Bingo clandestino funcionaria há anos em Copacabana, diz influenciador; caso reacende debate sobre proteção ao jogo ilegal no Rio


O bingo clandestino funcionaria neste prédio da Rua administro Viveiros de Castro, 95, que tem placa de aluga-se há anos / Foto: perfil Poderoso PiuPiu do Instagram

Há ruas em Copacabana que carregam uma memória própria. Quem vive no bairro há muitos anos conhece os edifícios, acompanha a troca de comerciantes, percebe quando um imóvel muda de uso e identifica rapidamente aquilo que foge da rotina. Foi justamente essa sensação de familiaridade que chamou atenção na repercussão de uma denúncia publicada nas redes sociais envolvendo um imóvel que estaria aparentemente para alugar na Rua Ministro Viveiros de Castro, uma das vias mais movimentadas da região.

O influenciador e instagrammer Poderoso Piu-Piu, conhecido por publicar vídeos sobre problemas urbanos de Copacabana e que já foi tema de reportagem do DIÁRIO DO RIO, afirma que no imóvel de número 95 – aparentemente fechado – funciona de fato um bingo clandestino. No vídeo, gravado diante do endereço, ele cobra providências das autoridades e questiona o porquê do estabelecimento continuar operando normalmente, citando nominalmente o delegado de polícia da região.

A publicação rapidamente repercutiu entre moradores e frequentadores do bairro. O aspecto que mais chama atenção não é o teor da denúncia em si, mas sim a quantidade grande de comentários de pessoas que afirmam conhecer o suposto funcionamento do local há bastante tempo e confirmam a existência do estabelecimento ilegal. São dezenas de internautas que dizem que o tal Bingo é velho conhecido de todos no bairro.

O perfil @mellofau, que afirma morar na rua há mais de duas décadas, escreveu: “Eu moro nessa rua há mais de 25 anos. Há bastante tempo existe.”

O perfil @sabrinaguiggi.news comentou: “Esse bingo tá aí há muito tempo.”

@rogeriofur27611443 resumiu: “Esse bingo é antigo.”

O internauta @rubaodelicado ironizou a situação: “Até minha bisavó já percebeu.”

Outro comentário que ganhou destaque foi o de @pietrofigueiredo02, que escreveu: “Verdade, bingo clandestino só tem segurança na entrada; na frente ainda tem placa de aluga. Cadê a polícia?”

As mensagens, naturalmente, representam manifestações espontâneas feitas por seus respectivos autores nas redes sociais. Ainda assim, elas revelam uma percepção comum entre diversos comentaristas: a de que o tal estabelecimento clandestino não seria uma novidade para quem frequenta a região.

Essa percepção desperta interesse público porque a exploração de bingos permanece proibida pela legislação brasileira e Copacabana possui um longo histórico de operações contra casas clandestinas de jogos.

Nos últimos anos, Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Federal realizaram diversas ações no bairro. Em março de 2025, policiais do 19º BPM apreenderam dez máquinas caça-níqueis em um bingo clandestino na Rua Siqueira Campos. Antes disso, operações realizadas em 2019, 2018, 2016, 2015 e 2014 fecharam outros estabelecimentos semelhantes em diferentes pontos de Copacabana, com apreensão de dezenas de máquinas, dinheiro em espécie e equipamentos utilizados na exploração do jogo ilegal.

O histórico demonstra que o combate aos bingos clandestinos faz parte da rotina das forças de segurança no bairro. Ao mesmo tempo, revela que a existência de casas de jogos ilegais em Copacabana jamais foi um fenômeno isolado.

A denúncia envolvendo a Rua Ministro Viveiros de Castro ganha dimensão ainda maior por outro motivo.

Em novembro de 2022, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, deflagrou a Operação Fim da Linha, considerada uma das maiores ofensivas dos últimos anos contra organizações ligadas à exploração de jogos de azar.

Segundo o próprio Ministério Público, a investigação teve origem justamente em uma notícia-crime sobre um bingo clandestino que funcionaria em Copacabana com a permissão de policiais militares. As apurações evoluíram e, posteriormente, passaram a alcançar também policiais civis. De acordo com o MPRJ, foram identificados indícios de um esquema estruturado de corrupção destinado a permitir o funcionamento de estabelecimentos clandestinos de jogos de azar mediante pagamento de vantagens indevidas, além de crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Entre os estabelecimentos fechados durante a Operação Fim da Linha estavam, inclusive, dois bingos localizados em Copacabana.

Não há, até o momento, qualquer elemento que relacione a denúncia envolvendo o imóvel da Rua Ministro Viveiros de Castro às investigações conduzidas pelo Ministério Público naquele caso. A referência à Operação Fim da Linha se justifica porque ela demonstra que a hipótese de favorecimento a casas clandestinas de jogos deixou de ser mera especulação e passou a integrar investigações oficiais conduzidas pelo órgão responsável pelo controle externo da atividade policial.

Nesse contexto, uma denúncia pública que aponta um endereço específico, acompanhada de manifestações de moradores afirmando conhecer o suposto funcionamento do local há anos, ultrapassa o campo da curiosidade das redes sociais e passa a representar uma questão de interesse público.

A fachada do número 95 da Rua Ministro Viveiros de Castro pouco difere de tantos outros imóveis comerciais de Copacabana. Portas metálicas fechadas, grades, concertina e uma discreta placa de “Aluga-se” compõem um cenário comum para quem atravessa diariamente a rua. Se, porém, a denúncia divulgada pelo influenciador e corroborada por diversos comentários de moradores corresponder à realidade, a pergunta que naturalmente se impõe é como um estabelecimento dessa natureza conseguiria permanecer em funcionamento justamente em um bairro que acumula um dos mais extensos históricos de operações policiais contra bingos clandestinos no Estado do Rio de Janeiro.

O DIÁRIO DO RIO deixa aberto o espaço para manifestação da 12ª DP (Copacabana) e da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro sobre a denúncia envolvendo o imóvel da Rua Ministro Viveiros de Castro, nº 95. Eventual posicionamento será publicado e incorporado a esta reportagem.

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