O Rio das irmandades: um mundo de procissões, patrimônio e poder


Procissão no Centro do Rio de Janeiro, 2025 / Foto: Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores

Antes dos automóveis, dos arranha-céus, dos bondes elétricos e até mesmo da Avenida Central, existiu um Rio de Janeiro em que a religião ocupava as ruas com uma intensidade difícil de imaginar nos dias atuais.

Ao amanhecer de determinados dias festivos, sinos começavam a tocar por toda a cidade. Das igrejas saíam imagens centenárias, estandartes bordados em ouro, cruzes processionais, lanternas e tochas. Comerciantes fechavam temporariamente suas portas. Artesãos abandonavam suas oficinas. Funcionários públicos, militares, homens livres, escravizados, libertos, ricos e pobres misturavam-se em procissões que percorriam o coração da cidade.

Era um Rio profundamente católico, mas também profundamente comunitário.

Naquele mundo, as irmandades religiosas estavam por toda parte.

Muito além da dimensão espiritual, elas funcionavam como algumas das instituições mais influentes da cidade. Construíam igrejas, administravam patrimônios, financiavam obras, organizavam festas, cuidavam de seus membros e mantinham uma complexa rede de solidariedade que ajudava a sustentar a vida urbana do Rio de Janeiro.

Hoje, quando alguém entra na Igreja da Candelária, visita a Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, passa diante da Igreja da Lapa dos Mercadores ou contempla tantos outros templos históricos espalhados pelo Centro, dificilmente imagina a impressionante força que essas associações donas destes templos possuíam.

As irmandades estavam entre os grandes motores da vida carioca.

O historiador Anderson José Machado de Oliveira lembra que elas desempenhavam funções religiosas, assistenciais e até administrativas que muitas vezes supriam ausências do próprio Estado. Em uma época sem previdência social, sem sistema público de saúde e sem a estrutura assistencial moderna, essas confrarias amparavam irmãos enfermos, ajudavam viúvas, financiavam funerais e prestavam auxílio a quem enfrentava dificuldades.

Mas seu papel não terminava aí.

Muitas possuíam patrimônio considerável: eram dezenas de milhares de imóveis. Compravam, vendiam, alugavam e administravam imóveis. Mantinham igrejas próprias. Cuidavam de terrenos, casas e rendas. Algumas movimentavam recursos expressivos para os padrões da época que se comparavam as maiores empresas e barões do país e exerciam influência que ultrapassava em muito os limites do culto religioso.

Era um Rio onde a fé ajudava a organizar a própria cidade.

As procissões talvez fossem a expressão mais visível desse universo. Para os cariocas do século XIX, elas não eram apenas cerimônias religiosas. Eram acontecimentos urbanos.

As ruas enchiam-se de espectadores. Janelas e sacadas eram decoradas. Famílias inteiras acompanhavam a passagem dos cortejos. As imagens dos santos percorriam caminhos conhecidos por gerações sucessivas de moradores.

Ao contrário da visão moderna que separa rigorosamente o religioso do social, os cariocas daquela época viam as duas dimensões caminharem juntas.

As festas das irmandades eram igualmente aguardadas. Não se tratava apenas de missas solenes. Havia música, confraternização, encontros e refeições coletivas. Herdados de antigas tradições portuguesas e medievais, os chamados banquetes confraternais reuniam os irmãos em torno da mesa após determinadas celebrações religiosas. Comer juntos era parte da vida da confraria, um gesto de união tão importante quanto muitas das cerimônias realizadas dentro da igreja.

Esse mundo, porém, começaria a mudar na segunda metade do século XIX.

Enquanto o Rio crescia e se transformava, a própria Igreja Católica passava por um amplo processo de renovação. Os bispos brasileiros aproximavam-se cada vez mais de Roma e procuravam fortalecer a disciplina e a unidade da instituição. Era o período que os historiadores costumam chamar de Reforma Católica ou Romanização.

Nesse contexto, as antigas irmandades passaram a despertar atenção crescente da hierarquia eclesiástica.

Não porque fossem consideradas inimigas da Igreja. Pelo contrário. Eram instituições profundamente católicas e fundamentais para a vida religiosa da cidade. Mas haviam se desenvolvido ao longo de séculos com uma autonomia que surpreendia muitos dos novos bispos reformadores.

Os próprios capelães frequentemente possuíam poderes limitados pelas mesas administrativas compostas pelos irmãos leigos. As confrarias tomavam decisões, administravam patrimônios e organizavam suas atividades segundo costumes consolidados havia gerações.

Foi nesse cenário que surgiram algumas tensões.

Nomeado bispo do Rio em 1868, Dom Pedro Maria de Lacerda tornou-se uma das figuras centrais desse processo. Em correspondência da época, demonstrou preocupação com a ampla autonomia das irmandades cariocas, chegando a descrevê-las como verdadeiros “Estados dentro do Estado”. Para ele, era necessário aproximá-las mais diretamente da autoridade eclesiástica.

A questão era delicada.

Do ponto de vista dos bispos reformadores, tratava-se de fortalecer a unidade da Igreja. Do ponto de vista das irmandades, tratava-se de preservar tradições, privilégios e formas de organização que remontavam aos tempos coloniais.

Como observa Anderson Oliveira, não se tratava necessariamente de um embate entre fé e rebeldia, nem de uma oposição à Igreja. Na maioria dos casos, as confrarias buscavam preservar espaços de autonomia construídos ao longo de séculos.

No fim das contas, a própria realidade carioca impôs limites a qualquer tentativa de transformação radical.

As irmandades continuavam essenciais. Mantinham igrejas, organizavam o culto, preservavam tradições e exerciam papel importante junto à população. Aos poucos, o discurso mais duro foi cedendo lugar a uma convivência mais pragmática. A reforma avançou, mas as confrarias também sobreviveram.

Talvez por isso ainda seja possível encontrar sua presença no Rio contemporâneo.

Ela está nos altares preservados, nos livros de atas cuidadosamente guardados, nas imagens seculares que continuam sendo veneradas, nas procissões que ainda percorrem ruas históricas e nas instituições que atravessaram impérios, repúblicas, reformas urbanas e mudanças de costumes.

Ao caminhar hoje pelo Centro Histórico, entre igrejas coloniais, sobrados antigos e ruas abertas há séculos, o carioca continua cercado por vestígios desse universo.

Um mundo em que a fé saía às ruas, as confrarias ajudavam a construir a cidade e as irmandades figuravam entre as instituições mais importantes do Rio de Janeiro.

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