Fim da escala 6×1: hotel na Barra da Tijuca aposta em saúde mental e muda rotina de funcionários


Recepção Ribalta Hotel (Foto: Divulgação)

Em meio às discussões pelo fim da escala 6×1 em todo Brasil, alguns empresários estão se antecipando e adotando o regime que permita aos trabalhadores terem mais tempo de descanso e lazer. No Rio de Janeiro, alguns exemplos já começaram a ser obaservados. Um deles é um hotel na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste da cidade, que aderiu a escala de trabalho 5×2 para a maior parte de seus funcionários.

Segundo a administração do Ribalta Hotel, localizado na Avenida das Américas, cerca de 70% dos 97 funcionários atualmente atuam sob o novo horário, que passou a abranger integralmente as áreas de Governança, Atendimento e Alimentos e Bebidas (A&B), além de parte da equipe de Cozinha e dos setores administrativo e de marketing.

A mudança ocorre pouco mais de um ano após o hotel substituir a tradicional escala 6×1 pelo modelo 12×36 em parte das operações. A iniciativa acompanha o debate sobre a redução das jornadas de trabalho no país e os desafios de adaptação enfrentados por segmentos que demandam funcionamento contínuo, como a hotelaria.

De acordo com a direção da empresa, a adoção da escala 5×2 busca proporcionar maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal dos trabalhadores. A expectativa é que a medida contribua para a retenção de profissionais e para a manutenção da qualidade dos serviços prestados.

Em entrevista, o CEO do hotel, Giovanna Mauro, afirmou que a decisão está alinhada à estratégia de valorização dos colaboradores e ao esforço de criar um ambiente de trabalho considerado mais sustentável para a equipe.

Na hospitalidade, cuidar das pessoas é o centro do negócio, e isso começa dentro de casa. Acreditamos que um time mais descansado, equilibrado e valorizado consegue oferecer experiências melhores para hóspedes, clientes e parceiros. A implementação da escala 5×2 nasce dessa visão: construir um ambiente de trabalho mais sustentável, que fortaleça o bem-estar, o engajamento e a retenção de talentos, refletindo diretamente na qualidade do serviço que entregamos. Sabemos que mudanças como essa exigem revisão de processos e investimentos, mas enxergamos essa decisão como parte da construção de uma hotelaria mais humana, contemporânea e preparada para o
futuro”
, diz Giovanna.

Atualmente, apenas os setores de Manutenção e parte da equipe de Cozinha permanecem operando no sistema 12×36. Segundo a gestão, áreas como Governança, Atendimento e A&B apresentam características operacionais que facilitaram a transição para a nova jornada.

A superintendente de operações da empresa, Neyre Freixo, avalia que um dos principais efeitos observados até o momento é a redução da rotatividade de funcionários. Ela cita como exemplo o trabalho das camareiras, para quem jornadas de 12 horas consecutivas eram consideradas desgastantes.

“Para um serviço de camareira, por exemplo, 12 horas seguidas de trabalho era muito pesado, e a escala 5×2 tem sido um sucesso. Na Governança, não tivemos que fazer nenhuma readequação no nosso quadro, ninguém quis sair e todas viram muito valor na mudança. Ao diminuir o turnover, nós reduzimos custos, aumentamos a possibilidade de investir diretamente na carreira do nosso pessoal e melhoramos as entregas para os hóspedes. Isso só é possível quando mantemos um mesmo time”.

Além dos possíveis benefícios para os trabalhadores, a mudança também impõe desafios financeiros e operacionais. A própria administração reconhece que a adoção da escala 5×2 exige revisão de processos internos, reorganização de equipes e reavaliação de custos.

Para Freixo, a discussão sobre novos modelos de jornada tende a ganhar espaço no setor hoteleiro nos próximos anos, especialmente diante das dificuldades de contratação e retenção de mão de obra. Segundo ela, uma eventual migração para escalas mais reduzidas demanda planejamento gradual e adaptação à realidade de cada empreendimento.

Não é um formato que já vem pronto. Passar os colaboradores para a escala 5×2 é algo que provoca uma nova conta, muito mais complexa e sem respostas pré-definidas. Vivemos ainda um desafio setorial de contratação e retenção de mão-de-obra, mas
precisamos olhar para o futuro, testar, ver o que dá certo ou não. É essencial entender que, lá na frente, teremos economias relacionadas à menor rotatividade e ao aumento de produtividade, com colaboradores mais engajados e satisfeitos. Promover ambientes de trabalho mais saudáveis é uma decisão estratégica”.

A camareira do hotel, Cintia de Andrade, contou como sua rotina mudou a partir da mudança na escala. Ele revela que passou a fazer planos e por em prática antigos sonhos que tinham ficados engavetados em função da árdua jornada de trabalho.

Com essa mudança de escala, além de estar descansando melhor, eu estou tendo mais tempo para ficar com a minha família e para fazer planos pessoais, como organizar algumas viagens com o meu marido, o que está sendo ótimo para mim. Eu também acabei de fazer a minha matrícula na autoescola, vou começar as aulas para aprender a dirigir, o que só foi possível por ter esse tempo a mais no dia-a-dia. Ainda tenho o sonho de cursar enfermagem e estou vendo como conciliar isso na rotina”, Cintia de Andrade, camareira do Ribalta Hotel que atua na escala 5×2.

Debate sobre a escala 6×1

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que busca extinguir a escala 6×1 foi aprovada pela Câmara dos Deputados em dois turnos e agora tramita no Senado Federal. O texto propõe a redução gradual da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de descanso.

A PEC foi aprovada na Câmara com ampla maioria e seguiu para o Senado, onde iniciará os debates na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Para que as empresas se adaptem, a mudança não é imediata.

O texto aprovado pelos deputados prevê a redução da jornada para 42 horas semanais logo nos primeiros meses após a promulgação, chegando ao limite definitivo de 40 horas semanais cerca de um ano depois.

A transição visa consolidar a escala 5×2 (cinco dias trabalhados e dois de folga), garantindo o descanso ampliado sem redução no salário do trabalhador.

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Díario Regional RJ

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