
Vou me permitir escrever este texto em formato de crônica ou talvez alguma corrente jornalística na qual o repórter se envolve com a notícia, ignorando a impossível total imparcialidade. A luta da Vila Autódromo, em Jacarepaguá, é antiga e, de alguma forma, estive perto dela em alguns momentos da minha vida.
Quando criança, eu tinha amigos de futebol que moravam em umas das tantas casas que abrigavam as mais de 500 famílias antes das remoções realizadas no contexto das Olimpíadas de 2016.
Adolescente, aprendi a dirigir em frente ao Autódromo de Jacarepaguá, ao lado da comunidade. Era uma prática comum – embora ilegal – os pais ensinarem as primeiras aceleradas aos filhos por lá.
No começo da juventude, cheguei a ir em manifestações contra as remoções. Posteriormente, participei de torneios de futebol na Vila Autódromo e fiz algumas reportagens sobre as histórias desse lugar que se tornou símbolo de resistência, luta por permanência e sentimento de pertencimento.
Mas chega de falar de mim. Já dei o contexto que gostaria e nas próximas linhas vocês vão entender o motivo do introito. No final do mês de maio aconteceu um evento na Vila Autódromo para celebrar os 10 anos do Museu das Remoções (MdR).
Aos desavisados, o MdR foi fundado em 18 de maio de 2016, no período das remoções que ocorreram na Vila Autódromo, no contexto das Olimpíadas do Rio de Janeiro. A ideia foi de um dos apoiadores, o museólogo e ativista Thainã de Medeiros.
Em sua inauguração, houve a exposição de sete esculturas, que foram construídas a partir da coleta de materiais dos próprios escombros que restaram da comunidade quase que totalmente removida.
Sob a orientação da arquiteta e urbanista Diana Bogado, essas esculturas foram construídas e expostas por seus alunos(as), através do Projeto de Extensão da Universidade que ela lecionava na época.
“O Museu das Remoções é um museu de território, onde se compreende que tudo que resistiu e está no território faz parte do acervo“, explica Luiz Claudio da Silva, uma das lideranças da Vila Autódromo e co-fundador do MdR.
Em 2023, o Museu das Remoções foi reconhecido e certificado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) como Ponto de Memória.
No ano passado, os pontos de memória do percurso foram renovados. Novas sinalizações do MdR instaladas. Neste ano de 2026, placas nas ruas vizinhas passaram a indicar a localização da Vila Autódromo, simbolizando mais uma vitória para o não apagamento de um território que quase foi removido pelo Poder Público e interesses econômicos.
Neste maio de 2026, no evento de dez anos do Museu, tive uma impressão que ainda não havia tido na Vila Autódromo. Embora o clima sempre seja bom e leve no local, dessa vez, a sensação de suavidade e o clima de festa dominaram o ambiente.
Sempre receptivos e felizes, Dona Penha, Luiz, Nathalia Macena, Sandra Maria de Souza, além de demais moradores e convidados presentes viveram na justa paz e alegria a festa que teve atrações como show de rap, bloco de carnaval, oficinas e emocionantes homenagens.
Cheguei a comentar sobre esse clima com as pessoas presentes e todos concordaram. E que bom que foi assim.
Neste mesmo dia, o professor Mário Chagas, grande entusiasta da museologia popular, no encontro da Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro (REMUS), que foi realizado na Vila Autódromo, traçou um paralelo entre o Museu das Remoções e o Museu do Amanhã, que fica no Centro do Rio.
Mário lembrou que os dois museus fazem dez anos em 2026, mas só um representa o futuro: o Museu das Remoções, pois o sentido é permanecer deixando marcas históricas e não ser colocado em um lugar “da moda” do momento.
Os dez anos do Museu das Remoções permitiram, enfim, a serenidade que esse povo de luta merece.
Embora estar atento e forte é sempre preciso, batalhas também se ganham com danças em blocos de carnaval, letras de rap, performances artísticas e oficinas educativas.
Vida longa, paz, tranquilidade e muita festa para a Vila Autódromo e o Museu das Remoções. Mesmo contra tantas forças, eles ficaram e fincaram. Agora e amanhã é celebrar.


















































