O diagnóstico que vem do feed: como os vídeos curtos estão transformando sintomas em entretenimento


A hashtag sobre lipedema acumula 580 mil publicações no Instagram e 122 mil no TikTok | Imagem: Reprodução IA

O consumo massivo de vídeos curtos sobre saúde tem levado usuários a buscarem respostas médicas nas redes sociais. A dimensão da busca pelo tema se reflete em números expressivos nas plataformas, onde apenas a hashtag sobre lipedema acumula 580 mil publicações no Instagram e 122 mil no TikTok. Como consequência dessa superexposição, profissionais de saúde têm lidado cada vez mais com uma onda de autodiagnósticos imprecisos. Na psiquiatria, médicos já alertam para a disseminação de diagnósticos equivocados de transtornos mentais, como o Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), impulsionados por reels e posts superficiais nas redes.  

Um dos formatos mais populares e criticados por profissionais da saúde mental é a gamificação da avaliação clínica. Em dinâmicas virais na internet, usuários são convidados a “abaixar um dedo da mão” a cada comportamento que confirmem ter, como procrastinação, desorganização ou timidez. Caso todos os dedos sejam abaixados, o conteúdo sugere, de forma simplificada, que a pessoa pode ter condições como autismo ou TDAH. No entanto, especialistas alertam que diagnósticos psicológicos dependem de avaliação clínica individualizada.  

Para Ludmilla Furtado, professora e coordenadora do curso de psicologia da Uniabeu, a prática esvazia o rigor clínico. “A gamificação do adoecimento mental transforma sintomas complexos em entretenimento superficial”, explica a psicóloga.

A especialista ressalta que atribuir um rótulo clínico por meio de um jogo ignora pilares básicos da ciência, como o prejuízo funcional que esse tipo de conduta envolve e o histórico de vida do paciente. Esse imediatismo gera confusão e pode inclusive afastar o indivíduo do tratamento adequado.

Na Alemanha, por exemplo, dados do sistema público de saúde revelam que a taxa de novos diagnósticos de TDAH em adultos saltou de 8,6 para 25,7 a cada 10 mil pessoas entre 2015 e 2024. O aumento acende o debate entre especialistas sobre os fatores por trás da alta, incluindo maior reconhecimento de casos antes subdiagnosticados, mas também o risco de banalização de sintomas comuns transformados em diagnósticos. Apesar da maior procura por avaliação, o diagnóstico de TDAH é um processo complexo, que exige investigar a história do paciente e comprovar que os sintomas já provocavam limitações desde a infância, normalmente antes dos 12 anos. 

As fronteiras do autismo 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrenta questionamentos semelhantes quanto ao alargamento de suas fronteiras. A psiquiatra alemã Uta Frith, pioneira nos estudos sobre o tema, critica diretamente a popularização do assunto nas redes sociais e na cultura pop. Ela relata que pessoas com boa comunicação, mas que enfrentam ansiedade social, passam a se autodiagnosticar como autistas quando estimuladas por conteúdos online.

No Reino Unido, dados do serviço público de saúde (NHS) indicam que a proporção de pessoas diagnosticadas com TEA passou de 0,1% em 1998 para 1,33% em 2024, alcançando cerca de 750 mil pessoas. Para Uta Frith, o aumento expressivo de diagnósticos mais leves e tardios confunde as demandas de quem possui deficiência intelectual e necessita de suporte mais intensivo.

Lipedema e as falsas promessas

A medicalização impulsionada pela internet também atinge condições físicas. Endocrinologistas da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) relatam que diversas mulheres estão sendo diagnosticadas com lipedema sem de fato apresentarem a doença.

Segundo os especialistas da Abeso, esse excesso de diagnósticos equivocados têm impulsionado a venda de protocolos e tratamentos que não têm respaldo ou comprovação científica. O quadro real da doença exige acompanhamento médico rigoroso e é muito mais complexo do que o retratado em vídeos curtos focados apenas em celulite ou tamanho das pernas.

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