Ventania de mais de 100 km/h expõe gargalos na resposta preventiva e no protocolo do Rio de Janeiro


Foto: Reprodução

Na última quarta-feira (29/07), uma forte ventania atingiu o Rio de Janeiro, que acarretou em inúmeros problemas na cidade. Quedas de árvores, postes, telhas, falta de energia, entre outros muitos problemas. Os ventos pegaram os cidadãos do estado de surpresa, gerando dúvidas como “que vento é esse?” ou “de onde veio esse vento todo?”

Havia uma previsão para a chegada de fortes rajadas de vento ao Rio, e ela foi antecipada no estado vizinho: São Paulo.

A mesma frente fria atingiu o litoral paulista antes do meio-dia de ontem (29/07). O governo de São Paulo havia reunido as defesas civis municipais na véspera (28/07). O município do Rio não passou do Estágio 2 – em que ainda não há impactos na rotina do carioca, porém, a população precisa se manter informada.

Na terça-feira, 28 de julho, um dia antes de a frente fria chegar ao Sudeste, a Defesa Civil do Estado de São Paulo reuniu as defesas civis regionais e municipais para apresentar o cenário meteorológico, revisar protocolos de atendimento e antecipar a mobilização das estruturas locais.

Na manhã de quarta-feira (29/07), com o céu ainda ensolarado, o governo paulista acionou o Gabinete de Crise em modalidade presencial, reunindo todas as secretarias estaduais, concessionárias de energia, órgãos reguladores, polícias e Corpo de Bombeiros. O aviso público era específico: rajadas de até 90 km/h na Região Metropolitana e na Baixada Santista, acima de 70 km/h no restante do estado.

Naquela mesma quarta-feira (29/07), às 16h50, quando as três linhas do Metrô Carioca já estavam paradas havia dez minutos e o Aeroporto Santos Dumont fecharia em dois, o Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura do Rio declarou Estágio 2, o segundo de cinco níveis.

O sinal que vinha pela costa

A frente não chegou aos dois estados ao mesmo tempo. Veio pelo oceano, de sudoeste, e atravessou o litoral paulista primeiro.

Ainda antes do meio-dia, Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, registrava rajada de 103 km/h. Às 13h, a base aérea do Guarujá marcava 72 km/h. Às 14h, o Campo de Marte, na zona norte da capital paulista, registrava 53 km/h com a temperatura despencando de 29 °C para 20 °C em uma hora. Às 14h31, Congonhas marcava 70 km/h.

No Rio, a estação do Inmet na Marambaia só registraria a virada entre 15h e 16h. O Galeão, às 16h28. A rajada máxima da cidade, 105,5 km/h, veio entre 16h e 17h.

Entre o primeiro registro de mais de 100 km/h no litoral paulista e o pico carioca, transcorreram cerca de cinco horas.

O sinal também existia dentro do estado do Rio, ainda que sem medição de severidade. Em Petrópolis, a Defesa Civil disparou SMS à população às 13h. Em Macaé, a Defesa Civil publicou alerta próprio para rajadas acima de 45 km/h. E o alerta do Cemaden-RJ, emitido às 15h30, listava as regiões afetadas em uma ordem que é, ela própria, a rota do sistema: Costa Verde, Sul II, Baixada Fluminense, Metropolitana, Baixada Litorânea e Norte Fluminense.

A Região Metropolitana estava na lista. Uma hora e vinte antes da mudança de estágio.

O que o sinal não dizia

O sinal indicava com segurança que a frente estava chegando e que vinha com vento severo. Não indicava a intensidade que o vento teria no Rio, e, de fato, ela foi maior do que na Grande São Paulo, onde a capital paulista registrou 75,3 km/h contra os 105,5 do Galeão.

A razão é local. Em São Paulo a frente encontrou 29 °C. No Rio, encontrou uma cidade que havia atingido 36,8 °C na estação Barra/Riocentro às 14h45, com umidade de 29% e ponto de orvalho em queda – ar continental seco e extremamente quente. O contraste térmico que gerou o vento carioca foi construído localmente, na própria tarde, e não podia ser lido em Itanhaém.

O que o sinal justificava, portanto, não era previsão precisa. Era posicionamento antecipado, que é o que São Paulo fez na véspera e na manhã, e o que a própria Prefeitura do Rio fez em episódios anteriores. Em 19 de agosto de 2022, a cidade entrou em Estágio de Mobilização às 6h20 com a chegada de uma frente fria; o Forte de Copacabana registraria 88,2 km/h ao longo do dia. Em 11 de agosto de 2022, estava mobilizada desde a madrugada. Em 3 de novembro de 2023, o acionamento se deu por previsão de chuva para as três horas seguintes. Em 8 de novembro de 2025, às 6h55.

Em 29 de julho de 2026, segundo o comunicado oficial, o acionamento se deu “devido ao registro de ventos fortes e muito fortes”.

O teto do Estágio 2

O balanço publicado pelo COR sobre a tarde de quarta-feira lista os maiores registros de vento da cidade. O terceiro item é 91,8 km/h na estação da Marambaia às 16h, reconhecido e publicado pelo próprio órgão, cinquenta minutos antes da mudança de estágio, e vinte por cento acima da faixa que o Sistema Alerta Rio classifica como “muito forte”, em que as rajadas “podem derrubar árvores e causar danos em residências”.

Ainda assim, a cidade parou no Estágio 2.

Para chuva existe porta de entrada automática para o Estágio 3, citada literalmente nos comunicados do COR: “registro de chuva maior que 25mm/30min” em uma única estação. Foi assim em 13 de janeiro de 2024 (Anchieta, 35,2 mm), em 31 de janeiro de 2024 (Ilha do Governador, 28,4 mm) e em 4 de fevereiro de 2024 (Penha, 30,8 mm). Vinte e cinco milímetros em meia hora num bairro bastam para subir a cidade de nível.

Para vento, nenhum comunicado de mudança de estágio localizado por esta reportagem cita parâmetro numérico. E o resultado é que a escala não discrimina intensidade: em 24 de novembro de 2025, com registros de 63,4 km/h no Forte de Copacabana, 56,8 km/h na Marambaia e 53,7 km/h na Base Aérea de Santa Cruz, a cidade estava em Estágio 2. Em 29 de julho de 2026, com 105,5 km/h no Galeão, também. De 53 a 105 km/h, o mesmo nível.

O que o Estágio 3 teria acionado

A diferença entre os níveis não é de rótulo. Um decreto municipal de agosto de 2024, que regula o uso dos parques públicos conforme o estágio operacional, estabelece duas etapas distintas: no Estágio 2, os agentes de operação devem apenas se posicionar nas entradas, “garantindo a prontidão para um fechamento futuro, caso necessário”; a partir do Estágio 3, devem “fechar as entradas e comunicar a necessidade de evacuação de todos os usuários que estiverem no local”.

Na tarde de quarta-feira, o Corpo de Bombeiros atendeu 154 ocorrências de corte de árvore. Os parques municipais não foram objeto de ordem de fechamento e evacuação, porque a cidade permaneceu no nível em que essa ordem não é disparada.

O decreto anterior, de novembro de 2019, previa ainda que é a partir do Estágio 3 que “o COR envia aviso aos órgãos, entidades municipais, cidadãos e imprensa” — dispositivo cuja vigência na redação atual não foi possível confirmar e que foi objeto de pergunta ao órgão.

O que aconteceu

Metrô parado nas três linhas, trens, VLT e barcas suspensos, Ponte Rio-Niterói em comboio, Santos Dumont fechado por quase duas horas com sete voos desviados e sete decolagens canceladas, apagão em pelo menos quinze bairros de todas as zonas. Duzentas e sessenta e quatro ocorrências atendidas pelo Corpo de Bombeiros, das quais 154 cortes de árvore, 31 salvamentos e cinco desabamentos. Dois operários mortos com a queda de um muro em uma obra em Santa Teresa. Um pescador desaparecido em Tarituba, na Costa Verde. Um homem gravemente ferido em Mesquita.

O critério publicado para o Estágio 3 é “impactos na rotina de parte da cidade, que exigem ações de resposta integradas”. O do Estágio 4, “impactos na rotina de grande parte da cidade”.

A primeira recomendação do boletim de Estágio 2, publicado às 16h56, era: que a cidade ainda não sofreu impactos de rotina, porém, a população precisava se manter informada. No mesmo período, o prefeito Eduardo Cavaliere pedia nas redes que a população evitasse deslocamentos não essenciais.

A regra que não é pública

A Prefeitura não afirma que não existe parâmetro de vento, e esta reportagem também não. O que se pode verificar é que ele não está publicado.

A página de critérios do COR, atualizada em fevereiro de 2026, não traz nenhum número. O decreto vigente sobre a matéria é o Decreto Rio nº 53.525, de 15 de novembro de 2023.

E há um precedente que torna a ausência mais difícil de explicar. Em 28 de junho de 2024, a Prefeitura publicou o Decreto Rio nº 54.740, que cria o Nível de Calor: cinco faixas, um índice de calor, uma relação definida entre esse índice e o tempo de exposição, e articulação explícita com a mudança de estágio operacional. O município sabe redigir e publicar um protocolo parametrizado para uma ameaça específica. Fez isso para o calor. Não fez para o vento.

O que dificultava

Não houve chuva: a estação da Marambaia marca 0,0 milímetro nas 24 horas do dia 29. O vento nasceu do contraste entre ar quente e seco e o ar frio que avançava pelo oceano. Nenhum radar meteorológico enxergaria a aproximação.

A previsão errou para todos. O Alerta Rio projetava até 75,9 km/h; observaram-se 105,5. A previsão de aeródromo emitida às 13h15 para o Galeão projetava, no pior cenário temporário, 12 nós*; observaram-se 57. A revisão seguinte do TAF, emitida às 16h30, tinha validade a partir das 21h — não cobriu o evento.

A Marinha também não sinalizou. Os avisos de mau tempo em vigor em 29 de julho cobriam áreas oceânicas entre 28°S** e 36°S. A costa fluminense fica em torno de 23°S. O ponto mais ao norte de qualquer aviso estava cerca de 550 quilômetros ao sul do Rio — ainda que os avisos METAREA V se destinem a áreas oceânicas internacionais, e não à orla urbana.

E a frente não atingiu a cidade de uma vez. Às 16h, com a Marambaia já em regime pós-frontal, o Galeão ainda registrava céu limpo e 33 °C. A margem de antecedência era de quase uma hora na zona oeste e de vinte à trinta minutos no Centro e na Zona Norte.

O acionamento de 2022 se deu às 6h20 com vento menor. O de 2023 se deu por previsão de três horas. E o critério de escalada para o Estágio 3 não depende de previsão: depende de impacto observado, e o impacto observado na quarta-feira foi a paralisação simultânea de quatro modais e o fechamento de um aeroporto.

Nota*: Na aviação, nós (ou knots, em inglês) é a unidade de medida padrão para velocidade. Um nó equivale a 1 milha náutica por hora, o que corresponde a cerca de 1,852 km/h.

Nota**: ºS significa graus de latitude Sul. É uma coordenada geográfica que indica a distância de um ponto em relação à Linha do Equador.

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