Onde o asfalto esconde a história: A melancólica saga do Rio Carioca, aprisionado sob o pulsar da Zona Sul


Foto: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

A fisionomia geográfica da capital fluminense passou por profundas mudanças artificiais que moldaram o cenário urbano atual à custa de seu patrimônio hidrográfico. Ao longo dos séculos XIX e XX, uma grande rede de rios que cortava a cidade foi sistematicamente canalizada, retificada, desviada e sepultada sob toneladas de concreto e asfalto. Cursos d’água de grande relevância ecológica e histórica, como o Maracanã, o Comprido, o Trapicheiros e o lendário Rio Carioca, deixaram de correr a céu aberto.

Antigamente fundamentais para o abastecimento público, transporte de cargas, drenagem natural e delimitação do crescimento das freguesias, esses mananciais passaram a ser encarados pelos planejadores urbanos como barreiras físicas que travavam o progresso imobiliário e vetores de proliferação de doenças. Esse apagamento ambiental estrutural ganhou força com as políticas sanitaristas e as grandes reformas estéticas que varreram a antiga paisagem colonial.

O caso mais emblemático e carregado de simbolismo desse processo de confinamento subaquático é o do Rio Carioca, manancial que batizou a identidade dos nascidos no estado e que hoje flui na mais completa escuridão sob vias movimentadas e edifícios residenciais. Durante o Brasil Colônia, o rio funcionou como a principal artéria de sobrevivência da população.

Suas águas puras eram captadas no topo do Maciço da Tijuca e transportadas por gravidade até o coração financeiro e administrativo da cidade por meio do Aqueduto da Carioca, uma estrutura monumental em arcos de pedra que hoje resiste como o cartão-postal dos Arcos da Lapa. Ao alcançar o Centro, o fluxo alimentava chafarizes públicos icônicos, como o da atual Praça Largo da Carioca, transformando esses pontos de coleta em fervilhantes centros de sociabilidade, comércio e abastecimento comunitário.

Foto: Valter Cunha

A transição para a modernidade, consolidada no início do século XX pelas reformas urbanas do prefeito Pereira Passos, marcou o início do enclausuramento definitivo do leito. Galerias pluviais profundas foram escavadas para aprisionar o fluxo d’água no subsolo, viabilizando o loteamento, o alargamento e a pavimentação de novos eixos viários que interligavam os bairros do Cosme Velho, Laranjeiras e Flamengo.

Nas décadas seguintes, o adensamento imobiliário vertical e a valorização dos terrenos na Zona Sul sepultaram os raros trechos que ainda sobreviviam expostos à luz do dia. Na década de 1960, as monumentais obras de engenharia para a criação do Aterro do Flamengo alteraram de forma definitiva a própria foz do rio, que acabou completamente subjugada e integrada aos sistemas de escoamento de águas da chuva e à rede coletora de esgotos da metrópole.

Foto: Gilberto Mesquita

Atualmente, de seu percurso total de aproximadamente 7 quilômetros de extensão, o Rio Carioca só preserva suas características naturais e corre livre em sua cabeceira alta, protegida pela mata fechada do Parque Nacional da Tijuca, e em curtos recantos residenciais isolados, como no preservado Largo do Boticário, no Cosme Velho. Fora desses pequenos refúgios históricos, o rio que viabilizou o nascimento e o desenvolvimento da própria cidade flui de forma invisível por baixo das galerias urbanas, desaguando de maneira artificial e silenciosa nas águas da Praia do Flamengo.

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