pequena igreja uma institui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio meio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A festa de 1900 permite compreender com excepcional clareza o que significava, ent\u00e3o, a express\u00e3o <strong>Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores<\/strong>. Os mercadores governavam a corpora\u00e7\u00e3o, sustentavam a igreja, financiavam a m\u00fasica, ornamentavam as ruas, contratavam coretos, bandas e ilumina\u00e7\u00f5es e envolviam at\u00e9 os pr\u00f3prios empregados na organiza\u00e7\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o. Uma vez por ano, em 8 de setembro, o cora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico do Rio parecia assumir publicamente sua identidade religiosa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais de um s\u00e9culo depois, \u00e9 dif\u00edcil imaginar a cena para quem atravessa apressadamente a Pra\u00e7a XV: uma pequena igreja barroca conseguindo mobilizar todo o com\u00e9rcio do entorno, enquanto dentro de suas paredes coro e orquestra executavam Verdi e, do lado de fora, bandas militares tocavam em coretos, foguetes riscavam o c\u00e9u, gambiarras iluminavam as fachadas e grandes bal\u00f5es subiam diante de uma multid\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele dia, a Lapa n\u00e3o era apenas uma igreja dos Mercadores. <strong>Aquele peda\u00e7o inteiro do Rio era dos Mercadores, e os Mercadores eram de Nossa Senhora.<\/strong><\/p>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/Gf8Gpqw6IIV7NqiLOHpccY?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=4\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/quando-o-comercio-do-rio-inteiro-se-vestiu-para-nossa-senhora-a-festa-monumental-da-lapa-dos-mercadores-em-1900\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem noturna da Rua do Ouvidor vista da Prineiro de Mar\u00e7o, no dia 08 de Setembro de 1937 &#8211; ao fundo, iluminada, a Igrdja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores \/ Foto: Acervo Irmandade dos Mercadores Muito antes dos grandes eventos patrocinados, dos palcos montados em pra\u00e7a p\u00fablica e das festas capazes de interditar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":36528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-36527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/36527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=36527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/36527\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/36528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=36527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=36527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=36527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}