
Com o rápido avanço das ferramentas de Inteligência Artificial Generativa, uma nova fobia cresce no mercado corporativo: o nome é FOBO (Fear Of Becoming Obsolete), o que significa medo de se tornar obsoleto. Impulsionado por um cenário de transformações aceleradas, o temor de perder a relevância profissional tem gerado altos níveis de ansiedade. Um levantamento de novembro de 2025 da rede norte-americana CNBC apontou que 89% dos líderes de Recursos Humanos acreditam que a IA impactará a rotina de trabalho em 2026. No Brasil, dados da consultoria PwC mostram que quase metade dos trabalhadores (48%) acredita que sua profissão mudará drasticamente nos próximos cinco anos.
Para Luiz Eduardo Santos Nunes, coordenador do curso de Gestão de Recursos Humanos na Unig, esse temor não é infundado, mas a forma como os profissionais estão lidando com ele pode ser o verdadeiro risco para suas carreiras. Segundo ele, o FOBO já é um sintoma claro nas mesas de recrutamento.
“Nos processos seletivos, essa insegurança é percebida de forma bastante clara. Muitos candidatos demonstram ansiedade em relação à própria relevância profissional, especialmente aqueles que estão há anos na mesma função”, relata o especialista. “Muitos profissionais apresentam foco excessivo em ferramentas técnicas e pouca atenção às competências comportamentais. Também se percebe certa rigidez cognitiva em alguns candidatos, que demonstram dificuldade em enxergar a tecnologia como aliada.”
O que a IA não faz
A grande armadilha do FOBO é fazer com que o trabalhador tente competir em velocidade e processamento de dados com a máquina, uma batalha perdida. O professor da Unig explica que o segredo da empregabilidade em 2026 reside justamente no oposto: focar naquilo que é inerentemente humano.
“Com a IA assumindo parte das atividades técnicas e operacionais, as empresas passaram a valorizar ainda mais as competências essencialmente humanas”, destaca Nunes. “A tecnologia consegue processar informações, mas ainda depende da interpretação humana para a tomada de decisões estratégicas, gestão de pessoas e construção de relacionamentos.”
Entre as soft skills (habilidades comportamentais) que se tornaram o alvo prioritário dos recrutadores para blindar equipes contra a obsolescência, Nunes lista:
? Pensamento crítico e resolução de problemas complexos;
? Inteligência emocional e empatia;
? Liderança humanizada (baseada em escuta ativa e mediação de conflitos);
? Comunicação eficaz;
? Capacidade de unir repertório técnico com visão estratégica.
“A IA pode gerar dados e informações, mas o julgamento humano, a sensibilidade para compreender contextos e a habilidade de criar conexões genuínas continuam sendo diferenciais impossíveis de serem totalmente replicados por máquinas”, analisa.
Contudo, o mercado esbarra em um paradoxo comportamental. Ludmilla Furtado, coordenadora do curso de Psicologia da Uniabeu, alerta que a ansiedade constante de se sentir ultrapassado bloqueia justamente essas competências exigidas pelo RH.
“Ninguém consegue ser criativo ou empático vivendo sob ameaça o tempo todo. Uma pessoa em estado de medo constante entra em modo de sobrevivência e não em modo de criação”, aponta. Segundo a psicóloga, essa sensação de insuficiência gerada pelo FOBO pode favorecer quadros de esgotamento mental e até desencadear sintomas semelhantes aos da síndrome do impostor.
A vacina contra a obsolescência: Learning Agility
Para atenuar os efeitos do FOBO, tanto o profissional sênior quanto o jovem que ingressa agora no mercado precisam adotar o conceito de Lifelong Learning (aprendizado contínuo). Luiz Eduardo Nunes alerta que a mentalidade deve mudar da competição para a colaboração com as novas ferramentas.
“O profissional do futuro não será aquele que compete com a Inteligência Artificial, mas aquele que aprende a trabalhar junto com ela de maneira estratégica”, aconselha o professor.
A imersão contínua no ambiente acadêmico, através de especializações e atualizações, funciona não apenas como um fortalecedor de currículo, mas como um escudo psicológico. “O aprendizado contínuo estimula a chamada learning agility (agilidade de aprendizagem), considerada hoje uma das competências mais valorizadas pelas empresas. Mais do que acumular certificados, a requalificação constante permite que o profissional mantenha sua relevância, competitividade e segurança em um mercado cada vez mais dinâmico”, complementa.
Para que essa busca por qualificação não se torne mais um gatilho de estresse, a psicóloga da Uniabeu faz uma ressalva sobre os limites da produtividade. “Não adianta estar no seu tempo de descanso tentando se aperfeiçoar para competir com a IA. Isso não vai acontecer e só vai gerar mais sofrimento”, orienta Ludmilla Furtado. O segredo para quebrar esse ciclo de estresse, segundo ela, é regular o estado emocional, diminuir a autocobrança e não construir a própria identidade apenas em torno do trabalho.



















































