
Milhares de pessoas cruzam diariamente o Largo da Carioca – e a rua de mesmo nome – sem imaginar que, poucos metros acima de suas cabeças, está totalmente preservado um dos maiores tesouros históricos e artísticos do Brasil, pertencente a uma irmandade que existe desde o século 17.
O acesso é discreto. Basta entrar pelo número 5 do Largo da Carioca, ao lado do tradicional Convento de Santo Antônio, subir de elevador até o alto do Morro de Santo Antônio e, em poucos segundos, o movimento intenso do Centro dá lugar ao silêncio de um conjunto arquitetônico iniciado há mais de quatro séculos, cercado de impressionantes jardins, e uma vista majestosa da região central. É um marco no Centro do Rio.
Ali estão a impressionante Igreja de São Francisco da Penitência, inteira forrada de ouro e considerada uma das obras-primas do barroco luso-brasileiro, e o Museu Sacro Franciscano, inaugurado em 1933 e reconhecido como o primeiro museu dedicado à arte sacra da América Latina. Pouca gente sabe que o complexo não pertence ao Convento dos monges franciscanos, mas sim a uma irmandade de católicos leigos chamada Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que está sob nova direção desde o mês de julho.
O passeio vai muito além de uma simples visita a um museu. É uma viagem no tempo em meio a um inacreditável silêncio bem no meio do coração pulsante da cidade. O visitante percorre uma sequência de espaços históricos que inclui a monumental igreja revestida de talha dourada, a Capela Primitiva – do século 17 – a sacristia, antigas catacumbas, salas com imaginária, prataria, alfaias, pinturas, mobiliário litúrgico e objetos ligados à tradicional Procissão das Cinzas, realizada pelos franciscanos desde o século XVII.
Um raro patrimônio preservado
Um dos aspectos que mais chama a atenção é justamente o estado de conservação do conjunto.
O contraste entre os dois templos vizinhos é inevitável. A Igreja do Convento de Santo Antônio continua sendo um dos mais importantes centros de devoção franciscana do Rio de Janeiro e recebe diariamente inúmeros fiéis atraídos pela espiritualidade dos frades e pela tradicional distribuição do Pão de Santo Antônio. Inacreditavelmente, poucos vão mais à direita e conhecem a fabulosa obra de arquitetura que é o complexo da Penitência, seu vizinho de parede.
Do ponto de vista artístico, entretanto, o cenário é bastante diferente.
Ao longo das últimas décadas, a igreja conventual passou por intervenções que alteraram significativamente sua configuração histórica. Seus antigos painéis de azulejos foram retirados, o forro original foi substituído por um revestimento moderno em madeira – lambris modernosos – e diferentes elementos contemporâneos passaram a integrar seu interior, em uma obra que permanece inacabada.
Já a Igreja de São Francisco da Penitência preserva de forma notável o projeto artístico concebido entre os séculos XVII e XVIII. A exuberante talha dourada, os altares, a extraordinária pintura ilusionista do teto, a sacristia e os demais ambientes históricos formam um conjunto de rara integridade, comparável aos grandes templos barrocos da Península Ibérica. Só pintura no teto, uma fantasia impressionante em que vemos o céu pintado de forma realista com São Francisco a nos proteger, é de parar e admirar por 15 minutos.
Mais do que visitar uma igreja, a sensação é de entrar em uma autêntica joia da arte europeia preservada em pleno coração do Rio de Janeiro. O templo não deve nada às maiores obras primas de Viena ou do Vaticano, ou mesmo da península ibérica.
Muito além do público religioso
Embora seja um importante local de culto católico, o Museu Sacro Franciscano tem atraído um público cada vez mais diversificado.
Historiadores, arquitetos, estudantes, fotógrafos, artistas, pesquisadores e turistas encontram ali um dos roteiros culturais mais completos do Centro Histórico, reunindo arte, arquitetura, história, religiosidade e curiosidades sobre a formação da cidade.
A decoração da igreja reúne trabalhos de grandes mestres do barroco colonial, como Manuel de Brito, Francisco Xavier de Brito e Caetano da Costa Coelho, autor da célebre pintura em perspectiva do teto da nave, considerada uma das maiores realizações da pintura colonial brasileira.
Também fazem parte do percurso as antigas catacumbas, a Capela Primitiva, inaugurada em 1622, e um acervo que preserva imagens, paramentos, objetos litúrgicos e peças utilizadas durante séculos nas celebrações da Ordem Franciscana.
Serviço
O Museu Sacro Franciscano funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, no Largo da Carioca, nº 5, no Centro do Rio.
O acesso é feito pela mesma entrada utilizada para chegar ao Convento de Santo Antônio. Após passar pela recepção, o visitante sobe de elevador até o alto do Morro de Santo Antônio, onde estão localizados a igreja e o complexo museológico.
Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), disponíveis para compra no local ou no Sympla. Também são oferecidas visitas mediadas para grupos mediante agendamento, também através do Sympla, custando R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).
















































































































