Viva Santo Antônio! – Diário do Rio de Janeiro


Santo Antônio desaparecido da Irmandade da Lapa dos Mercadores (Imagem extraída do Diário do Rio)

Poucos santos atravessaram com tanta força o imaginário luso-brasileiro quanto Santo Antônio. Associado a Lisboa por ter nascido na capital portuguesa e a Pádua por ter morrido nas vizinhanças da cidade italiana, ele pertence àquela categoria raríssima de personagens religiosos que ultrapassam a liturgia, atravessam a arte, invadem o cotidiano e passam a viver no vocabulário afetivo das cidades. No Brasil, tornou-se santo das causas urgentes, dos objetos perdidos, dos casamentos desejados, dos pedidos domésticos e das promessas populares. No Rio de Janeiro, porém, sua história ganhou uma dimensão ainda mais singular: Santo Antônio foi também protetor militar da cidade, incorporado simbolicamente às forças defensivas e remunerado, por séculos, com soldo.

Antes de chegar ao Rio como sentinela espiritual, Antônio foi Fernando. Filho de família ilustre, nasceu em Lisboa no fim do século XII e ainda jovem ingressou na vida religiosa, primeiro entre os cônegos regrantes de Santo Agostinho e depois na Ordem dos Frades Menores, quando adotou o nome de Antônio. A mudança não foi apenas nominal. Representou uma inflexão decisiva em sua trajetória espiritual, marcada pelo desejo missionário, pelo fascínio com o martírio dos franciscanos no Marrocos e pela adesão ao ideal evangélico de pobreza, pregação e itinerância que caracterizou os primeiros tempos franciscanos.

A vida de Antônio, como tantas vidas medievais transformadas em modelo de santidade, logo adquiriu contornos exemplares. Impedido pela enfermidade de permanecer no Marrocos, acabou levado pelos ventos para a Itália, onde se aproximou da comunidade franciscana e encontrou São Francisco de Assis. Não demorou a revelar-se extraordinário pregador, capaz de mobilizar multidões e enfrentar heresias com uma eloquência que se tornaria célebre. A tradição lhe atribui milagres, sermões memoráveis e episódios de enorme força simbólica, como aquele em que teria pregado aos peixes, diante da recusa dos homens em ouvi-lo.

Sua morte, em 13 de junho de 1231, foi seguida por uma difusão impressionante de sua devoção. Canonizado em tempo excepcionalmente curto, Santo Antônio tornou-se um dos santos mais populares do catolicismo. Mais tarde, seria proclamado Doutor da Igreja, com o título de Doutor Evangélico, justamente pela densidade de seus escritos, pela força doutrinária de seus sermões e pela capacidade de traduzir a palavra sagrada em linguagem acessível ao povo.

Na iconografia, Santo Antônio é geralmente representado jovem, imberbe, com hábito franciscano, tonsura, semblante piedoso e acolhedor. Seus atributos mais frequentes são o livro, a cruz, o lírio e o Menino Jesus, geralmente apoiado sobre o livro ou em seus braços. Não por acaso, essa imagem atravessou igrejas, conventos, oratórios domésticos e pequenos altares populares, tornando-se uma das representações mais disseminadas da arte sacra no Brasil.

No Rio de Janeiro, a devoção encontrou um de seus pontos mais fortes no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, cuja presença marcou profundamente a paisagem espiritual, urbana e artística da cidade. Entre as muitas histórias preservadas pela tradição franciscana, uma das mais fascinantes é a de Santo Antônio do Relento, assim chamado por ter permanecido em oratório externo na fachada da portaria do convento, exposto ao tempo e à devoção dos passantes.

Dom Clemente Maria da Silva-Nigra, monge beneditino e pesquisador fundamental para os estudos da arte colonial brasileira, destacou os trabalhos escultóricos em barro de Frei Francisco dos Santos, no início do século XVII, incluindo a celebrada imagem de Santo Antônio do Relento. A tradição conta que a escultura teria sido modelada em barro, mas os frades não se agradavam de nenhuma das cabeças produzidas para completar a peça. Até que, numa noite, após ouvirem um forte estalo vindo da parte baixa do convento, desceram para averiguar e encontraram uma cabeça que se encaixava perfeitamente no corpo da imagem. O episódio, entre o milagre, a lenda e a memória conventual, traduz precisamente o tipo de história que o patrimônio carioca precisa reaprender a contar.

Mas a relação de Santo Antônio com o Rio foi ainda mais longe. Durante as ameaças francesas, no início do século XVIII, a cidade viveu momentos de enorme tensão. Em 1710, Jean-François Duclerc tentou ocupar a parte murada; no ano seguinte, em 1711, René Duguay-Trouin atravessou a Baía de Guanabara e protagonizou uma das páginas mais dramáticas da história colonial carioca. Nesse ambiente de medo, instabilidade e defesa territorial, a devoção a Santo Antônio foi mobilizada como força simbólica de proteção.

Segundo a tradição histórica, na véspera do confronto contra os franceses, a imagem venerada no convento foi solenemente “sentada praça”, isto é, incorporada às forças defensivas da cidade com o posto de Capitão de Infantaria. A partir de 1711, com reconhecimento régio, Santo Antônio passou a figurar oficialmente nas patentes militares e na folha de pagamento da capitania. O soldo destinado ao santo ajudava, na prática, a manter o culto, a igreja, a imagem, a capela e a vida conventual ligada à sua devoção.

O episódio é tão extraordinário quanto revelador. O Rio, cidade construída entre morros, mar, fortalezas, procissões, conventos e conflitos, confiava sua defesa não apenas à artilharia e às muralhas, mas também à intercessão de seus santos. Mais tarde, em 1810, D. João VI elevaria Santo Antônio ao posto de sargento-mor de infantaria da capitania, determinando que lhe fosse pago o soldo correspondente. Com o tempo, a tradição consolidou a memória de Santo Antônio como tenente-coronel, um santo-oficial que protegia a cidade e recebia por isso.

O soldo teria sido pago até 1911, quando essa curiosa relação institucional entre Estado, devoção e patrimônio chegou ao fim. Mas o que permaneceu é ainda mais importante: a memória de uma cidade que transformava seus símbolos religiosos em agentes de proteção pública, fundindo fé, defesa, política, administração e imaginação popular. É fácil ironizar anacronicamente a história de um santo militarizado. Mais difícil — e mais interessante — é compreendê-la como chave de leitura para a mentalidade de um Rio colonial, imperial e republicano, profundamente marcado pela convivência entre o material e o espiritual, entre a burocracia e o sagrado, entre a guerra e a devoção.

É justamente aí que o patrimônio carioca encontra uma de suas maiores tarefas contemporâneas. Não basta preservar igrejas, imagens, altares, conventos e documentos como peças isoladas, descoladas das histórias que lhes deram sentido. É preciso resgatar as imaterialidades que habitam essas materialidades. Uma imagem de Santo Antônio não é apenas uma escultura em madeira, barro ou gesso; ela é também promessa, procissão, milagre, lenda conventual, defesa da cidade, soldo militar, memória urbana e devoção popular.

Quando esses vínculos são esquecidos, o patrimônio empobrece. O objeto permanece, mas perde densidade. A igreja continua de pé, mas deixa de narrar a cidade. A imagem é restaurada, mas já não comunica o universo simbólico que a produziu e a manteve viva. Por isso, conhecer histórias como a de Santo Antônio do Relento ou a do soldo militar pago ao santo não é mera curiosidade pitoresca. É uma forma de devolver profundidade histórica aos monumentos e acervos que ainda hoje estruturam a memória do Rio de Janeiro.

Num tempo em que tantas tradições populares parecem constrangidas a pedir licença para existir, Santo Antônio nos lembra que a cidade se formou justamente nessa sobreposição de fé, arte, festa, defesa e política. Sua presença no Rio revela que o patrimônio não se limita à pedra, à talha ou à escultura. Ele vive também nas narrativas, nos afetos, nas crenças e nos episódios aparentemente improváveis que fazem uma comunidade reconhecer-se no tempo.

Viva Santo Antônio, portanto. Não apenas o santo casamenteiro, o santo dos objetos perdidos ou o pregador dos peixes, mas também o Santo Antônio carioca: aquele que desceu dos altares para proteger a cidade, recebeu patente militar, entrou na folha de pagamento e permaneceu, até hoje, como uma das figuras mais fascinantes da nossa história religiosa, artística e urbana.

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