
A formação Axé-Amém, iniciativa do Instituto de Estudos da Religião (ISER), lança um novo roteiro turístico-cultural para revisitar o Centro do Rio a partir das memórias da espiritualidade negra. A proposta reúne dois caminhos de fé e história: os territórios das tradições de matriz africana e os marcos do protestantismo na cidade.
O roteiro busca revelar espaços marcados pela escravidão, pelo racismo e pela intolerância religiosa. Mas também aponta histórias de resistência, pertencimento e fé que ajudaram a construir o Rio de Janeiro. O guia também está disponível no site do ISER.
Duas semanas após o lançamento do primeiro trajeto, voltado a lugares históricos do protestantismo, os participantes da formação percorrem, neste sábado (13), a partir das 8h30, espaços importantes para as religiões de matriz africana. A caminhada segue os caminhos propostos pelo novo guia, que oferece uma leitura da cidade além dos roteiros turísticos tradicionais.
O Roteiros de Memória e Espiritualidade Negras no Rio de Janeiro parte da ideia de que a religião também se expressa nas ruas, nos monumentos, nos territórios e nas formas de ocupação da cidade. Enquanto símbolos cristãos ocupam lugares de destaque na paisagem urbana, as contribuições das espiritualidades de matriz africana muitas vezes seguem apagadas por processos históricos de racismo e silenciamento.
Caminhada propõe outra leitura da cidade
Durante o percurso, os participantes serão convidados a reconhecer marcas deixadas por africanos e afro-brasileiros que, mesmo diante da escravidão e da perseguição religiosa, criaram formas de sociabilidade, celebração e resistência.
A proposta é inspirada no princípio africano Sankofa, que trata da importância de recuperar saberes e memórias do passado. A partir desse olhar, o roteiro propõe revisitar a história do Rio pelas contribuições negras que moldaram a cultura brasileira.
A programação termina com uma visita ao Terreiro-Quilombo de Umbanda Luandeiros, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, conduzido pelo Pai Caio Bayma. Depois, haverá um almoço coletivo entre os participantes, reforçando a ideia de convivência e escuta entre diferentes tradições religiosas.
Para a coordenadora da formação, Carolina Rocha, a escolha do almoço tem relação direta com o espírito do projeto. “No Axé-Amém, a mesa é entendida como um espaço de encontro. Se há algo que aproxima comunidades evangélicas e povos de terreiro é a partilha da comida, o gesto de sentar junto para conversar, escutar e construir confiança. Em um contexto marcado por tensões e preconceitos, o almoço se transforma em uma experiência concreta de convivência, onde diferenças não precisam ser apagadas para que haja respeito”, pontua.
Evangélicos terão primeira visita a terreiro
Para muitos integrantes evangélicos do Axé-Amém, esta será a primeira experiência dentro de um terreiro. A visita é tratada como um dos momentos mais simbólicos da formação, por criar uma aproximação direta em um contexto marcado por preconceitos e tensões religiosas.
A data também carrega simbolismo. O percurso acontece em 13 de junho, dia de Santo Antônio, figura associada a Exu em diversas tradições afro-religiosas.
A segunda edição da formação Axé-Amém reúne cerca de 30 participantes. Em 2025, o projeto publicou o livro Axé-Amém: encruzilhadas da fé negra no Brasil, com relatos, reflexões e experiências de participantes da primeira edição sobre fé, transformação social, racismo religioso, identidade negra e diálogo entre diferentes tradições.
A iniciativa integra os esforços do ISER para enfrentar o racismo religioso e fortalecer experiências de diálogo inter-religioso baseadas no respeito, na convivência e no reconhecimento da diversidade.















































































































