Fundado por Dom Pedro II, Colégio João Alfredo preserva mais de 150 anos de história na educação pública do Rio


Colégio Estadual João Alfredo (Foto: Marcio Curvello / Diário do Rio)

Poucas escolas do Rio de Janeiro carregam uma história tão rica quanto a do Colégio Estadual João Alfredo, em Vila Isabel. Fundada em 14 de março de 1875 por Dom Pedro II, a instituição nasceu como Asilo dos Meninos Desvalidos e tornou-se um marco da educação profissional no Brasil, unindo ensino regular e formação em ofícios décadas antes da criação das atuais escolas técnicas.

Mais de um século e meio depois, o tradicional prédio da Avenida 28 de Setembro continua em atividade, formando estudantes da rede estadual e preservando um dos mais importantes patrimônios da educação pública fluminense.

Uma iniciativa pioneira do Império

As origens da instituição remontam às reformas educacionais promovidas durante o Segundo Reinado. Em 1851, o governo imperial iniciou mudanças no ensino primário que seriam regulamentadas três anos depois por Dom Pedro II. A proposta era ampliar o acesso à educação pública e oferecer formação profissional, especialmente para crianças em situação de vulnerabilidade social.

Para colocar esse projeto em prática, o então ministro do Império, João Alfredo Corrêa de Oliveira, adquiriu, em 1873, um terreno na antiga Rua do Macaco, atual Avenida 28 de Setembro, onde seria instalado o Asilo dos Meninos Desvalidos. O regulamento da instituição, aprovado em janeiro de 1875, estabelecia uma proposta inovadora para a época: acolher meninos entre seis e doze anos, oferecendo não apenas alfabetização e ensino primário, mas também capacitação profissional.

A inauguração ocorreu em 14 de março de 1875 e contou com a presença do imperador Dom Pedro II. Um relato curioso preservado pela história registra que, ao fim da solenidade, o monarca convidou os presentes para um brinde com um copo de água gelada, costume adotado em cerimônias oficiais do período imperial.

O edifício também chamava atenção pela arquitetura. Considerado moderno para os padrões do século XIX, possuía dormitórios, salas de aula, oficinas, lavanderia e um sistema de ventilação natural inovador, capaz de manter os ambientes mais frescos durante o verão e mais confortáveis nos períodos de frio — um diferencial raro nas construções públicas da época.

A proposta pedagógica ia além da sala de aula. Enquanto aprendiam as disciplinas tradicionais, os estudantes recebiam formação em marcenaria, tipografia, alfaiataria, sapataria, serralheria e outros ofícios, preparando-se para ingressar no mercado de trabalho ainda na juventude. A instituição também oferecia assistência médica gratuita aos internos, prestada pelo médico João Joaquim Pizarro, reforçando seu caráter social.

Reconhecimento que atravessou fronteiras

A qualidade do ensino rapidamente transformou o Asilo dos Meninos Desvalidos em referência nacional. Os trabalhos produzidos por seus alunos conquistaram medalhas de ouro em importantes exposições internacionais realizadas em Paris, em 1900 e 1904, além de novas premiações em 1908 e do Grande Prêmio da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, em 1922. O reconhecimento demonstrava que a formação oferecida pela instituição já alcançava padrões comparáveis aos de escolas profissionais europeias.

Entre os estudantes que ajudaram a construir esse legado está João Baptista da Costa. Interno do antigo Asilo ainda na infância, ele retornou anos depois como professor de Desenho. Em 1898, venceu a Exposição de Desenho da República, conquistando uma viagem de aperfeiçoamento artístico à Europa. Tornou-se um dos maiores paisagistas brasileiros e, posteriormente, diretor da Escola Nacional de Belas Artes, sendo até hoje o ex-aluno mais ilustre da instituição.

O funcionamento da escola também contou com personagens fundamentais, como o médico Rufino Augusto de Almeida, primeiro diretor do Asilo, responsável por organizar os anos iniciais da instituição e colocar em prática um projeto educacional considerado revolucionário para o Brasil do século XIX.

Um patrimônio vivo da educação carioca

Em 1910, o Asilo dos Meninos Desvalidos passou a se chamar Instituto Profissional João Alfredo, em homenagem ao ministro responsável pela criação da instituição. Ao longo das décadas, acompanhou as transformações da educação pública até tornar-se o atual Colégio Estadual João Alfredo.

Hoje, parte do histórico edifício abriga o Instituto de Geriatria e Gerontologia, enquanto a escola continua funcionando no mesmo endereço, preservando sua arquitetura e mantendo viva uma tradição iniciada há mais de 150 anos.

O Colégio Estadual João Alfredo representa um capítulo fundamental da educação brasileira. Sua trajetória reúne inovação, inclusão social, excelência acadêmica e personagens que ajudaram a construir a história da cultura e do ensino no país, consolidando a instituição como um dos maiores patrimônios educacionais do Rio de Janeiro.

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