
Há restaurantes que sobrevivem às mudanças da cidade. Outros sobrevivem às mudanças da gastronomia. O Zazá Bistrô Tropical conseguiu algo mais difícil: atravessou quase três décadas fazendo as duas coisas ao mesmo tempo sem perder a personalidade.
Em uma Ipanema onde restaurantes abrem e fecham em ritmo acelerado, a casa inaugurada em 1999 continua exibindo um cartão de visitas que poucos conseguem ostentar: fila na porta praticamente todos os dias da semana. Nem segunda-feira escapa. Terça e quarta são, curiosamente, os dias “mais tranquilos”. Ainda assim, é raro encontrar mesas vazias.
Boa parte dessa longevidade tem nome e sobrenome: Zazá Piereck. Conversando com ela, fica evidente que o restaurante nunca foi pensado para agradar pesquisas de mercado ou algoritmos gastronômicos. “Eu faço para mim. Não faço para o outro”, resume. É ela quem escolhe as músicas, monta as playlists, pinta as paredes quando sente vontade e decide os rumos do cardápio. Não parece estratégia. Parece convicção.
Curiosamente, sua história com a gastronomia começou longe dos fogões. Formada em Administração pela FGV, ela conta que só despertou para a cozinha ao se mudar para São Paulo, aos 17 anos. A primeira receita? Carne moída com banana e arroz com palmito de lata, preparada para dividir com amigas da faculdade. O restaurante também quase teve outro nome: Paraíso São Sebastião. Como já existia um estabelecimento batizado assim, foi o marido quem sugeriu aproveitar o apelido pelo qual a chamava. Nascia o Zazá.
A cozinha continua sendo o maior argumento da casa. Entre as entradas, as croquetas de cordeiro são praticamente obrigatórias. O recheio preserva o sabor intenso da carne — algo cada vez mais raro em receitas que costumam esconder o ingrediente sob excesso de temperos. Crocantes por fora, úmidas por dentro, têm personalidade suficiente para justificar a fama.
Outra ótima surpresa são as folhas de arroz crocantes recheadas de salmão e atum. Leves, frescas e precisas na execução, mostram um lado asiático da cozinha do Zazá que envelheceu muito melhor do que diversas modas fusion surgidas desde os anos 2000.
O restaurante aproveita a temporada para lançar um Festival de Curry, disponível até 14 de agosto e que deve voltar todos os anos. A proposta reúne seis receitas, incluindo uma vegetariana, explorando diferentes interpretações dessa mistura de especiarias tão presente no sudoeste asiático. Em outubro, será a vez de um festival dedicado ao cuscuz marroquino.
Entre os pratos provados, o curry verde talvez seja o mais desafiador. A acidez, o frescor das ervas e as especiarias constroem um conjunto complexo, daqueles em que cada garfada revela um detalhe diferente. Não é exatamente um prato de consenso — e talvez esteja aí sua maior virtude.
Já o camarão ao curry vermelho tailandês com noodles de arroz conversa mais facilmente com quem chega ao Zazá pela primeira vez. Os camarões aparecem no ponto correto, o molho entrega a picância esperada sem atropelar os demais sabores e o conjunto mantém leveza mesmo sendo intenso. É um daqueles pratos em que o molho merece tanta atenção quanto a proteína.
A refeição termina como manda a tradição da casa. O Carpaccio de Banana Brûlée permanece no cardápio desde a inauguração, há 27 anos, e continua sendo um dos maiores acertos do restaurante. Finas lâminas de banana caramelizadas, creme delicado, sorvete de tapioca com coco e canela compõem uma sobremesa que resiste ao tempo sem parecer datada. Não por acaso, divide o posto de queridinha da clientela com a versão de chocolate.
Em 2000, a revista GQ definiu o Zazá como “the coolest place in Ipanema”. Vinte e seis anos depois, a frase continua fazendo sentido, embora talvez por razões diferentes. Hoje o restaurante não impressiona por ser novidade. Impressiona justamente porque nunca precisou correr atrás dela. Enquanto boa parte da gastronomia passou anos perseguindo tendências, Zazá Piereck preferiu cultivar um universo próprio. O resultado está na porta: filas constantes, muitos estrangeiros entre as mesas e um restaurante que parece ter entendido, antes de quase todo mundo, que autenticidade envelhece melhor do que moda.
Serviço:
Endereço: Rua Joana Angélica, 40 – Ipanema, Rio de Janeiro.
Funcionamento: diariamente, das 12h à 00h00.
Reservas: (21) 99530-7173 ou pelo Tagme e Google
Reservas para grupos grandes ou eventos fechados: contato@zazabistro.com.br
Capacidade: 100 lugares (77 em área coberta)
Rolha livre: às terças (outros dias R$75)
Taxa de faca: R$65
Delivery: Rappi
Instagram: @zazabistro















































































































