
Em março de 1964, uma das lojas mais conhecidas do Centro do Rio estava de portas fechadas. Não era apenas mais um estabelecimento que desaparecia diante das transformações do comércio carioca. O fim de O Camiseiro foi suficientemente marcante para levar Carlos Drummond de Andrade a escrever, no Correio da Manhã, a crônica “A loja fechou”, uma espécie de elegia a uma casa comercial que havia se misturado durante décadas à própria vida da cidade.
Drummond começou pedindo à musa da crônica uma “nênia” pela morte de O Camiseiro — uma canção fúnebre para uma loja. Recordou as célebres “Loucuras de Maio” e associou o desaparecimento da casa à perda de outros pedaços do velho Rio. Poucas semanas depois, o cronista Jota Efegê também trataria do fechamento e apontaria a razão de maneira menos poética: a empresa havia sucumbido financeiramente.
Em linguagem mais simples, era o fim de um grande império do varejo: O Camiseiro quebrou.
Era um final surpreendente para uma organização que, apenas uma década antes, parecia estar no auge. A empresa construía edifícios, transformava empregados em acionistas, ocupava uma sucessão de imóveis na Rua da Assembleia e tinha capital de milhões de cruzeiros. Para entender como O Camiseiro chegou a esse tamanho é preciso voltar a 1919 e a um português que começara a vida no Rio atrás de balcões.
De caixeiro a dono de uma das maiores casas do Centro
Agostinho Pereira de Souza nasceu no Porto, em Portugal, em 28 de novembro de 1889, e chegou ao Rio ainda menino, aos 12 anos. Trabalhou em diversas casas conhecidas do comércio carioca, entre elas alfaiatarias e camisarias, aprendendo por dentro um setor que naquele início do século XX se concentrava especialmente nas ruas do Ouvidor, do Carmo, da Quitanda, Sete de Setembro e Assembleia. Grande benfeitor, doou para hospitais, educandários e obras sociais.
Em 1º de maio de 1919, abriu O Camiseiro. Fontes posteriores às vezes mencionam 1917, mas os registros publicados durante a vida de Agostinho, inclusive as comemorações de aniversário da própria casa, apontam para 1919. Em abril de 1932, ao noticiar o 13º aniversário da empresa, o Diário Carioca descrevia O Camiseiro como uma das casas mais populares e prestigiosas da capital e confirmava que as “Loucuras de Maio” eram a grande venda de aniversário. (Hemeroteca Digital)
O negócio começara modestamente, com capital de 10 contos de réis e uma única porta na Rua da Assembleia. Não demoraria a permanecer pequeno.
Em 1925, documentos comerciais da própria firma já registravam O Camiseiro nos números 28 e 30 da Rua da Assembleia. Poucos anos depois eram 28, 30 e 32. Vieram então o 34, o 36 e o 38. Na década de 1950, os anúncios informavam simplesmente: Rua da Assembleia, 28 a 38. Sua presença no local atraiu também outros negócios semelhantes, como o Império das Camisas e outros, que fizeram da Assembléia naquela época uma rua “têxtil”.
A loja cresceu literalmente derrubando paredes.
Uma de suas propagandas brincava com isso: “Já furamos a parede!” Conforme o negócio prosperava, Agostinho incorporava o imóvel ao lado e aumentava o salão de vendas. O processo acabou transformando um pequeno estabelecimento em uma extensa frente comercial no coração do Centro.
Parte dessa história permanece escrita nos próprios edifícios da rua. Nos números 36 e 38 ainda estão os edifícios Agostinho I e Agostinho II, testemunhos do momento em que o comerciante deixou de ser apenas lojista e passou também a investir pesadamente em imóveis. Em 1954, uma reportagem sobre a empresa registrava que Agostinho estava construindo na Rua da Assembleia um prédio de 12 pavimentos, do qual vários andares seriam usados pela própria organização.
O homem que começara com uma porta havia conquistado a rua horizontalmente e agora subia por ela em altura.
Mas a Assembleia não foi o único endereço de seus negócios. Em 1925, a firma de Agostinho já controlava também As Cem Mil Camisas, na Rua Sete de Setembro, 29. Poucos anos depois, documentos comerciais mostram uma terceira casa, a Camisaria do Ouvidor, instalada na Rua do Carmo, 56, praticamente junto à Rua do Ouvidor.
Era, portanto, uma pequena rede de varejo com marcas distintas no Centro.
Há ainda uma memória posterior que situa O Camiseiro na própria Rua Sete de Setembro durante os anos 1940, o que pode indicar que As 100 Mil Camisas acabou absorvida pela marca principal. Os anúncios encontrados até agora, porém, não permitem afirmar com segurança quando ou mesmo se essa mudança formal de nome ocorreu.
Palmas, gritos e Loucuras de Maio na calçada
Agostinho compreendeu cedo uma coisa que comerciantes de outras gerações levariam décadas para aprender: vender não dependia apenas da mercadoria. Era preciso fazer o pedestre parar diante da loja.
E O Camiseiro fazia isso de uma maneira que hoje parece quase inacreditável. Foi pioneiro.
Décadas depois, Carlos Heitor Cony ainda guardava uma lembrança muito nítida da Rua da Assembleia. O Camiseiro e seu concorrente O Cruzeiro disputavam a mesma calçada e, segundo o escritor, juntos apresentavam 12 portas voltadas para a rua. As liquidações das duas casas coincidiam com seus aniversários e ganharam nomes que ficaram famosos: de um lado, as “Loucuras de Maio”; do outro, os “Escândalos de Abril”. O próprio Cony já não conseguia lembrar qual campanha pertencia a qual concorrente, tão associadas as duas haviam ficado em sua memória. (Folha de S.Paulo)
Mas a propaganda não terminava nos jornais, nos cartazes ou nas vitrines. Homens eram colocados na calçada para chamar os fregueses.
Eles batiam palmas diante das portas para chamar a atenção de quem passava pela Assembleia e, entre uma palma e outra, berravam os pregões de venda. Cony recordou um deles: “Aproveitem que vai acabar!” Outros apelos pressionavam o transeunte a não deixar a compra para o dia seguinte. Não era um vendedor esperando educadamente atrás do balcão. Era uma convocação pública ao consumo, feita no meio da rua.
Cony guardou até o rosto de um daqueles homens. Chamava-se Moacyr, filho de um vizinho seu. Certa tarde, o futuro escritor passou pela Assembleia e encontrou o conhecido no meio da calçada, batendo palmas e conclamando os passantes a aproveitar a liquidação. A lembrança ficou com Cony por tantas décadas que, em 1998, ele a transformou em crônica na Folha de S.Paulo.
A cena ajuda a reconstruir uma Rua da Assembleia completamente diferente da atual. Em época de liquidação, as portas das grandes camisarias avançavam simbolicamente sobre a calçada: homens batiam palmas, os pregões se cruzavam, cartazes anunciavam preços e duas casas rivais disputavam não apenas o bolso, mas a atenção física de quem caminhava pelo Centro. A calçada fazia parte da loja. Nada mais carioca!
E as “Loucuras de Maio” não foram uma lembrança inventada posteriormente. Em 29 de abril de 1932, o Diário Carioca anunciava o 13º aniversário de O Camiseiro e explicava que esse era o nome dado pela casa à sua grande venda de maio. O jornal dizia ainda que Agostinho & Cia. distribuía aos clientes um catálogo especialmente preparado para divulgar as vantagens e os preços da campanha. (Hemeroteca Digital)
A criatividade publicitária aparecia também nos slogans. Entre as frases associadas à casa estavam “Pequenos lucros, grandes vendas” e “Vender camisas é uma ciência”. Em 1939, a empresa chegou a levar à Justiça uma disputa com a vizinha Camisaria 36, acusada de imitar recursos de publicidade e apresentação utilizados por O Camiseiro. A reclamação não prosperou, mas o episódio mostra a importância que Agostinho dava à identidade comercial da casa. Sem falar que depois Agostinho comprou a loja vizinha!
Apesar do nome, nos anos 1950 O Camiseiro já era muito mais do que uma camisaria.
Anúncios da época ofereciam artigos de cama e mesa, malhas, perfumaria, cristais, artigos esportivos, produtos infantis e até artigos elétricos. A casa trabalhava ainda com vendas a crédito. O antigo comércio especializado havia se aproximado do modelo das grandes lojas de departamentos que dominariam o varejo carioca no pós-guerra.
Esse crescimento fez de O Camiseiro uma das empresas de primeira linha do comércio do Rio. Em 7 de novembro de 1955, poucas semanas depois da morte de Agostinho, a Agostinho S.A. — O Camiseiro esteve entre as onze empresas fundadoras do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro, ao lado de nomes como Mesbla, Ponto Frio, Exposição Modas, Casa Neno e Barbosa Freitas.
Empregados que viravam sócios
Uma particularidade da organização de Agostinho ajuda a explicar tanto o sucesso quanto a complexidade da empresa depois de sua morte.
Desde os anos 1920, empregados de confiança começaram a receber participação nos negócios. Em 1925, Benedicto Orlando Costa e Cezario Araripe, antigos auxiliares da casa, foram admitidos como sócios de indústria. Em 1928, Raymundo Grillo, guarda-livros da casa, e Raymundo Troia, ligado à seção de malhas, também receberam interesse na firma. Outros funcionários aparecem nos documentos como participantes do empreendimento.
Benedicto Orlando Costa tornou-se figura particularmente importante. Em 1930, quando O Camiseiro comemorava 11 anos, uma reportagem o apresentava como gerente e um dos homens responsáveis pelo crescimento da organização.
O modelo chegou ao ponto máximo em 1954. Naquele ano, a antiga Agostinho & Cia. foi transformada em Agostinho S.A., com capital de Cr$ 10 milhões. Uma reportagem publicada na ocasião fazia questão de observar que não havia entrado capital externo na sociedade. Os demais acionistas, além do fundador, eram homens que tinham sido formados dentro da própria casa.
A empresa de Agostinho era, portanto, muito diferente de uma organização familiar em que apenas filhos e parentes aguardavam a sucessão.
Quando Agostinho morreu, em 12 de outubro de 1955, deixou uma estrutura empresarial formada também por antigos empregados que haviam passado a interessados, sócios e acionistas. Sua mulher, Deolinda Veloso de Souza Agostinho, havia morrido exatamente um ano antes, em 12 de outubro de 1954. Agostinho nunca se recuperou da morte da companheira, e se foi com menos de 70 anos de idade.
Agostinho construiu ainda uma trajetória importante fora do comércio. Ligado ao movimento espírita, participou de instituições assistenciais e esteve relacionado à implantação de obras de saúde e beneficência, entre elas a construção do Hospital Espírita Pedro de Alcântara, no Rio Comprido.
Em Santa Teresa, a memória de antigos conhecidos do comerciante aponta para um casarão na Rua Almirante Alexandrino, 986, além de outra residência na antiga Rua do Aqueduto. O casarão da Almirante Alexandrino ainda existe, mas até agora não foi localizado documento de época que permita associar definitivamente o número 986 ao empresário.
A cautela não diminui a dimensão de sua fortuna. Os prédios deixados na Assembleia são uma prova muito mais visível dela.
Nove anos depois, O Camiseiro quebrou
A morte do fundador não produziu uma queda imediata.
Em 1956, O Camiseiro continuava enorme. Ocupava os números 28 a 38 da Assembleia, anunciava vários departamentos e vendia a crédito. A companhia estava entre os fundadores do principal organismo do comércio lojista carioca e ainda carregava o patrimônio construído durante décadas.
Alguma coisa, porém, mudou nos anos seguintes.
A ficha histórica da Agostinho S.A. — O Camiseiro na Junta Comercial registra como último arquivamento conhecido a data de 26 de julho de 1963. O documento em si ainda não foi localizado em inteiro teor, e por isso não se sabe se naquele ato houve mudança de diretoria, alteração de capital, transferência de ações ou alguma tentativa de reorganização da companhia.
O dado ganha importância porque apenas oito meses depois a loja já estava fechada.
Em 25 de março de 1964, Drummond publicou “A loja fechou”. Em abril, Jota Efegê referiu-se ao desaparecimento da casa e atribuiu-o aos problemas financeiros da empresa.
O Camiseiro quebrara.
Contemporâneos registraram que a casa não conseguira sobreviver financeiramente, e a rapidez com que uma empresa ainda tão conhecida é mesmo querida desapareceu impressionou a cidade.
A companhia fizera uma grande expansão patrimonial durante os anos 1950, construíra imóveis, ampliara sua sede, transformara-se em sociedade anônima e trabalhava com vendas a crédito. Depois perdera o homem que comandara o negócio desde 1919. Ao mesmo tempo, o varejo carioca mudava rapidamente e o Brasil atravessava, no início dos anos 1960, um período de forte inflação e crescente instabilidade econômica.
Não há, entretanto, documento conhecido que permita apontar um único desses fatores como responsável pela quebra. O que se sabe é o resultado.
O fim de O Camiseiro foi tão marcante que transformou o fechamento de uma loja em assunto literário. Drummond percebeu que não desaparecia apenas um comércio. Ia embora um pedaço da experiência cotidiana de várias gerações de cariocas, assim como haviam desaparecido cafés, cinemas, bondes e outras referências de uma cidade que passava a vida reconstruindo a própria paisagem.
Agostinho não viveu para assistir à quebra. Morreu nove anos antes, quando sua criação ainda fazia parte da elite do comércio do Rio.
A empresa desapareceu, as Loucuras de Maio viraram lembrança e as vitrines foram substituídas. Mas quem passa pela Rua da Assembleia ainda encontra os edifícios Agostinho I e Agostinho II.
Quase ninguém que olha para seus nomes hoje sabe que eles pertencem ao português que começou com uma única porta, abriu outras casas pelo Centro, fez empregados virarem sócios e construiu um dos mais populares impérios comerciais do Rio da primeira metade do século XX.














































































































