
A terceira rodada de negociações e conciliação jurídica entre os motoristas e cobradores de ônibus e as empresas de transporte urbano do Rio de Janeiro terminou sem nenhum tipo de consenso na manhã desta segunda-feira (06).
A reunião ocorreu na sede do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), na região central da capital fluminense. Os trabalhadores do setor de transportes operam sob regime de estado de greve desde a última quarta-feira (01), momento em que decidiram interromper provisoriamente um locaute que já se estendia por três dias seguidos.
Durante o encontro mediado pela Justiça, o sindicato patronal Rio Ônibus alterou levemente o índice de recomposição salarial oferecido, subindo a proposta de 4,39% para 4,5%, o que representa uma adição de 0,11% em relação ao último valor apresentado. Esse mesmo patamar de reajuste de 4,5% seria aplicado também sobre o valor do benefício da cesta básica.
O CEO do sindicato das empresas, João Gouveia, justificou a rigidez dos percentuais apontando a crise financeira crônica que atinge o sistema rodoviário municipal: “Temos 11 empresas em recuperação judicial. É importante a gente reiterar a nossa situação, uma vez que o caixa da empresa está sendo afetado significativamente”.
Até o balanço da semana anterior, os representantes dos trabalhadores mantinham a exigência de um aumento salarial na casa dos 17%, sinalizando inclusive com a possibilidade de fracionar o recebimento desse índice em duas parcelas fixas, alternativa que acabou descartada de imediato pelos empresários.
O líder do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, repudiou o novo percentual patronal e enxergou a proposta como um ato de desrespeito à categoria: “Uma proposta dessas, de 0,11%, depois de gente suspender a greve e atender a um apelo do tribunal, não parece de boa fé”. Ele explicou ainda que os trabalhadores só vão avaliar o índice nesta terça-feira (7), a partir das 16h, durante uma assembleia geral, garantindo que a frota de ônibus circulará sem interrupções pelas ruas até a deliberação.
O magistrado responsável por coordenar a sessão, desembargador Gustavo Tadeu Alkmim, fez um alerta e pontuou que, na mesa de discussão anterior, o Rio Ônibus havia sinalizado com uma contraproposta que seria financeiramente mais robusta: “Me preocupa muito retomarmos o estado de coisas da semana passada, um estado de embate que ninguém sai ganhando. Todos saem prejudicados”. Diante do impasse, o desembargador sugeriu formalmente uma taxa de 5% para tentar selar o acordo.
João Gouveia rebateu alegando que o teto financeiro permitido pelas empresas, no momento, estaciona nos 4,5%, alegando que o setor está arrecadando menos do que no ano de 2023 e que a equação contábil não se sustenta. Apesar das divergências operacionais, o braço patronal assumiu o compromisso de realizar um alinhamento interno nesta terça-feira, abrindo margem para formular e apresentar uma nova proposta formal ao longo da próxima quarta-feira.
Toda a audiência na assembleia pode ser assistida aqui.
Relembre a greve
Os motoristas de ônibus do Rio de Janeiro anunciaram que entraram em greve na segunda-feira (29). A decisão foi divulgada pelo Sindicato dos Rodoviários após a categoria rejeitar a proposta apresentada pelas empresas de transporte e alegar falta de avanço nas negociações trabalhistas.
A greve perdurou até o dia 01 (quarta-feira), e teve um recuo por parte dos rodoviários no dia 02 (quinta-feira).
Na última negociação, a única proposta do sindicato patronal, ou seja, as empresas de ônibus, foi um aumento salarial de 4,39%, bem abaixo dos 17% de aumento exigidos pelos rodoviários. Em 2019, oficialmente, a função de cobrador foi extinta, ficando a cargo do motorista dirigir e receber a passagem. No fim de junho, os ônibus deixaram de aceitar dinheiro como pagamento de passagem.
Os rodoviários fazem outras exigências:
- Piso salarial de R$ 5 mil para motoristas do BRT e R$ 4 mil para os demais motoristas;
- Vale alimentação de R$ 1 mil;
- Plano de saúde;
- Mudanças na escala de trabalho e jornada de 7 horas e meia;
- Mudanças na jornada de trabalho para a escala 5×2.
Haverá uma nova assembleia dos rodoviários na sede do sindicato, em Rocha Miranda, na Zona Norte, a partir das 16h desta quarta-feira (01).
A greve entrou no 3º dia sob uma determinação judicial que determina 80% da frota de ônibus na cidade. Nesta quarta-feira, passageiros voltaram a relatar demora nos pontos e terminais. Se a greve se estender até quinta-feira (02), será a maior greve da história dos rodoviários no Rio de Janeiro.
O município conta com cerca de 3.800 coletivos, e 80% desse contingente equivale a aproximadamente 2.900 carros. Às 7h, o Rio Ônibus, sindicato que representa as viações, afirmou que apenas 1.650 veículos estavam rodando, ou seja, não chegando nem a 50% da frota.
No 3º dia de paralisação, TRT determina que 80% da frota circule no Rio, o que até o momento da publicação desta matéria, não está acontecendo.
Veja os números:
- Total da frota: 3.835 ônibus
- Quantos devem rodar, segundo a Justiça: (80%) – Cerca de 2900 ônibus
- Quantos estavam rodando, de acordo com as viações, às 7h: 1.650 (~45%) [às 6h eram 1.500, ou ~41%]
No BRT, entre 6h e 7h, 502 dos 541 articulados (92% da operação) estavam rodando nos corredores, segundo a MOBI-Rio.
O que diz o Rio Ônibus
Em nota, o Rio Ônibus afirmou que já garantiu aos trabalhadores um reajuste salarial de 4,39%, independentemente das negociações que estão em curso.
Em outro trecho da nota, no entanto, o sindicato patronal afirmou que o percentual determinado pela Justiça, de 80% da frota, não foi alcançado.
Os culpados, segundo o Rio Ônibus, são o “descaso do sindicato dos rodoviários– que não enviou as escalas aos motoristas” e os “baderneiros que estão vandalizando coletivos e agredindo os profissionais que resolveram trabalhar”.
“O compromisso do Rio Ônibus é, acima de tudo, com os passageiros. Trabalhamos com total transparência e, ao contrário do que afirma a Prefeitura do Rio, os nossos dados já eram públicos e acessíveis a todos, inclusive à imprensa e à própria Prefeitura, muito antes da implantação do Jaé e do fim do dinheiro a bordo. O que não acontece com a Mobi-Rio, cujos dados não são disponíveis para consulta em tempo real. Mais uma vez, pedimos aos motoristas que se dirijam às garagens e retornem ao trabalho imediatamente. A população carioca precisa ser atendida.”, diz o trecho final da nota do Rio Ônibus.
O que diz o sindicato dos rodoviários
O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, afirmou que “ficou surpreso” com o pedido de liminar da prefeitura no TST.
“Tomamos conhecimento no fim da noite de ontem [terça] da posição do presidente do TST cassando a liminar de regularidade da greve da categoria aqui no Rio de Janeiro”, disse.
“Essa decisão é um prêmio para a direção do Rio Ônibus, que, mesmo sentada na mesa de negociação, vem se negando a apresentar uma proposta em relação às reivindicações do sindicato para atender os trabalhadores. Não nos resta alternativa a não ser cumprir a liminar, até porque lei é para ser cumprida e não discutida”, declarou.
A greve até aqui
Os rodoviários decidiram pela greve na noite de domingo (28) e cruzaram os braços à 0h de segunda-feira (29). O movimento teve início já sob uma liminar que determinava a circulação mínima de 50% da frota, mas pela manhã nem 1.000 ônibus haviam deixado as garagens, segundo as viações, que também relataram o vandalismo de 50 veículos em piquetes.
Ao longo de toda a segunda-feira, os pátios das empresas de ônibus ficaram lotados, com grande parte da frota retida. À tarde, no Terminal Alvorada, do BRT, a espera prolongada levou passageiros a descer para a calha exclusiva do sistema, numa tentativa de embarcar mais rapidamente após longos períodos de fila.
Na terça-feira, segundo dia da paralisação, houve aumento da quantidade de ônibus em circulação, mas ainda abaixo dos 50% previstos na decisão judicial. No fim da manhã, representantes das empresas e dos trabalhadores se reuniram com juízes do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1), mas o encontro terminou sem acordo.
Do lado de fora do tribunal, rodoviários discutiram com diretores do próprio sindicato depois que uma primeira votação apontou para a decretação de “estado de greve”, o que implicaria a retomada do trabalho. Uma nova consulta foi feita, e a categoria decidiu manter a paralisação. Mesmo com o impasse, manifestantes depredaram ao menos 15 ônibus em protesto.
À noite, passageiros voltaram a enfrentar dificuldades para retornar para casa em diferentes regiões da cidade. No Terminal Gentileza, na Região Portuária, o intervalo entre os coletivos chegou a 1h30. Em dias sem paralisação, a espera no local costuma ser de, no máximo, 15 minutos.















































































































