{"id":36570,"date":"2026-08-09T17:34:19","date_gmt":"2026-08-09T20:34:19","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=36570"},"modified":"2026-08-09T17:34:19","modified_gmt":"2026-08-09T20:34:19","slug":"o-maior-templo-do-comercio-do-rio-virou-cinzas-em-uma-noite-e-nunca-mais-abriu-as-portas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/?p=36570","title":{"rendered":"O maior templo do com\u00e9rcio do Rio virou cinzas em uma noite \u2014 e nunca mais abriu as portas"},"content":{"rendered":"<p><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodorio.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_2236.jpeg\" \/><\/p>\n<div>\n            <!-- image --><\/p>\n<div class=\"td-post-featured-image\">\n<figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">O majestoso pr\u00e9dio do Parc Royal, destru\u00eddo num inc\u00eandio em 1943 &#8211; o pr\u00e9dio era propriedade da Ordem Terceira de S\u00e3o Francisco de Paula, dona da igreja vizinha \/ Foto: Malta, reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>            <!-- content --><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante boa parte da primeira metade do s\u00e9culo XX, passar pelo Largo de S\u00e3o Francisco de Paula sem olhar para as vitrines do <strong>Parc Royal<\/strong> era quase desperdi\u00e7ar uma das grandes experi\u00eancias comerciais do Rio de Janeiro. A loja havia deixado de ser apenas um estabelecimento onde se compravam roupas, tecidos ou objetos dom\u00e9sticos para se transformar num verdadeiro palco da vida urbana, no qual as novidades que chegavam da Europa eram expostas diante de uma cidade que come\u00e7ava a aprender a consumir com os olhos antes mesmo de consumir com a carteira.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Parc Royal existia desde 1873, mas foi sob a administra\u00e7\u00e3o de <strong>Jos\u00e9 Vasco Ramalho Ortig\u00e3o<\/strong>, filho do escritor portugu\u00eas Ramalho Ortig\u00e3o, que alcan\u00e7ou sua fase mais exuberante. Em 1911, instalou-se numa monumental sede ao lado da Igreja de S\u00e3o Francisco de Paula, ocupando praticamente o quarteir\u00e3o da antiga Travessa de S\u00e3o Francisco, depois chamada Rua Ramalho Ortig\u00e3o, enquanto uma filial aberta anteriormente na Avenida Central ajudava a consolidar o nome da casa entre os grandes magazines do Rio. O neg\u00f3cio chegou a manter escrit\u00f3rio pr\u00f3prio em Paris, de onde compradores selecionavam mercadorias para serem remetidas ao Brasil.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A loja reunia dezenas de se\u00e7\u00f5es e oferecia praticamente tudo o que um carioca elegante poderia desejar. Senhoras encontravam vestidos de baile, roupas de banho, bolsas, luvas, sombrinhas, leques e artigos importados; homens procuravam ternos claros, gravatas de seda, roupas brancas, ceroulas francesas e at\u00e9 casacos pr\u00f3prios para autom\u00f3vel; crian\u00e7as tinham cada vez mais espa\u00e7o num universo comercial que come\u00e7ava a trat\u00e1-las como p\u00fablico consumidor. Havia ainda tecidos, cal\u00e7ados, pe\u00e7as para casa, alfaiataria e artigos sazonais que transformavam cada festa do calend\u00e1rio numa nova oportunidade de espet\u00e1culo comercial.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Carnaval, por exemplo, o Parc Royal anunciava pierr\u00f4s em cetim de seda pura, modelos franceses para homens e mulheres, fantasias infantis, quimonos japoneses de crepom, lan\u00e7a-perfumes e novidades rec\u00e9m-chegadas da Europa. Era o tipo de loja onde o carioca podia entrar sem precisar comprar imediatamente, simplesmente para ver aquilo que havia desembarcado no \u00faltimo navio, o c\u00e9lebre <strong>\u201cdernier bateau\u201d<\/strong>, express\u00e3o que se incorporou ao vocabul\u00e1rio de uma cidade fascinada pela moda e pela novidade.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Primeira loja a vender a pre\u00e7o fixo no Rio, o Parc Royal era um verdadeiro templo do Com\u00e9rcio, no Largo de S\u00e3o Francisco de Paula, com filial na Avenida Rio Branco \/ Reprodu\u00e7\u00e3o da Internet<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As vitrines ajudavam a construir esse desejo. Elaboradas com m\u00e1rmore, vidro, estuque e manequins cuidadosamente montados, transformavam o passeio pelo Largo de S\u00e3o Francisco numa esp\u00e9cie de desfile im\u00f3vel. Uma senhora poderia reduzir o passo diante de um vestido e imaginar aquele modelo num baile do Teatro Municipal; uma m\u00e3e podia olhar roupas infantis enquanto o filho se distra\u00eda com algum artigo exposto; um rapaz podia comparar ternos e gravatas antes de decidir se entraria. N\u00e3o se trata de imaginar personagens espec\u00edficos, mas de reconstruir uma experi\u00eancia de consumo amplamente documentada pelas fotografias e an\u00fancios da \u00e9poca.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Parc Royal tamb\u00e9m ajudou a popularizar uma inova\u00e7\u00e3o comercial que hoje parece banal: o <strong>pre\u00e7o fixo<\/strong>. Numa cidade em que muitos neg\u00f3cios ainda conviviam com barganha e pre\u00e7os vari\u00e1veis conforme circunst\u00e2ncias e fregueses, o magazine anunciava que a mercadoria custava aquilo que estava marcado. A casa explorava essa caracter\u00edstica na publicidade e chegou a usar a f\u00f3rmula \u201cpre\u00e7os fixos sem compet\u00eancia\u201d, transformando previsibilidade e confian\u00e7a em argumento de venda.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publicidade era parte essencial dessa estrat\u00e9gia. O magazine acompanhava o calend\u00e1rio da cidade, aproveitava acontecimentos p\u00fablicos, visitas ilustres e comemora\u00e7\u00f5es nacionais para lan\u00e7ar campanhas e mantinha uma presen\u00e7a intensa nos jornais. A visita do rei Alberto da B\u00e9lgica, em 1920, e as celebra\u00e7\u00f5es do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia, em 1922, foram incorporadas a esse universo comercial. O Parc Royal vendia mercadorias, mas tamb\u00e9m vendia a sensa\u00e7\u00e3o de que o Rio fazia parte de um mundo moderno, elegante e cosmopolita.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A import\u00e2ncia da loja ultrapassou o com\u00e9rcio. Seu nome entrou em cr\u00f4nicas, romances e mem\u00f3rias, aparecendo em autores como <strong>Lima Barreto<\/strong>, <strong>Carlos Drummond de Andrade<\/strong> e <strong>Rubem Fonseca<\/strong>, sinal de que o magazine j\u00e1 fazia parte do imagin\u00e1rio da cidade. <strong>Augusto Malta<\/strong> fotografou vitrines, interiores e clientes, deixando registros de uma \u00e9poca em que fazer compras no Centro era tamb\u00e9m participar da vida p\u00fablica carioca.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi por isso que a noite de <strong>9 de julho de 1943<\/strong> teve um impacto muito maior do que o desaparecimento de um simples estabelecimento comercial.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O inc\u00eandio come\u00e7ou por volta das 20h, segundo documentos policiais posteriores, embora algumas reportagens contempor\u00e2neas situem o in\u00edcio entre 20h30 e 21h. O Parc Royal ocupava uma constru\u00e7\u00e3o repleta de tecidos, madeira, pap\u00e9is, m\u00f3veis e mercadorias, combina\u00e7\u00e3o que permitiu que o fogo ganhasse rapidamente uma intensidade extraordin\u00e1ria. Em pouco tempo, as chamas j\u00e1 tomavam o edif\u00edcio e iluminavam o Largo de S\u00e3o Francisco de Paula.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fuma\u00e7a ocupou o espa\u00e7o entre o magazine e a Igreja de S\u00e3o Francisco de Paula, enquanto o calor aumentava de tal forma que vitrais oitocentistas do templo vizinho chegaram a se partir. A proximidade entre igreja e loja, t\u00e3o caracter\u00edstica da paisagem do Largo, transformou-se naquela noite num problema dram\u00e1tico, com os bombeiros tentando impedir que o inc\u00eandio avan\u00e7asse para outros edif\u00edcios do conjunto urbano.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m foram atingidas a <strong>Casa Cruz<\/strong>, a <strong>Casa Mattos<\/strong> e a <strong>Padaria e Confeitaria do Anjo<\/strong>, esta \u00faltima tragicamente incorporada \u00e0 hist\u00f3ria do inc\u00eandio. A destrui\u00e7\u00e3o deixou de estar confinada ao grande magazine e amea\u00e7ou, por algumas horas, um trecho inteiro do com\u00e9rcio tradicional do Centro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma grande multid\u00e3o tomou as imedia\u00e7\u00f5es. Policiais tentavam conter os curiosos, enquanto bombeiros entravam no pr\u00e9dio ou trabalhavam do lado de fora, sob calor intenso, fuma\u00e7a e risco permanente de desabamento. A import\u00e2ncia do Parc Royal fez com que o inc\u00eandio deixasse rapidamente de ser um fato local e passasse a ser acompanhado por toda a cidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O r\u00e1dio colocou ainda mais cariocas dentro daquela noite. <strong>Ari Barroso<\/strong>, j\u00e1 consagrado como compositor de <em>Aquarela do Brasil<\/em>, participou com <strong>Raul Brunini<\/strong> de uma transmiss\u00e3o direta dos acontecimentos pela R\u00e1dio Tupi. Enquanto milhares de pessoas se apertavam no Largo para ver as chamas, outras tantas acompanhavam de casa, ouvindo pelo r\u00e1dio a descri\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o de um dos endere\u00e7os comerciais mais conhecidos do Rio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os homens que enfrentavam o fogo estava o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel <strong>Aristarcho Pessoa<\/strong>. Anos depois, uma publica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria corpora\u00e7\u00e3o recordaria que ele acompanhou a trag\u00e9dia profundamente comovido e chegou a chorar diante da extens\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o. A emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o vinha apenas da perda do edif\u00edcio, mas tamb\u00e9m do risco a que seus homens estavam submetidos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O soldado n\u00ba 414, <strong>Celestino Zacarias da Silva<\/strong>, morreu combatendo o inc\u00eandio. Quando seu corpo foi retirado, um soldado da Pol\u00edcia Militar aproximou-se transtornado e revelou que o bombeiro morto era seu irm\u00e3o. Celestino foi posteriormente levado para a capela do Quartel Central do Corpo de Bombeiros, onde ficou em c\u00e2mara ardente e recebeu a visita de grande n\u00famero de populares antes do sepultamento no Cemit\u00e9rio de S\u00e3o Francisco Xavier.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros bombeiros ficaram feridos, entre eles o cabo <strong>Ant\u00f4nio Ferreira da Silva<\/strong>, os soldados <strong>Nilo Tambaiole<\/strong> e <strong>Felisberto Barcelos<\/strong>, al\u00e9m de outro cabo cujo nome n\u00e3o foi identificado pelos jornais no primeiro momento. O inc\u00eandio do Parc Royal, portanto, n\u00e3o entrou para a mem\u00f3ria carioca apenas pela destrui\u00e7\u00e3o material, mas tamb\u00e9m pelo custo humano imposto aos homens que tentaram salvar o edif\u00edcio e impedir que o fogo se espalhasse pelo Largo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na vizinha Confeitaria do Anjo, a trag\u00e9dia atingiu outra vida profundamente ligada \u00e0quele peda\u00e7o da cidade. <strong>Joaquim de Frias<\/strong>, mestre-padeiro portugu\u00eas de 65 anos, desapareceu sob os escombros depois que parte das estruturas atingidas desabou sobre o estabelecimento. Durante dias, sua fam\u00edlia aguardou informa\u00e7\u00f5es enquanto os jornais o listavam entre os desaparecidos e um rabec\u00e3o da Assist\u00eancia Policial permanecia de prontid\u00e3o nas imedia\u00e7\u00f5es \u00e0 espera da retirada de corpos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Joaquim foi encontrado, o <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em> revelou que trabalhava havia <strong>35 anos<\/strong> na Confeitaria do Anjo. Sua vi\u00fava, <strong>Adelina Pulqu\u00e9ria de Frias<\/strong>, contou ao jornal que havia sido justamente naquele estabelecimento que conhecera o marido. Joaquim morreu soterrado no lugar onde passara mais de tr\u00eas d\u00e9cadas trabalhando e onde come\u00e7ara sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria familiar, deixando a mulher e duas filhas, Am\u00e9lia e Aurora. Seu enterro, no Cemit\u00e9rio do Caju, foi pago pelo propriet\u00e1rio da confeitaria.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O combate ao inc\u00eandio prosseguiu por horas, mas a destrui\u00e7\u00e3o continuou nos dias seguintes. Focos de fuma\u00e7a ainda sa\u00edam do amontoado de madeira carbonizada, obrigando os bombeiros a manter trabalho de rescaldo. Na segunda-feira seguinte, oper\u00e1rios j\u00e1 demoliam as duas \u00fanicas alas que haviam permanecido de p\u00e9, enquanto grande parte do Largo de S\u00e3o Francisco, da Rua Ramalho Ortig\u00e3o e de trecho da Rua Sete de Setembro continuava interditada.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo depois do fogo, a multid\u00e3o n\u00e3o desapareceu. Os jornais registraram uma grande massa popular tentando aproximar-se do cord\u00e3o de isolamento para observar os escombros. O local que durante d\u00e9cadas atra\u00edra cariocas pela eleg\u00e2ncia das vitrines passou a atra\u00ed-los pela dimens\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o, agora marcado por paredes queimadas, vigas partidas, bombeiros, policiais, trabalhadores encarregados da demoli\u00e7\u00e3o e ve\u00edculos da assist\u00eancia esperando por novas descobertas entre as ru\u00ednas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trag\u00e9dia consumiu ainda um patrim\u00f4nio pouco conhecido de quem frequentava o magazine. No segundo andar funcionavam a <strong>Sociedade Nacional de Agricultura<\/strong> e a <strong>Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica<\/strong>, que perderam arquivos e bibliotecas. Entre os livros destru\u00eddos estava um exemplar de <em>Elementos de Qu\u00edmica<\/em>, de Jos\u00e9 Coelho Seabra da Silva Telles, publicado em 1788. O inc\u00eandio, portanto, queimou n\u00e3o apenas roupas, tecidos e artigos comerciais, mas tamb\u00e9m documenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e bibliogr\u00e1fica que nunca seria recuperada.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o rescaldo prosseguia, outra hist\u00f3ria come\u00e7ava a surgir entre os escombros. Desde a pr\u00f3pria noite do inc\u00eandio, circulavam rumores de que o fogo poderia n\u00e3o ter sido acidental. A suspeita aparecia entre populares, policiais e at\u00e9 bombeiros, e a investiga\u00e7\u00e3o logo alcan\u00e7ou os ent\u00e3o propriet\u00e1rios da casa, <strong>Jos\u00e9 Leite Cerqueira<\/strong> e <strong>Jos\u00e9 Ferreira Barcelos<\/strong>.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Barcelos chegou a ser autuado em flagrante sob suspeita de participa\u00e7\u00e3o na origem criminosa do inc\u00eandio. A discuss\u00e3o prolongou-se por anos e acabou produzindo depoimentos e laudos que mantiveram a hip\u00f3tese de inc\u00eandio proposital no centro do processo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um depoimento transcrito posteriormente nos autos tornou-se particularmente grave. A testemunha <strong>Frederico Mendes<\/strong> afirmou ter entrado no Parc Royal durante o inc\u00eandio e encontrado Jos\u00e9 Ferreira Barcelos Filho agachado diante de pap\u00e9is, aos quais estaria ateando fogo. Questionado, segundo a vers\u00e3o apresentada pela testemunha, teria explicado que queimava correspond\u00eancia particular. A acusa\u00e7\u00e3o integrou a investiga\u00e7\u00e3o e deve ser entendida como depoimento constante do processo, e n\u00e3o como prova definitiva de autoria.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A controv\u00e9rsia tamb\u00e9m envolveu o valor dos seguros. O Parc Royal possu\u00eda grande quantidade de mercadorias, mas os jornais registraram cobertura de aproximadamente <strong>2,5 milh\u00f5es de cruzeiros<\/strong>, distribu\u00edda entre diferentes seguradoras, levantando questionamentos sobre a rela\u00e7\u00e3o entre estoque e valores segurados. Cofres retirados do edif\u00edcio seriam encaminhados para abertura sob acompanhamento policial, \u00e0 medida que o inc\u00eandio deixava de ser apenas uma trag\u00e9dia urbana e passava tamb\u00e9m a ser tratado como caso criminal.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As investiga\u00e7\u00f5es continuaram produzindo repercuss\u00f5es em 1948 e 1949, com novas discuss\u00f5es sobre depoimentos, laudos e responsabilidades, mostrando que o desaparecimento do Parc Royal n\u00e3o terminou no momento em que o fogo foi apagado. O edif\u00edcio se fora em poucas horas, mas a tentativa de determinar quem ou o que havia iniciado as chamas atravessou anos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem conhecera o magazine em seus tempos de maior esplendor, por\u00e9m, a dimens\u00e3o mais vis\u00edvel da perda era muito mais simples. O Parc Royal n\u00e3o reabriu.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fotografias feitas poucos dias depois mostram a demoli\u00e7\u00e3o das partes sobreviventes do edif\u00edcio. A compara\u00e7\u00e3o com os registros de Augusto Malta dos tempos de vitrines cheias e fachadas elegantes \u00e9 brutal. Onde antes havia manequins, vestidos, ternos, brinquedos, fantasias e artigos rec\u00e9m-chegados de Paris, apareciam paredes abertas, madeira queimada e oper\u00e1rios removendo aquilo que restara.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terreno pertencia \u00e0 <strong>Ordem Terceira dos M\u00ednimos de S\u00e3o Francisco de Paula<\/strong> e, depois da cat\u00e1strofe, acabou sendo adquirido pela Prefeitura durante a administra\u00e7\u00e3o de Henrique Dodsworth, tornando-se parte do espa\u00e7o p\u00fablico reorganizado naquela regi\u00e3o. O lugar onde durante d\u00e9cadas funcionara um dos principais magazines do pa\u00eds passou a integrar a pr\u00f3pria circula\u00e7\u00e3o do Largo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 essa transforma\u00e7\u00e3o que permite compreender a perda sem precisar atribuir sentimentos espec\u00edficos a pessoas que os jornais n\u00e3o identificaram. Durante anos, uma senhora podia atravessar o Largo de S\u00e3o Francisco, encontrar na vitrine um vestido de baile que desejava, seguir adiante e saber que, mesmo que aquele modelo desaparecesse, outra novidade ocuparia seu lugar alguns dias depois. Uma crian\u00e7a podia esperar pelo brinquedo seguinte, um homem pelo novo terno, uma fam\u00edlia pelo cat\u00e1logo que anunciaria outra cole\u00e7\u00e3o e a cidade pelo pr\u00f3ximo <em>dernier bateau<\/em>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois do inc\u00eandio, o carioca que voltou ao Largo encontrou primeiro fuma\u00e7a, depois ru\u00ednas e, finalmente, a aus\u00eancia f\u00edsica do estabelecimento. N\u00e3o havia tapumes anunciando reformas nem promessa de reinaugura\u00e7\u00e3o que restitu\u00edsse ao lugar a fun\u00e7\u00e3o que desempenhara por d\u00e9cadas. A mesma Igreja de S\u00e3o Francisco de Paula continuava ali, testemunhando o espa\u00e7o onde o magazine estivera, enquanto o Parc Royal passava do cotidiano comercial para a mem\u00f3ria da cidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao desaparecer, a loja levou consigo mais do que um endere\u00e7o de compras. Sumiu uma parte da maneira como o Rio aprendera a olhar vitrines, acompanhar a moda, desejar mercadorias rec\u00e9m-chegadas da Europa e transformar o com\u00e9rcio em passeio. O inc\u00eandio de julho de 1943 destruiu o edif\u00edcio em poucas horas, mas a lembran\u00e7a do Parc Royal permaneceu precisamente porque, para gera\u00e7\u00f5es de cariocas, entrar naquela casa ou simplesmente diminuir o passo diante de suas vitrines havia sido uma forma de participar da pr\u00f3pria vida da cidade.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-di-rio-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-di-rio-do-rio-de-janeiro\"\/>\n<div data-ad-id=\"353515\" style=\"text-align:left; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-353515  \">\n<div class=\"grupowhats\" style=\"margin: 10px 0;\">Receba not\u00edcias no WhatsApp e e-mail<br \/>\n<br \/>\n<a href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/Gf8Gpqw6IIV7NqiLOHpccY?s=sw&amp;p=a&amp;ilr=4\" target=\"blank\" class=\"tdm-inline-image-wrap\" rel=\"noopener\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-ad-id=\"320841\" style=\"text-align:center; margin-top:px; margin-bottom:px; margin-left:px; margin-right:px;float:none;\" class=\"afw afw_custom  afw_ad afwadid-320841  \">\n<p>\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrejalapadosmercadores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodorio.com\/o-maior-templo-do-comercio-do-rio-virou-cinzas-em-uma-noite-e-nunca-mais-abriu-as-portas\/\">D\u00edario Regional RJ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O majestoso pr\u00e9dio do Parc Royal, destru\u00eddo num inc\u00eandio em 1943 &#8211; o pr\u00e9dio era propriedade da Ordem Terceira de S\u00e3o Francisco de Paula, dona da igreja vizinha \/ Foto: Malta, reprodu\u00e7\u00e3o Durante boa parte da primeira metade do s\u00e9culo XX, passar pelo Largo de S\u00e3o Francisco de Paula sem olhar para as vitrines do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":36571,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-36570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/36570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=36570"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/36570\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/36571"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=36570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=36570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionalrj.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=36570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}