
Um Cortejo de um cão da lua, exposição de Sandra Lapage, tem como característica imediata a comunicação direta com o público através de obras que usam alumínio reciclado, cápsulas de café, chapas amassadas e outros fragmentos — inclusive materiais doados por comunidades — na construção de módulos em que brilho, dobra e tensão estrutural organizam o olhar como ritmo.
Em Procissão Suspensa, Sandra Lapage convida o visitante a percorrer, aproximar-se e “ler” relações entre materiais, tempos e encaixes, a partir de num campo de percepção que se reorganiza a cada mudança de posição, de luz e de cada intervalo entre matéria e vazio.
A exposição é um verdadeiro passeio por peças içadas e suspensas, que preenchem o ar em progressão e onde retirar as obras do chão e das paredes, representa roubar-lhes a condição de “objeto disponível” e reconduzi-las à forma de entidade em trânsito. Com isso, o espaço vira meio através do qual o público atravessa uma “procissão” aérea com o próprio corpo.
A mostra tem em uma gravura de James Ensor a chave conceitual para compreender a lógica do trabalho, como uma procissão de seres em avanço, uma multidão reconhecível não por identidade, mas por aparição. A ideia da curador Fabrício Reiner é de apresentar uma “máquina de visibilidade”, sugerindo que a vida social também se organiza por fantasmas – máscaras, carnaval e abismo -, mostrando que o que avança nem sempre tem nome, mas tem força.
No centro dessa experiência está uma pergunta que aponta sobre corpo e presença, uma vez que as figuras e vestígios da artista aparecem como formas liminares — entre vida e inanimado, humano e natureza — e a fantasia, obrigando o olhar a encarar o que a realidade tende a naturalizar.
Ao transformar o cotidiano descartável em presença, Sandra Laplage recoloca: “o que é um corpo?”, quando o corpo é também cultura material, técnica, brilho, descarte, desejo e vergonha. Além disso, a exposição também aposta numa ambivalência, atualmente, compartilhável e jornalística: convite e constrangimento. Convite, já que tudo reluz; e constrangimento, porque aquilo que chama é feito do que sobrou.
A exposição Cortejo de um cão da lua é a primeira exposição individual de Sandra Laplage na Galeria Contempo, em São Paulo. Sandra é uma artista cuja trajetória reúne bolsas e prêmios internacionais, incluindo a Pollock-Krasner Foundation e o Repaint History Artist Fund, além de exposições em instituições como o Museu de Arte de Ribeirão Preto, o Centro Cultural São Paulo e o Institute of Contemporary Art de Portland.
A Galeria Contempo fica na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1644, no bairro Jardim América, na capital.
















































































































