São João e Corpus Christi não precisam pedir licença para existir


Poucos países do mundo construíram sua identidade cultural a partir de um calendário festivo tão rico quanto o Brasil. Durante séculos, as festas de São João, Santo Antônio, São Pedro, Corpus Christi, Folia de Reis, Divino Espírito Santo e tantas outras funcionaram como espaços de encontro entre comunidades, famílias e territórios. Eram celebrações religiosas, sem dúvida, mas também manifestações culturais, artísticas, gastronômicas e sociais que ajudavam a dar sentido à vida coletiva.

Nos últimos anos, entretanto, algo curioso começou a acontecer. Em nome de uma suposta neutralidade ou de uma equivocada compreensão da diversidade religiosa, muitas dessas manifestações passaram a ser progressivamente descaracterizadas. Festas juninas tornaram-se genericamente “arraiás”. Referências a santos foram sendo omitidas. Elementos tradicionais passaram a ser vistos com constrangimento. Como se reconhecer a origem histórica dessas celebrações significasse automaticamente privilegiar uma crença específica.

O resultado é paradoxal. Ao mesmo tempo em que certas referências culturais brasileiras são suavizadas ou escondidas, cresce o consumo de festas e símbolos importados que possuem origem religiosa igualmente explícita. O Halloween, associado ao calendário cristão ocidental; o Saint Patrick’s Day, vinculado à tradição católica irlandesa; e diversas outras celebrações estrangeiras são absorvidos sem maiores questionamentos por parcelas da sociedade e do mercado.

A questão não é condenar essas influências. Culturas sempre dialogaram entre si. O problema surge quando um país perde a capacidade de reconhecer valor nas próprias tradições enquanto celebra, com entusiasmo, manifestações importadas. O resultado é um curioso processo de colonização cultural voluntária, no qual abrimos mão daquilo que nos singulariza sem que nada equivalente seja construído em seu lugar.

Essa reflexão torna-se ainda mais importante quando observamos o patrimônio material brasileiro. Grande parte dos monumentos históricos do país nasceu justamente das tradições que hoje parecem constranger determinados setores da sociedade. Igrejas, capelas, procissões, irmandades, festas religiosas e celebrações comunitárias constituem parte inseparável da formação histórica brasileira.

O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Da Baixada Fluminense ao Centro Histórico, passando pelo interior do estado, existem centenas de monumentos cuja preservação depende não apenas de recursos financeiros ou de tombamentos legais, mas também da existência de comunidades que reconheçam valor na sua permanência. Quando desaparece o vínculo afetivo e cultural com essas tradições, enfraquece-se também a própria justificativa social para a preservação.

Isso não significa transformar patrimônio em instrumento de catequese. Significa compreender que preservar uma procissão de Corpus Christi ou uma festa de São João não é o mesmo que impor uma religião. Da mesma forma que preservar um terreiro de matriz africana não significa converter ninguém às suas práticas religiosas, preservar uma igreja colonial ou uma celebração tradicional não implica qualquer privilégio institucional a determinada fé.

Também convém desfazer um equívoco recorrente que costuma emergir sempre que se debate a preservação das festas populares brasileiras. Antes que algum leitor mais apressado conclua que a defesa dessas manifestações representa uma ameaça ao trabalho ou à atividade econômica, convém recordar que as grandes economias do mundo não abandonaram suas tradições para enriquecer. Muito pelo contrário. Italianos, espanhóis, alemães, franceses e portugueses continuam celebrando festas seculares, procissões, romarias, mercados tradicionais e datas comunitárias sem que isso comprometa a produtividade de seus países. O Brasil tampouco sofre de excesso de memória ou de excesso de feriados (estamos abaixo da média mundial). Sofre, isso sim, de um progressivo empobrecimento simbólico que, em muitos casos, faz com que abandonemos nossas próprias tradições enquanto consumimos, sem qualquer resistência, referências culturais produzidas em outros lugares.

O patrimônio cultural existe justamente porque determinadas experiências históricas produziram marcas duradouras na formação de uma sociedade. E poucas experiências foram tão determinantes para a construção da cultura brasileira quanto as festas populares.

Talvez por isso os editais e políticas culturais precisem voltar a olhar com mais atenção para essas manifestações. Nos últimos anos, parte significativa dos investimentos concentrou-se em agendas identitárias e bandeirasespecíficas — muitas delas legítimas e necessárias. Mas talvez seja hora de reconhecer que as festas populares brasileiras constituem um dos mais poderosos instrumentos de afirmação identitária já produzidos pelo país.

São João, Folia de Reis, Divino, Congadas, Cavalhadas, Procissões, Círios e tantas outras manifestações não são apenas heranças portuguesas. São expressões profundamente brasileiras, transformadas ao longo dos séculos pela contribuição indígena, africana, europeia e popular. Poucos fenômenos culturais sintetizam de forma tão clara a complexidade da nossa formação histórica.

Paradoxalmente, algumas das correntes que mais se apresentam como decoloniais acabam ignorando justamente essas manifestações. E o fazem sem perceber que talvez estejam diante de algumas das expressões culturais mais bem acabadas da experiência histórica brasileira. Ao julgá-las a partir de categorias teóricas importadas, terminam por reproduzir uma forma curiosa de neocolonialismo intelectual: desconfiam daquilo que o Brasil produziu de mais próprio para validar lentes interpretativas concebidas em outros contextos e para outras realidades.

Num país que tanto discute identidade, diversidade e pertencimento, seria um erro deixar que suas festas tradicionais desaparecessem por constrangimento, desconhecimento ou abandono. Porque quando uma sociedade perde seus próprios referenciais simbólicos, o espaço vazio raramente permanece vazio por muito tempo. Alguém sempre estará disposto a ocupá-lo. E, quase sempre, com referências produzidas em outro lugar.

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Díario Regional RJ

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