
A capivara virou uma espécie de celebridade da Lagoa Rodrigo de Freitas, uma atração para quem passa por ali a pé ou de bicicleta. Mas o protagonismo é dividido: aves colhereiros, garças, biguás e caranguejos de diferentes espécies também voltaram a frequentar e prosperar nas águas, sinal mais forte da recuperação ambiental de um espelho d’água historicamente lembrado pela poluição e pela mortandade de peixes.
A mudança não passou batida pelo mercado de turismo. Guias da Zona Sul começaram a notar grupos interessados em observar essa fauna variada e agora estudam criar roteiros estruturados de ecoturismo, modelo comum no exterior, mas ainda raro no Rio.
Para orientar esses profissionais, o biólogo Mário Moscatelli lançou, em parceria com a Águas do Rio, uma cartilha sobre os novos habitantes da lagoa, que vai de aves raras a répteis e mamíferos. O material é repassado pelos próprios guias aos turistas.
Mais espécies, mais roteiros
O biólogo e guia Yan Hess, que cresceu no entorno da lagoa e voltou ao Rio depois de uma década fora, viu a mudança de perto. Para ele, a diversidade de espécies amplia o repertório dos guias na hora de contar a história da recuperação ambiental aos visitantes.
“Tem muita coisa para mostrar além da capivara: os peixes maiores, as aves que voltaram, os caranguejos nas margens. Cada espécie ajuda a contar um pedaço da recuperação da lagoa”, diz Hess.
Samuel Rodrigues dos Santos, guia há 13 anos, lembra que precisava explicar a turistas estrangeiros cenas de peixes mortos pela poluição. Hoje, a conversa é outra.
“Quando passo por aqui com grupos, vejo as pessoas fotografando a paisagem, observando os animais e querendo entender o que aconteceu para a lagoa chegar a esse estado”, afirma.
A transformação visível na superfície tem explicação no saneamento básico. No entorno da lagoa, a Águas do Rio, concessionária da Aegea modernizou as 13 estações elevatórias de esgoto da área, reforçando o cinturão de proteção do espelho d´água com fiscalização constante de despejos irregulares. Com isso, 216 mil litros de esgoto deixaram de cair nela a cada hora. O esforço faz parte dos R$ 6,3 bilhões já investidos pela empresa em infraestrutura sanitária desde o início da concessão.
“Ao estancar os lançamentos irregulares e investir na modernização das estruturas existentes, estabilizamos o ecossistema local. O saneamento operando em sua capacidade máxima não apenas resolve um passivo ambiental histórico, mas atua diretamente como um ativo financeiro e indutor de mercado para o turismo carioca”, destaca Renan Mendonça, diretor-executivo da Águas do Rio.
A recuperação do sistema de coleta de esgoto se soma ao que vem sendo feito pelo biólogo Moscatelli há quase 40 anos de recuperar o mangue da Lagoa Rodrigo de Freitas. Muda a muda, ele ajudou a reconstruir um dos ecossistemas mais importantes para a saúde ambiental da região. De acordo com ele, além de servirem como berçário natural para peixes, crustáceos e aves, os manguezais filtram poluentes, protegem as margens contra a erosão e são aliados valiosos no combate às mudanças climáticas, com capacidade de absorver até cinco vezes mais dióxido de carbono (CO?) por hectare do que as florestas tropicais terrestres.
“Água limpa e mangue saudável chamam a vida. Quando comecei a plantar mangue aqui, achavam que eu era maluco. Hoje, passei de maluco para visionário. Ver espécies como a carqueja-de-bico-fechado, os colhereiros e as capivaras ocupando a lagoa mostra o quanto esse ecossistema se recuperou”, afirma Moscatelli, à frente do projeto Manguezal da Lagoa desde 2021, que já recuperou 7 mil metros quadrados de área nativa com apoio da concessionária.



































































































