‘Menino do Rio’: o clássico que imortalizou a juventude carioca dos anos 1980


André de Biase e Cláudia Magno estrelaram ‘Menino do Rio’, clássico dos anos 80. Foto: Divulgação

O filme Menino do Rio, gravado em 1981 e lançado em 1982, é um clássico do cinema nacional dirigido por Antônio Calmon, que retrata o estilo de vida, o surfe e o espírito livre da juventude da Zona Sul carioca do início dos anos 1980. O longa produzido por Lucy e o recentemente falecido cineasta Luis Carlos Barreto (Barretão), se tornou um símbolo de uma geração e revelou o comportamento de jovens que buscavam liberdade, contato com a natureza e uma vida sem amarras.

A trama gira em torno de Valente (André de Biase), um jovem surfista que fabrica pranchas e também pratica voo livre na Praia de São Conrado. Durante um luau na paradisíaca Praia de Saquarema, ele conhece Patrícia (Cláudia Magno), uma jovem modelo pertencente à alta sociedade carioca. Os dois se apaixonam e enfrentam diversos obstáculos para viver esse romance.

Entre os conflitos, está o preconceito social da família rica de Patrícia e a oposição de Adolfinho (Ricardo Zambelli), o noivo aristocrata escolhido pelo pai da moça (Rogério Froes) por interesses financeiros. O grande choque da história acontece quando Valente descobre que Patrícia guarda um passado complexo: ela mantinha um romance secreto com Braga (Adriano Reys), que é pai de Valente.

Além do romance, o filme também retrata a amizade e o estilo de vida da chamada “tribo” do surfe. Entre os personagens, está Pepeu (Ricardo Graça Mello), um adolescente que foge de Florianópolis (SC), para o Rio com o sonho de ser artista e que vai morar e trabalhar com Valente na oficina de pranchas. A turma também conta com personagens como o fotógrafo Zeca (Sérgio Mallandro) que vive em sintonia com a natureza, festas na praia e esportes radicais.

Evandro Mesquita e Cissa Guimarães também participam do longa e vivem personagens que moram em um barco na Marina da Glória, no Centro do Rio. O filme ainda passeia pela cidade dos anos 1980, revelando paisagens da Zona Sul, como Arpoador, Ipanema, Leblon e São Conrado, além de registrar os primórdios da ocupação da Barra da Tijuca, hoje na Zona Sudoeste do Rio. Mais de quatro décadas depois, esses cenários ajudam a transformar Menino do Rio em um documento histórico da cidade.

O verdadeiro “Menino do Rio“

O roteiro do filme também está ligado a um dos grandes clássicos da MPB: “Menino do Rio”, canção composta por Caetano Veloso e eternizada na voz de Baby do Brasil (na época, Baby Consuelo). A música, lançada em 1980, inspirou o longa e homenageava um personagem real da contracultura carioca: José Artur Machado, conhecido como Petit, surfista que marcou o bairro de Ipanema nos anos 1970.

Petit frequentava o Píer de Ipanema, ponto de encontro dos jovens durante a ditadura militar, onde circulavam artistas como Caetano Veloso, Baby do Brasil e Gal Costa. As dunas que surgiram ao lado do Píer ficaram conhecidas como Dunas da Gal, em referência à cantora, uma das primeiras a frequentar o local.

Bronzeado, cabeludo, praticante de jiu-jitsu e modelo nas horas vagas, Petit se tornou símbolo de uma juventude da época. A inspiração para a música teria surgido após encontros de Caetano com o surfista e com Rélson Gracie. A canção ganhou ainda mais popularidade ao ser escolhida como tema de abertura da novela Água Viva, da TV Globo.

A trajetória de Petit, porém, teve um desfecho trágico. Na madrugada de 29 de agosto de 1987, ele sofreu um grave acidente de moto e ficou em coma por 40 dias. Apesar de sobreviver, ficou com sequelas que afetaram o lado direito do corpo, o rosto e a boca. Longe do mar e da rotina intensa que marcou sua vida, passou a enfrentar um período de isolamento e depressão.

Quase dois anos depois, em 7 de março de 1989, aos 32 anos, José Artur Machado morreu. O surfista inspirou a canção e ajudou a criar o imaginário do “Menino do Rio”.

De Menino do Rio para Garota Dourada

O sucesso Menino do Rio (1982) ganhou uma continuação dois anos depois com Garota Dourada (1984), que tambem foi dirigido por Antônio Calmon. O filme retomou o personagem Valente, interpretado por André de Biase, e manteve a temática que marcou o primeiro longa. A produção também contou novamente com nomes do elenco original, como Cláudia Magno, reforçando a ligação entre as duas histórias.

Enquanto Menino do Rio tinha como pano de fundo a as praias cariocas, Garota Dourada levou essa geração para novos cenários, com destaque para o litoral de Santa Catarina.

Quando Antônio Calmon levou o espírito de Menino do Rio para a TV

Lançada em 1985, quando o regime militar dava seus últimos suspiros e o país vivia a fase da redemocratização, ‘Armação Ilimitada’ captou a ânsia de liberdade que tomava conta do Brasil. Apesar de a censura ainda existir, os criadores da série buscaram romper padrões e levar para a TV temas e comportamentos até então pouco explorados. O resultado foi um dos programas mais inovadores da televisão brasileira. A ousadia já estava no trio de protagonistas: dois jovens Juba (Kadu Moliterno) e Lula (André de Biase) que dividiam, de forma natural e sem conflitos, a mesma namorada, Zelda Scott (Andréa Beltrão), uma referência ao clássico francês Jules et Jim (1962), de François Truffaut. Com informações do site Memória Globo.

Criada por Antonio Calmon e dirigida por Guel Arraes, Armação Ilimitada foi exibida pela TV Globo entre 1985 e 1988, teve 40 episódios.

O Morro da Urca da geração de ‘Menino do Rio’

Na década de 1980, o Morro da Urca tornou-se um dos principais polos da vida cultural do Rio com o Noites Cariocas, projeto criado por Nelson Motta em 1980. Realizado no anfiteatro do morro, com acesso pelos bondinhos do Pão de Açúcar, o espaço se tornou um dos endereços mais disputados da cena musical carioca.

Ao longo da década, o Noites Cariocas teve apresentações de bandas como Blitz, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e RPM. O projeto tornou o Morro da Urca um símbolo da vida noturna do Rio, permanecendo como uma referência do rock nacional até o fim de sua primeira fase, em 1990.

O Circo Voador e a efervescência cultural dos anos 1980

Outro símbolo da juventude carioca dos anos 1980 é o Circo Voador, que nasceu no mesmo cenário praiano retratado em Menino do Rio. A lona azul e branca foi montada pela 1ª vez em janeiro de 1982, na praia do Arpoador, em Ipanema, zona sul do Rio, reunindo música, teatro e manifestações artísticas e circenses.

Após a temporada no Arpoador, o Circo Voador ganhou endereço definitivo na Lapa, no Centro do Rio, em outubro daquele mesmo ano, tornando-se um dos principais palcos da música brasileira e da nova cena do rock nacional. O espaço ajudou a revelar e consagrar artistas como Blitz, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso.

Um retrato inesquecível dos anos 1980

Na mesma época, outros acontecimentos ajudavam a definir a identidade cultural da década. A Fluminense FM, conhecida como “A Maldita”, consolidava-se como a principal rádio do rock nacional. Na televisão, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, estreava o Cassino do Chacrinha na TV Globo, programa que se tornaria uma das maiores vitrines para os novos talentos da MPB.

Mais de 4 décadas depois, Menino do Rio continua a ser muito mais do que um clássico do cinema nacional. O filme preserva um Rio em transformação, eterniza paisagens, costumes e personagens que ajudaram a construir o imaginário da juventude carioca dos anos 1980. Entre eles está Cláudia Magno, protagonista do longa, cuja morte precoce, em 1994, aos 35 anos, interrompeu uma carreira promissora, mas não apagou seu lugar na memória de uma geração.

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