Entre rivalidade e preconceito, a Argentina merece ser vista pelo futebol


Foto: Berlination/WikiMediaCommons

por Cristina Rigitano, jornalista

E a Argentina, hein? Que inveja… Só um dos mais poderosos e destrutivos sentimentos humanos seria capaz de demonizar um escrete que, além do talento incontestável de um gênio da bola, tem sangue correndo nas veias para virar jogos e representar em campo toda a grandeza de um povo.

A diferença entre os jogadores brasileiros e nossos hermanos começa na execução do Hino Nacional. Enquanto os meninos daqui, liderados pelo velho menino Ney, pareciam mascar os chicletes roubados do treinador para driblar a letra difícil e não se afogar às margens do Ipiranga, Messi e sua turma, como num juramento de glória ou morte, urram em transe o cântico de louvor que exalta a independência, a liberdade e a soberania da sua nação.

Às vésperas do jogo contra a Inglaterra, um tsunami de indignação varreu as redes sociais, com sentença e castigo aos argentinos: povo racista, jogadores omissos ao racismo, que apoiam o trio Trump–Netanyahu–Milei; time beneficiado pelo VAR do Infantino… E ai de quem torcer por eles!

Era só o que me faltava… Já sou obrigada a tanta coisa — e vou driblando o que querem me enfiar goela abaixo! E agora mais essa: vão me dizer pra quem devo ou não torcer?

A rivalidade é motivo suficiente para que brasileiros torçam para a Argentina voltar pra casa chupando o dedo. Respeito. Da mesma forma que eu, tricolor, se o Flamengo jogar com o time do inferno, sou Inferno Futebol Clube até morrer!

No início do século passado, o Fluminense não permitia a entrada de negros na sua aristocrática sede das Laranjeiras. Mas esse passado racista não pesou na minha escolha pelo pó de arroz. Eu não preciso renegar minha paixão futebolística para provar que sou absolutamente contra o racismo.

Na Copa e a todo tempo, assistimos a demonstrações de racismo de argentinos, mas não só deles. E nós, brasileiros, não somos racistas? Na Argentina, negros não são mortos por seguranças de supermercados… E os espanhóis, que hoje disputam com eles a final, por acaso são exemplo de conduta? Também não vejo coerência em quem torceu pelos ingleses na semifinal. Quem traficava africanos para a América? E os estragos que os ingleses fizeram no continente africano? Ué? Isso não conta?

E hoje, na final, nós, latino-americanos, vamos esquecer o que passamos em Barajas? Vamos apagar o que fazem com o Vini Júnior? E o extermínio das civilizações incas, astecas e maias? E o extermínio e a expulsão dos judeus da Península Ibérica? E a Inquisição?

Ah, mas os argentinos exterminaram os negros… Os historiadores desmentem. Em artigo publicado sobre a população negra na Argentina, a historiadora americana negra Erika Edwards questiona o mito de que a Argentina é um país “branco” e mostra que a população afro-argentina teve um papel importante em sua formação histórica. Erika explica que, durante o período colonial, 200 mil africanos escravizados desembarcaram nas margens do Rio da Prata. No final do século 18, havia uma presença significativa de pessoas negras, muitas delas escravizadas, especialmente em Buenos Aires, onde um terço da população era negra. Edwards conta que existem vários mitos que supostamente “explicam” a ausência de argentinos negros. O mais popular é o de que homens negros foram usados como “bucha de canhão” e mortos em massa durante as guerras do século 19. “Os exércitos revolucionários recrutaram pessoas escravizadas para lutar nas guerras de independência da Argentina (1810–1819) contra as forças espanholas, prometendo-lhes a liberdade após cinco anos de serviço.

Mas, em vez de morrerem no campo de batalha, muitos desertaram. Registros militares mostram que, em 1829, a unidade argentina Quarto Batalhão de Caçadores (Fourth Cazadores) perdeu 31 soldados em combate e 802 por deserção. Alguns desses homens mudaram-se para o norte, para Lima, no Peru”, conta Edwards. Dados censitários de Buenos Aires revelam que a população de ascendência africana mais do que dobrou entre 1778 e 1836.

No século 19, líderes e intelectuais argentinos construíram a narrativa de que a Argentina precisava ser civilizada seguindo os moldes das nações europeias, deslocando sua população negra física e culturalmente. E este “branqueamento” foi bem-sucedido com a ajuda da imigração em massa de brancos europeus.

Assim, não apenas a ideia de que a Argentina é uma nação branca é incorreta, como também ela revela uma longa história de apagamento da população negra no centro da construção da identidade nacional.

Edwards ressalta que pesquisas mais recentes vêm mostrando que a população afrodescendente continua presente na Argentina, ainda que por muito tempo tenha permanecido invisibilizada.

Já o historiador argentino Leandro Benmergui, diretor do curso de História da Universidade Estadual de Nova York, que tem importante trabalho sobre a América Latina, lembra que as Copas do Mundo sempre foram muito mais do que um torneio esportivo. “Nelas estão em jogo narrativas sobre a nação, o orgulho coletivo, a masculinidade e o pertencimento. O futebol tem sido, historicamente, um dos espaços privilegiados de construção das identidades nacionais, e essas identidades nunca são neutras: são atravessadas por questões de raça, gênero, classe e memória histórica”, diz.

Leandro acredita que as redes sociais amplificam as paixões próprias do nacionalismo esportivo e privilegiam afirmações categóricas, estereótipos e indignação, em detrimento da análise histórica. “Países inteiros acabam reduzidos a rótulos simplificadores — ‘racistas’, ‘civilizados’, ‘europeus’, ‘mestiços’ — que dizem tanto sobre as rivalidades do presente quanto sobre processos históricos muito mais complexos”, diz. Para Benmergui, o problema é que, em meio a essa dinâmica, os matizes desaparecem. “Fala-se muito pouco sobre como as relações raciais foram historicamente constituídas em cada país, sobre as diferentes trajetórias da escravidão, das migrações, das políticas estatais ou das maneiras pelas quais cada sociedade construiu suas narrativas sobre a nação e a diversidade. É significativo que, em um debate de enorme intensidade pública, tenham sido relativamente poucas as vozes de historiadores, sociólogos e antropólogos capazes de oferecer esse contexto”, afirma.

Benmergui diz que as acusações trocadas entre torcidas e usuários das redes sociais não devem ser confundidas com uma análise das sociedades. “Expressam, antes de tudo, como o nacionalismo esportivo ativa mecanismos de identificação e diferenciação que frequentemente se apoiam em estereótipos raciais e de gênero. Compreender esse fenômeno exige menos indignação imediata e mais perspectiva histórica. Só assim é possível distinguir entre os preconceitos que efetivamente existem em todas as nossas sociedades e as simplificações produzidas pelas lógicas virais das plataformas digitais”, afirma.

Enfim, muitos argentinos são racistas e se sentem à vontade para sê-lo porque o racismo não é criminalizado na Argentina. Os absurdos que muitos torcedores idiotas vêm promovendo nas arquibancadas devem ser punidos, e o racismo deve ser amplamente combatido e discutido. A FIFA não pode se fazer de morta; os jogadores argentinos deveriam se posicionar. Ainda assim, voltando ao futebol, como não se emocionar com o show de bola que os hermanos têm dado? Temos que admitir: os argentinos são insuportavelmente talentosos. Estou encantada e vou torcer por eles. Quem quiser que torça contra. Mas Maradona não é melhor que Pelé…

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