Antes da Mega-Sena existia a Roda da Fortuna da Misericórdia: a Santa Casa do Rio tinha sua própria loteria


Complexo histórico da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, fundada em 1582, na rua Santa Luzia, no Centro do Rio / Foto: Leonardo Martins – Instagram @meurioeassim

“Hoje anda a roda.”

Quem lesse essa frase nos jornais do Rio de Janeiro – inclusive no DIÁRIO DO RIO impresso – há quase dois séculos sabia exatamente o que ela significava: era dia de sorteio da loteria da irmandade da Santa Casa da Misericórdia.

Muito antes da Mega-Sena, das raspadinhas e das casas lotéricas – e das bets – os cariocas tinham um jogo – pra fazer aquela fezinha – que hoje parece quase inacreditável. A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro possuía e operava loterias concedidas oficialmente pelo poder público, anunciadas diariamente nos jornais e aguardadas com ansiedade por gente de todas as classes sociais.

A chamada Roda da Fortuna da Misericórdia movimentava a cidade. Comerciantes, funcionários públicos, artesãos, caixeiros, marinheiros e muitos outros sonhavam com o prêmio que poderia mudar suas vidas. Quem tinha mais dinheiro comprava um bilhete inteiro. Quem não podia fazia como tantos outros: adquiria apenas um meio, um quarto, um oitavo ou até um vigésimo de bilhete.

A descoberta pode surpreender muitos leitores e parecer inusitada, mas está fartamente documentada em decretos oficiais, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e em publicações da época, como o próprio DIÁRIO (abaixo). Mais do que uma curiosidade, ela revela um capítulo praticamente esquecido da história do Rio de Janeiro.

Reprodução de uma página do Diário do Rio de Janeiro, primeiro jornal impresso do país, do século XIX, com anúncios da loteria da Santa Casa / Reprodução da Hemeroteca Digital da BN

A loteria era mesmo da Santa Casa?

Era.

E essa talvez seja a parte mais surpreendente de toda a história.

Ao contrário do que muitos imaginam hoje, a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro não vivia apenas de seus aluguéis ou de doações de benfeitores e verbas testamentárias: a irmandade também não recebia apenas uma doação eventual proveniente de jogos. Ela possuía e operava loterias oficiais concedidas oficialmente pelo Estado.

Um dos documentos localizados durante esta pesquisa é o Decreto nº 92, de 25 de outubro de 1839, que concede mais uma loteria à instituição. A palavra “mais” faz toda a diferença.

Ela demonstra que aquela não era a primeira concessão. A Santa Casa já explorava loterias anteriormente. Outro ato oficial, de 1837, já tratava da destinação de recursos provenientes dessas extrações.

Ou seja: quando o decreto de 1839 foi publicado, a Roda da Fortuna da Misericórdia já girava havia algum tempo e era parte integrante do cotidiano e dos sonhos e anseios dos cariocas e brasileiros.

“Hoje anda a roda”

Os jornais da época ajudam a reconstruir o ambiente vivido pelos cariocas.

Anúncios como estes apareciam com frequência:

“Hoje anda a roda da Loteria da Santa Casa da Misericórdia.”

Em outras edições lia-se:

“Acham-se à venda bilhetes inteiros, meios, quartos, oitavos e vigésimos…”

Também aparecem referências à 54ª Loteria da Santa Casa da Misericórdia, demonstrando que os sorteios eram periódicos e amplamente conhecidos pelo público.

Outra notícia informa que determinada extração ocorreria no próprio Consistório da Santa Casa, reforçando a ligação direta da instituição com o funcionamento da loteria. O Consistório é a imponente Sala de Reuniões – hoje os irmãos chamam o enorme salão com o brasão da Misericórdia e a imagem de Nossa Senhora e a imponente mesa de reuniões de 45 lugares de “Salão Nobre” – que fica no palácio da rua Santa Luzia, sede da instituição.

Os anúncios eram simples. Mas bastavam poucas palavras para mobilizar uma cidade inteira.

Muito mais do que um hospital

Para entender por que a Santa Casa possuía uma loteria é preciso compreender a dimensão da instituição – se ela é grande hoje, no Século XIX era sem dúvida uma das maiores instituições brasileiras.

Desde o período colonial, ela era muito mais do que um hospital.

Os irmãos da Misericórdia — identificados por seus tradicionais balandraus pretos com capuz e pela cruz da irmandade — administravam uma vasta rede de assistênciAlém do atendimento hospitalar, a instituição acolhia crianças, socorria pessoas pobres, realizava sepultamentos gratuitos e mantinha diversas obras de misericórdia, em uma época em que praticamente não existia um sistema público de assistência social. Também operavam 9 entre cada 10 enterros de cariocas em algum dos Cemitérios que foram por ela geridos desde os primórdios até o ano de 2014.

Manter tudo isso exigia recursos permanentes que iam além das centenas de doações recebidas todos os anos e que geraram um patrimônio vastíssimo.

A loteria tornou-se uma das formas encontradas à época para conseguir ajudar a instituição a financiar essa missão iniciada pelo padre José de Anchieta, seu fundador.

Quem comprava um bilhete sonhava com a riqueza. Mas também ajudava, ainda que indiretamente, a sustentar uma das maiores obras beneficentes do país.

Bilhetes para todos

A pesquisa revelou outro aspecto curioso. A Santa Casa democratizou a aposta. Nem todos precisavam (ou podiam) comprar um bilhete inteiro para fazer sua fezinha.

Era possível adquirir:

  • um bilhete inteiro;
  • meio bilhete;
  • um quarto;
  • um oitavo;
  • até um vigésimo.

Era uma forma de permitir que praticamente qualquer pessoa pudesse participar da extração, e assim indiretamente olaborar com orfanatos, educandários, e, principalmente, a manutenção dos hospitais da instituição que hoje tem como provedor o juiz Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense.

Em outras palavras, o sonho também podia ser comprado em pequenas parcelas.

Nem a República acabou com a loteria

Seria natural imaginar que a Proclamação da República tivesse encerrado imediatamente esse sistema. Mas aconteceu exatamente o contrário.

Pouco mais de um mês depois da mudança de regime, o Governo Provisório publicou o Decreto nº 65-A, de 16 de dezembro de 1889, preservando as loterias concedidas à Santa Casa. A instituição mantinha ainda no regime republicano alta credibilidade, e importância na sociedade.

Em 1895, o Decreto nº 1.941 voltou a disciplinar o tema.

Já o Almanak Laemmert de 1897 registra a Santa Casa como beneficiária de cem contos de réis provenientes do sistema lotérico.

Esses documentos mostram claramente que a loteria atravessou o fim do Império e continuou existindo durante a República, mantendo-se como uma das formas de gerar recursos para as obras de misericórdia da irmandade, que tinha também serviços financeiros como caderneta de poupança e conta corrente.

A Santa Casa continua escrevendo sua história

Embora a Roda da Fortuna tenha desaparecido, a instituição que ela ajudava a financiar permanece em atividade.

Hoje, a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro continua realizando cerca de 13 mil atendimentos médicos por mês, mantém o Hospital Geral, o Hospital Nossa Senhora da Saúde, na Gamboa, o Educandário da Misericórdia, em Botafogo, instituições de longa permanência para idosos em Jacarepaguá e Cascadura, além de participar, em parceria com a Prefeitura do Rio e o Viva Rio, do atendimento a centenas de pessoas em tratamento contra a dependência química. As antigas obras de misericórdia mudaram ao longo dos séculos, mas nunca desapareceram. Se entidades de assistência igualmente históricas como a Sociedade de Beneficência Portuguesa e a Beneficência Espanhola quebraram e ficaram pelo caminho, a Santa Casa permanece ativa, e passando neste momento por uma grande revitalização pelas mãos de Horta e seu time de notáveis hoje à frente da Irmandade.

Uma tradição que sobrevive

Se a loteria da Santa Casa parece uma curiosidade distante para os cariocas, basta atravessar o Atlântico para perceber que a ideia nunca desapareceu completamente.

Em Portugal, um país que desde 1974 vem tendo todo tipo de espectro político à frente de seus governos, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa continua administrando importantes jogos sociais nacionais. A arrecadação financia projetos nas áreas da saúde, assistência social, educação e esporte.

De certa forma, a velha Roda da Fortuna continua girando.

Não mais nas ruas do Rio de Janeiro, mas preservando uma tradição que ajuda a compreender um capítulo pouco conhecido da história carioca.

E talvez essa seja a maior surpresa desta pesquisa.

Durante boa parte do século XIX, milhares de moradores do Rio compraram bilhetes da loteria da Santa Casa sem imaginar que, além de perseguirem um sonho de fortuna, ajudavam a manter uma instituição que, séculos depois, continuaria praticando as obras de misericórdia que lhe deram origem.

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