Cocaína no mar do Rio contamina tubarões e raias


Foto meramente ilustrativa – Foto: Alexandre Macieira

Nem a imensidão do Atlântico tem conseguido diluir o volume de cocaína, medicamentos e inseticidas que chega ao mar pelo esgoto no Rio de Janeiro. Um estudo recém-publicado mostra que tubarões e raias da costa carioca já apresentam sinais de contaminação por substâncias consumidas por humanos.

A pesquisa encontrou cocaína e benzoilecgonina, substância derivada da cocaína, além de diclofenaco, piroxicam, sulfametoxazol e fipronil em animais jovens. Os compostos incluem anti-inflamatórios, antibiótico e inseticida.

O alerta vai além da poluição marinha. Para os pesquisadores, a presença dessas substâncias nos peixes indica que uma quantidade enorme de drogas, lícitas e ilícitas, está sendo lançada no ambiente. Parte delas é expelida pela urina, segue para rios, redes de esgoto e emissários submarinos e termina no oceano.

“Para haver contaminação é preciso haver um consumo gigantesco dessas substâncias”, afirmou Rachel Ann Hauser-Davis, bióloga do Laboratório de Avaliação e Promoção de Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e primeira autora do estudo.

Animais jovens já aparecem contaminados

Os cientistas analisaram músculos, fígado e cérebro de raias-borboleta (Gymnura altavela) e tubarões-martelo (Sphyrna lewini) doados por pescadores artesanais do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio.

O número de amostras foi pequeno, sete no total. Ainda assim, a detecção dos contaminantes em animais jovens chamou a atenção dos pesquisadores. Para eles, o resultado indica exposição recente ou contínua.

“Se está nos bichos é porque a quantidade dessas drogas no ambiente é brutal. Ela não é medida, deveria ser investigada”, disse Marcelo Vianna, coautor do artigo e pesquisador do Laboratório de Biologia e Tecnologia Pesqueira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto Museu Aquário Marinho do Rio de Janeiro (Imam/AquaRio).

A cocaína já havia sido encontrada em tubarões no Rio. Em 2024, um estudo de Enrico Saggioro, Rachel Ann Hauser-Davis, Marcelo Vianna e outros pesquisadores detectou a droga em tubarões-de-bico-fino (Rhizoprionodon lalandii) também no Recreio dos Bandeirantes.

Neste mês, outro grupo da UFRJ identificou sertralina, um antidepressivo comum, no cérebro de tubarões do litoral fluminense. A sequência de descobertas reforça a preocupação com contaminantes que não costumam aparecer nos monitoramentos tradicionais.

“Há muito esgoto e lixo no mar. O nível de poluição é grande e nem sempre é visível ou detectável por métodos tradicionais, que não monitoram nem eliminam, por exemplo, medicamentos. Os animais ficam expostos a isso todo o tempo. Choca, mas não surpreende encontrar esse tipo de contaminação”, afirmou Rachel Ann Hauser-Davis.

Cocaína em concentração alta indica exposição constante

Um dos pontos que mais chamaram a atenção foi a concentração de cocaína nas raias. Em alguns casos, ela superou a de benzoilecgonina, que é formada quando a droga original é metabolizada.

Isso sugere uma exposição recente ou contínua. A cocaína é metabolizada com rapidez, enquanto a benzoilecgonina tende a se acumular com o tempo. Quando a droga original aparece em maior concentração, o indício é de entrada recente no organismo dos animais.

Os pesquisadores alertam que essas substâncias podem afetar comportamento, fisiologia e reprodução de espécies ameaçadas. A preocupação é maior no caso da raia-borboleta, espécie ameaçada que tem na Baía de Guanabara seu único berçário conhecido no Atlântico Sudoeste.

Há ainda a possibilidade de que fêmeas contaminadas transmitam substâncias aos embriões. Com isso, os animais já poderiam nascer expostos a drogas e medicamentos lançados no mar.

“O litoral do Rio de Janeiro é o mais industrializado de todo o Atlântico Sul e recebe enormes quantidades de esgoto e de poluentes lançados por rios. O oceano é um ambiente dinâmico e correntes espalham os contaminantes pelo litoral do Sudeste. Não é um problema específico do Recreio, do município nem do estado. Esse tipo de contaminação é uma preocupação sem fronteiras”, destacou Marcelo Vianna.

Risco também preocupa pelo consumo de cação

Tubarões e raias são elasmobrânquios, grupo de peixes com esqueleto formado por cartilagem. No comércio, muitas espécies acabam vendidas como cação. A carne sem espinha costuma ser recomendada para crianças pequenas e idosos, o que aumenta a preocupação dos pesquisadores.

Ainda não se sabe qual risco o consumo desses animais contaminados pode representar para os seres humanos. Segundo Marcelo Vianna, o Brasil é o maior consumidor de carne de cação do mundo.

“Esses peixes não deveriam ser consumidos, seja porque estão ameaçados de extinção, seja por riscos possíveis para a saúde”, afirmou Rachel Ann Hauser-Davis.

O estudo classifica essas substâncias como Contaminantes de Preocupação Emergente. O grupo inclui produtos farmacêuticos, drogas ilícitas e pesticidas que não são monitorados de forma regular, embora possam causar danos ambientais.

Esses compostos também não são removidos por métodos convencionais de tratamento de esgoto. Em peixes, já são associados a alterações comportamentais, fisiológicas e endócrinas, como infertilidade, malformações e mudança de sexo.

O trabalho, chamado “Contaminantes de preocupação emergente de múltiplas classes em elasmobrânquios costeiros ameaçados: nova evidência de exposição no início da vida no Sudeste do Brasil”, foi publicado na Marine Pollution Bulletin, revista científica da área de poluição marinha.

Além de Rachel Ann Hauser-Davis e Marcelo Vianna, participaram cientistas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e da Universidade Andrés Bello, no Chile.

“A ocorrência em indivíduos juvenis é preocupante, pois os estágios iniciais de vida são mais vulneráveis aos efeitos da poluição, podendo comprometer a sobrevivência de espécies ameaçadas. A pesca é apontada como a maior ameaça a muitas espécies de peixes, mas vemos que drogas usadas pelo ser humano também podem ser motivo de extinção”, disse Marcelo Vianna.

“Mostramos um problema desconhecido. A sociedade faz maciço uso de drogas, de todos os tipos, e precisa pensar nas consequências e na necessidade de soluções. Não é um problema do peixe. É nosso”, ressaltou Marcelo Vianna.

As informações são d´O Globo.

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