O que é ‘rota por instrumentos’? Rio estuda novo sistema para helicópteros após tragédia no Recreio


Foto: Rafael Duarte

A colisão entre dois helicópteros no Recreio dos Bandeirantes que deixou seis mortos no dia 14 de junho, levou a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a estudar a implantação de rotas de voo por instrumentos (IFR) para helicópteros na capital fluminense. A proposta começou a ser discutida neste mês durante um encontro técnico que reuniu representantes da aviação civil, órgãos de controle do espaço aéreo e operadores do setor, em meio ao aumento da movimentação aérea e dos incidentes envolvendo esse tipo de aeronave no estado.

Mas, afinal, o que são as chamadas “rotas por instrumentos”?

Na prática, se trata de um sistema em que o piloto navega utilizando os instrumentos de bordo da aeronave e as orientações do controle de tráfego aéreo, sem depender exclusivamente da observação visual do ambiente externo. Atualmente, os helicópteros que operam no Rio utilizam corredores aéreos previamente definidos, mas a separação entre as aeronaves é feita visualmente pelos próprios pilotos.

Além disso, os comandantes devem permanecer na mesma frequência de rádio, informando constantemente o prefixo da aeronave, altitude, direção do voo e qualquer alteração na rota. Especialistas defendem que, com o aumento da frota, esse modelo precisa evoluir para reduzir os riscos de colisões.

A implantação do sistema IFR foi um dos principais temas do 1º Encontro Técnico do Grupo Brasileiro de Segurança Operacional de Helicópteros (BHEST), que reuniu operadores de táxi aéreo, empresas de transporte offshore, Petrobras, Corpo de Bombeiros, operadores aeroportuários, consultorias especializadas e representantes do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).

Durante o encontro foram debatidos os requisitos técnicos para a implantação das rotas, as características das operações realizadas no Rio de Janeiro e a disponibilidade de informações meteorológicas e altimétricas necessárias para esse tipo de voo.

Rio lidera movimentação e número de incidentes

Dados da Anac mostram que o Estado do Rio possui atualmente 319 helicópteros registrados. Em 2023 eram 247, um crescimento de aproximadamente 29% em apenas três anos. Embora São Paulo tenha a maior frota do país, com mais de 400 aeronaves, o Aeroporto de Jacarepaguá concentra a maior movimentação de helicópteros do Brasil. Somente em maio deste ano foram registrados 7.903 pousos e decolagens, quase o triplo das 2.642 operações realizadas no Aeroporto Campo de Marte, na capital paulista. O aumento da atividade também aparece nas estatísticas de segurança.

Segundo dados do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer), o Rio registrou 142 incidentes com helicópteros no ano passado, enquanto São Paulo contabilizou apenas 11 ocorrências no mesmo período. Em 2026, até o momento, já foram registrados 61 incidentes no Estado do Rio, contra apenas seis em São Paulo. As ocorrências incluem falhas mecânicas, problemas em sistemas, colisões com aves, incursões em pista e quedas.

Moradores cobram mudanças

Além das discussões sobre segurança operacional, moradores da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes vêm cobrando medidas para reduzir o ruído provocado pelos helicópteros e aumentar a fiscalização dos voos na região. Desde o acidente de junho, representantes da comunidade participaram de cinco reuniões com a Anac e o Decea.

Segundo a agência, os encontros discutiram formas de reforçar o cumprimento da altitude mínima de voo sobre a Avenida das Américas. O Aeroporto de Jacarepaguá também estuda implantar um sistema para monitorar as aeronaves e identificar quando essa altura não é respeitada, comunicando as ocorrências à Petrobras, que poderá aplicar penalidades às empresas que operam voos para plataformas offshore.

A Anac informou ainda que estuda alternativas para reduzir o impacto sonoro provocado pelos helipontos privados da região. A agência ressaltou, porém, que a adoção dessas medidas depende principalmente dos responsáveis pelos aeródromos, pelos helipontos e do próprio Decea.

“É importante esclarecer que colocar essas medidas em prática depende primariamente dos responsáveis pelos aeródromos e helipontos envolvidos e do Decea. A Anac participa das discussões dentro do que cabe à sua atuação, ajudando a aproximar os envolvidos e acompanhando o assunto de perto”, disse em nota.

Presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, Delair Dumbrosck afirmou ao jornal O Globo que as reuniões ainda não produziram resultados práticos e que moradores seguem cobrando uma regulamentação mais rígida para os voos de helicópteros.

“Não evoluiu nada. Algumas pessoas têm achado essas reuniões inócuas. O Decea diz que vai tomar providência, multar e não faz nada”, contou.

O deputado federal Hugo Leal, que participou do último encontro, afirmou que continuará acompanhando o tema até que sejam encontradas soluções para os problemas apontados pela população.

“Vamos seguir em cima deste tema como já temos feito há mais de um ano. Só vamos parar quando esses problemas estiverem resolvidos prometeu o deputado Hugo Leal, que esteve presente no último encontro”, afirmou.

O Decea não se pronunciou sobre o caso.

Relembre o acidente

A discussão sobre mudanças nas regras de operação ganhou força após a colisão entre dois helicópteros na manhã de 14 de junho, no Recreio dos Bandeirantes. Um Bell 206B Jet Ranger, que havia decolado do Aeroporto de Jacarepaguá com destino a Angra dos Reis, transportava o piloto Alexandre Souza, o cantor norte-americano Oliver Tree, o youtuber argentino Gaspar Prim Díaz (Gaspi), o diretor argentino Lucas Vignale e o produtor musical brasileiro Lucas Brito Chaves, conhecido como Lucas Frota.

A segunda aeronave, um Eurocopter AS350 B2 (Airbus H125), era pilotada por Charles Marsillac e seguia do Aeroporto Santos Dumont para Guaratiba.

Pouco antes das 9h, os helicópteros colidiram no ar e caíram em um trecho da Avenida das Américas. Um deles atingiu o estacionamento de uma concessionária da BYD, provocando um incêndio que destruiu 13 veículos. O outro caiu cerca de 100 metros adiante, sobre dois carros.

Os destroços também atingiram edifícios próximos. Segundo a Anac, as duas aeronaves estavam em situação regular de aeronavegabilidade e os pilotos eram experientes. As causas da colisão continuam sendo investigadas.

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