A rua onde nasceu a carioquice: conheça a história da Rua do Passeio


Rua do Passeio é um dos símbolos das transformações que marcaram a expansão do Rio. Foto: Marcio Curvello / Diário do Rio

Porta de entrada para quem segue da Zona Sul em direção à Cinelândia, a Rua do Passeio é muito mais do que uma via de passagem. Ao longo dos séculos, foi cenário de importantes acontecimentos culturais, sociais, econômicos e políticos que ajudaram a moldar a história do Rio de Janeiro. A região também é apontada como o berço do jeito carioca de ser, por abrigar o Passeio Público, o primeiro jardim público das Américas e um dos espaços mais emblemáticos da cidade.

Na correria do dia a dia, poucos imaginam que o parque Passeio Público, principal cartão-postal da rua, é um dos símbolos das transformações que marcaram a expansão urbana do Rio.

O Passeio público simboliza muito as dinâmicas de expansão da cidade do Rio. Como o Campo de Santana exemplifica a expansão para a Zona Norte, o Passeio Público representa muito essa conquista de terras, de aterros sobre prédios e pântanos do Rio de Janeiro Colonial e essa conexão do Centro com a Zona Sul“, ilustra o Historiador e Doutorando em História Social (UFF), Douglas Liborio.

Ao mesmo tempo ele representa as novas formas de viver e apreciar o Rio, o famoso jeito carioca de ser.

É o momento que a sociabilidade é posta na ordem do dia no Rio. Esse aspecto que a gente tem de andar ombro a ombro, essa cultura de rua que se consolidou muito no século XX, faz parte da imagem do Carioca, eu diria que o marco dela é quando o Passeio Público é feito, porque a ideia do lazer contemplativo, de estar na rua, de admirar a paisagem da Baía de Guanabara, ela é muito marcada com a construção do parque no final do século XVIII, precisamente em 1783. Ele é o primeiro jardim público das Américas, feito pelo mestre Valentim, o Homem Negro, no contexto do Rio de Janeiro colonial“, destaca Liborio.

Parque do Passeio Público é o primeiro jardim público das Américas. (Foto: Marcio Curvello / Diário do Rio)

Do ponto de vista arquitetônico e urbanístico, o Passeio Público representa uma experiência urbana bastante singular.

Ele é um laboratório de experimentos de integração entre artes. Arquitetura e urbanismo pelo jardim, escultura pela fonte que tem ali no centro, a Fonte dos Amores, pintura pelas antigas pinturas do Leandro Joaquim, que ficavam dentro dos pavilhões do Passeio Público, que foram demolidos posteriormente, e também arte decorativa pelos elementos decorativos que tinham no interior desses pavilhões. Então, uma experiência ali de integração de artes bem peculiar no período colonial, feito por mãos negras“. acrescenta Douglas.

Atividade política pulsava no Passeio do Rio Antigo

De acordo com o professor Liborio, a região teve seus altos e baixos, mas também foi marcada por uma intensa atividade política no município.

A cidade na época em que o Passeio Público foi construído, já era o vice-reinado do Brasil. Depois se transformou em corte do Império Português, depois capital do Império e em seguida Distrito Federal do período republicano. E ali se erguem algumas construções que marcam muito a atividade política do Rio. Por exemplo, durante toda a parte do período Imperial, vai ser na Rua do Passeio a sede da Secretaria de Estado da Justiça, e no início da República, a sede do Ministério da Justiça, bem nos primeiros anos republicanos, que era a antiga residência do Conde da Barca, na Rua do Passeio. Originalmente, instituições de importância também vão ficar ali, como a Biblioteca Nacional, no prédio que hoje é a Escola de Música da UFRJ“.

Muito além de sua imponente fachada, o edifício do Automóvel Clube do Brasil guarda alguns dos capítulos mais importantes da história política brasileira. Símbolo da arquitetura neoclássica no Centro do Rio, o imóvel reúne mais de um século de história social, política e cultural.

Originalmente projetado como residência pelo arquiteto, diplomata e intelectual Manuel de Araújo Porto-Alegre, foi adquirido, em meados do século XIX, pelo Cassino Fluminense, tornando-se um dos principais pontos de encontro da elite carioca e da Família Imperial.

A antiga sede do Automóvel Clube é outro imóvel importante na história política do Rio, pois abrigava Cassino Fluminense, que vai ser o local das sessões preparatórias da primeira Assembleia Constituinte Republicana, em 1890″, esclarece Libório.

Liborio destaca também outro imóvel que foi importante na época em que o Rio era a Capital Federal.

E o prédio principal da via, que logo ao lado do Passeio Público, já na entrada da Rua do Passeio, de certa forma, posteriormente foi reconstruído o Palácio Monroe. Que foi a sede do Senado Federal durante boa parte do período republicano, sede da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, de forma consecutiva, no Rio de Janeiro. O prédio foi demolido há 50 anos, em 1976, pela ditadura militar. Como também o prédio do Ministério da Justiça foi destruído ao longo do tempo“. E continua, “Então, de certa forma, a via agrega edifícios de representação, mas também agrega essas memórias que marcaram a imagem do Rio Capital e das suas formas de expansão urbana“.

Elementos arquitetônicos preservam a memória da cidade

A região do Passeio, em torno da Rua do Passeio, também guarda, de certa forma, camadas representativas, elementos representativos, das várias linguagens arquitetônicas que marcaram a cidade do Rio.

Nós temos, por exemplo, exemplares da arquitetura da linguagem colonial, como por exemplo, o próprio Parque do Passeio Público, feito pelo Mestre Valentim. Ainda que seja no modelo europeizante, o jardim original é um modelo simétrico francês, depois é remodelado pelo Brasil no molde dos jardins ingleses. Mas é um exemplar da arte do período colonial, do modelo de fazer. Existem algumas construções, que é o antigo prédio do Automóvel Clube, que seguem a matriz de edifícios horizontais de inspiração neoclássica do período imperial“, destaca Douglas, que completa.

Existem edifícios com aspectos monumentais, que marcam a arquitetura do início da república, como a própria Escola de Música da UFRJ, extremamente ornamentada, com elementos escultóricos que chamam a atenção, o prédio se impondo como um monumento.  O próprio Palácio Mourão, que existia, representava o auge da arquitetura da Belle Époque carioca. Cúpula de ferro, uma farta ornamentação, entre outros. E também um dos marcos do art déco, que é o Edifício Mesbla, um dos primeiros residenciais daquele contexto, daquela época, ele é da década de 30 e foi construído como edifício de apartamentos“, finaliza Liborio.

Samba, teatro, cultura e novos moradores: a Rua do Passeio hoje

Atualmente a via abriga diversas manifestações culturais como o Teatro Riachuelo Rio, a Caixa Cultural Rio de Janeiro, a Escola de Música da UFRJ, Samba do Passeio e o Goethe-Institut (Instituto Cultural da Alemanha), além do icônico edifício da Mesbla, que passa por retrofit e em breve receberá moradores que vão apreciar não só a vista para o parque Passeio Público, mas também parte da Baía de Guanabara.

Instalado no edifício do antigo Cine Palácio, o Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, 40) é um dos mais tradicionais palcos da cidade. Tombado como patrimônio histórico e arquitetônico, o espaço preserva sua fachada em estilo neomourisco e passou por uma completa revitalização. Entre as iniciativas oferecidas ao público está o projeto Visita Guiada, que convida os participantes a conhecer a história da Rua do Passeio e do próprio teatro em um percurso que combina fatos históricos e elementos de ficção. Com duração aproximada de 45 minutos, cada sessão recebe grupos de até 25 pessoas. As inscrições podem ser feitas pelo Instagram, no perfil @teatroriachuelorio.

Uma das unidades da Caixa Cultural Rio de Janeiro está localizada na Rua do Passeio e conta com duas entradas: uma pelo Teatro Riachuelo Rio e outra pela Rua das Marrecas, 20. O espaço dispõe de um cinema com capacidade para 62 espectadores e de três galerias preparadas para receber mostras e exposições de arte.

Instalada de frente para o Passeio Público, a Escola de Música da UFRJ (Rua do Passeio, 98) é a mais antiga instituição de ensino musical em atividade no Brasil. Fundada em 1848, ocupa um prédio histórico tombado e se consolidou como uma referência na formação de músicos, regentes, compositores e pesquisadores. Além do ensino de graduação e pós-graduação, promove uma intensa programação cultural gratuita, com concertos, recitais e eventos abertos ao público.

Já o Samba do Passeio, no Passeio Público, é um evento “anexo” à Feira da Glória, que acontece aos domingos a partir das 12h e inclui roda de samba, área de alimentação, espaço para expositores e área infantil. A entrada é franca.

O Goethe-Institut, instituto cultural oficial da República Federal da Alemanha, promove o ensino da língua alemã e o intercâmbio cultural entre os dois países. Com sede na Rua do Passeio, a instituição também realiza uma programação de eventos e divulga a cultura, a sociedade e a vida política da Alemanha.

Reviver Centro

Projetado pelo arquiteto francês Henri Sajous e inaugurado em 1934, o edifício da antiga Mesbla (Rua do Passeio, 56) é um dos ícones arquitetônicos do Centro do Rio. Em estilo art déco, sua torre-relógio de cerca de 100 metros tornou-se um dos marcos da paisagem carioca.

Prédio da antiga Mesbla volta a ser residencial. Foto: Rafa Pereira – Diário do Rio

Atualmente em retrofit, dentro do programa Reviver Centro, o imóvel voltará à sua vocação residencial, recebendo novos moradores. O prédio terá um terraço na cobertura (rooftop) com piscina e vista para a Baía de Guanabara.

Do primeiro jardim público das Américas aos novos projetos de revitalização, a Rua do Passeio atravessa gerações sem perder seu charme. Em cada edifício, praça ou palco, permanece viva a história de uma cidade em constante transformação. Ao longo dos séculos, a via preserva sua vocação como espaço de memória, arte e cultura, mantendo viva a carioquice que ajudou a moldar a identidade do Rio.

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