Desordem e comércio ilegal tomam conta do calçadão de Copacabana


Foto: Alexandre Cassiano

O famoso calçadão de pedras portuguesas da Avenida Atlântica, em Copacabana, transformou-se em uma pista de dança improvisada e barulhenta nas últimas semanas. Nem mesmo as placas de proibição instaladas pelo município impedem que sósias do cantor Michael Jackson se apresentem com caixas de som potentes acopladas a carrinhos de bebidas. Essa poluição sonora constante virou o principal pesadelo de quem busca o som das ondas do mar ou simplesmente tenta dormir nos edifícios da região.

A desordem se estende por toda a calçada. A poucos metros dali, uma aglomeração de ambulantes ostenta bandeiras de nações vizinhas, criando um corredor cultural e gastronômico onde ritmos como cúmbia e reggaeton disputam o espaço sonoro. O ambiente festivo atrai famílias que registram a mistura cultural de drinques estrangeiros e nacionais, mas também serve de cenário para a ação livre de traficantes. Recentemente, a Polícia Militar efetuou a prisão de um suspeito carregando entorpecentes, dinheiro e aparelhos celulares na região, mas a rotina de excessos continuou inalterada nos dias seguintes.

A mobilidade na orla também virou motivo de preocupação para quem caminha ou se exercita. Motos elétricas e ciclomotores circulam livremente pelas calçadas e pela ciclovia, desrespeitando as normas municipais de trânsito. Um idoso chegou a perder a direção de uma motocicleta elétrica na área compartilhada, quase atropelando um ciclista. Frequentadores assíduos apontam que os alertas da prefeitura por meio de QR Codes nas placas não geram qualquer efeito prático ou intimidação sobre as atividades irregulares.

O sucesso financeiro e a facilidade de instalar um ponto de venda sem fiscalização atrai inclusive trabalhadores de outros países. Uma família de cozinheiros colombianos migrou para o Rio de Janeiro para vender petiscos na praia após receber incentivo de um parente que já reside na cidade. Eles iniciaram as vendas na Avenida Atlântica sem possuir alvará e a cozinheira explicou a situação: “Ainda vamos entender como fazemos para ter os documentos”, diz a cozinheira.

O aluguel de carrocinhas de bebidas virou uma alternativa comum para trabalhadores informais lucrarem com o turismo de inverno, gerando a comercialização de produtos alimentícios sem vistorias sanitárias ou comprovação de origem. Um morador e esportista local criticou o cenário afirmando que na orla tem muitas carrocinhas de drinques, que ninguém tem licença para vender aquilo, e chega cada vez mais gente, ressaltando que estrangeiros e brasileiros alugam os carrinhos, colocam as bandeiras e vão para a rua.

Em vistorias noturnas recentes, reportagens flagraram a ausência completa de agentes públicos atuando no trecho mais movimentado entre os postos 3 e 5 da praia após as 22h. Em contrapartida, a administração municipal alegou que direcionou suas equipes de ordenamento urbano para fiscalizar o comércio e o trânsito nas vias internas do bairro, operação que resultou na apreensão de trinta quilos de comida estragada.

As dificuldades de formalização também alimentam o problema. O vereador William Siri (PSOL) argumenta que o próprio sistema dificulta a vida de quem quer trabalhar dentro da lei. Segundo o parlamentar, “A falta de transparência na concessão das Taxas de Uso de Área Pública (TUAPs) é o ponto central dessa desorganização. Muitos trabalhadores tentam há anos e não obtêm qualquer resposta sobre a ordem de recebimento ou os critérios adotados, criando um cenário de insegurança que afasta o ambulante que quer trabalhar direito. É nesse vácuo de legalidade e na ausência de fiscalização responsável que surgem problemas como a venda de produtos adulterados ou a desordem sonora”, diz o parlamentar.

Além do barulho e do risco à saúde dos consumidores, o comércio clandestino prejudica os quiosques e vendedores legalizados. A sensação de insegurança é outra queixa recorrente. O barraqueiro Washington Conceição, por exemplo, teve dezenas de cadeiras furtadas de sua estrutura e recorreu à polícia. A Polícia Civil informou que a investigação está em andamento na 12ª DP (Copacabana) e que “agentes analisam imagens de câmeras de segurança” para identificar os autores do crime. Promessas antigas de monitoramento tecnológico com o uso de drones e câmeras especiais de monitoramento ainda não saíram do papel.

Durante um balanço da Força Municipal, o prefeito Eduardo Cavaliere anunciou que uma grande ação de ordenamento urbano será iniciada na orla da Zona Sul, priorizando Copacabana, Ipanema e Leblon, embora não tenha estipulado uma data de início. O plano prevê o bloqueio prévio de ambulantes clandestinos nas ruas de acesso à praia, além da retenção de equipamentos irregulares e a proibição de motos elétricas nas calçadas.

O desafio do poder público será equilibrar o direito ao trabalho com o ordenamento urbano, já que muitos desses ambulantes se tornaram atrações queridas por turistas internacionais. Um vendedor que utiliza bandeiras do Chile faz sucesso nas redes sociais e chegou a gravar vídeos com influenciadores europeus famosos. Turistas chilenos elogiam a experiência na internet e relatam que costumam passar a madrugada bebendo no local. Um frentista de um posto de combustíveis vizinho confirmou o movimento tardio afirmando que no inverno tem dia que o pessoal sai meia-noite, dependendo do clima, pois se está calor, eles ficam.

Devido ao receio de represálias por parte de grupos criminosos que controlam o território, muitos moradores preferem o anonimato. Um morador desabafou sobre o controle da criminalidade na região afirmando que “Copacabana está loteada, tanto a areia quanto o calçadão”, diz o atleta, completando que o tráfico também tomou conta do lugar.

Em resposta à crise, a Polícia Militar declarou que “o policiamento ostensivo é realizado de forma contínua em toda a área de atuação do batalhão, com o emprego de viaturas, patrulhas de moto e efetivo a pé, atuando tanto nas vias públicas quanto na orla”. Complementando a resposta de segurança, a Polícia Civil garantiu que realiza operações rotineiras no bairro “com foco na identificação e responsabilização dos envolvidos” no tráfico de entorpecentes.

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