
Durante boa parte do século XX, bastava dizer Camisaria Progresso para que um carioca soubesse onde procurar camisas, pijamas, gravatas, roupas de cama, tecidos, artigos femininos, infantis e uma quantidade cada vez maior de mercadorias. Nós bonitos sobrados de esquina da Praça Tiradentes com a Rua da Carioca – hoje um horroroso prédio que parece uma Fortaleza de concreto com lojas embaixo, seu enorme nome acompanhou bondes, automóveis, teatros, cafés e gerações de fregueses. A palavra “camisaria”, mantida por tradição, acabaria se tornando pequena para uma empresa que teve fábrica própria, diferentes estabelecimentos, filial em Copacabana e até um departamento dedicado a louças.
Sua história atravessou mais de sete décadas de profundas transformações no comércio do Rio. Quando Agostinho Pereira abriu O Camiseiro, em 1919, a Progresso já tinha 21 anos. Quando Daniel Villela Monteiro começava a crescer no mesmo ramo, a casa da Praça Tiradentes já era uma instituição. Quando o Parc Royal desapareceu depois de seu devastador incêndio, em 1943, a Progresso continuou vendendo. E quando chegou a vez de suas próprias instalações serem consumidas pelo fogo, na última noite de 1957, a empresa fez algo ainda mais impressionante: reconstruiu a matriz e voltou a funcionar no mesmo ponto apenas 11 meses depois.
A pesquisa feita pelo DIÁRIO DO RIO em jornais e revistas preservados pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, almanaques comerciais e trabalhos universitários revela uma empresa muito mais complexa e curiosa do que a lembrança de uma antiga camisaria. A Progresso participou da criação de uma maneira tipicamente carioca de vender: transformando o comércio também em espetáculo.
Antes da Progresso, Augusto Brandão já vendia camisas no Rio
A data celebrada pela própria empresa era 1º de julho de 1898, quando Augusto de Castro Lopes Brandão fundou a Camisaria Progresso. O comerciante português, entretanto, já aparece alguns anos antes no ramo de camisas da Rua da Carioca. O Almanak Laemmert registra Castro Lopes Brandão em atividade pelo menos desde 1895, permitindo perceber que a criação da Progresso foi mais um passo na carreira de alguém que já conhecia bem o comércio carioca.
Nos primeiros anos do século XX, o mesmo nome aparece associado também a estabelecimentos como a Camisaria Brazileira e a Camisaria Popular. Em dezembro de 1905, a Progresso anunciou a conclusão de importantes obras no estabelecimento da Praça Tiradentes 2, esquina da Rua da Carioca, comunicando que reuniria ali mercadorias até então espalhadas por suas casas filiais. Aos poucos, o endereço se consolidaria como um dos pontos comerciais mais conhecidos daquela região.
A empresa já demonstrava naquela época uma concepção bastante moderna de varejo. Anúncios ofereciam preços fixos e prometiam troca da mercadoria ou devolução do dinheiro quando o cliente não ficasse satisfeito. Em 1911, ocupando os números 2 e 4 da Praça Tiradentes, a casa anunciava importação direta, oficinas próprias e produção de roupas brancas para homens, senhoras e crianças. Seu telefone era o 1880.
A Progresso também publicava catálogos. Um exemplar de 1908 atravessou o século e hoje integra o acervo da National Library of Australia, evidência da dimensão alcançada rapidamente pelo estabelecimento carioca.
Augusto Brandão, aliás, era um personagem que não cabe apenas atrás de um balcão. Natural de Cucujães, em Oliveira de Azeméis, manteve fortes vínculos com Portugal. Em 1917, participou da construção de uma escola masculina em sua terra natal, batizada significativamente de Escola Progresso. Seu nome acabaria também perpetuado na toponímia local.
No Rio, foi comerciante e industrial, mas aparece ainda na imprensa como homem interessado em literatura e artes, referido como poeta, jornalista e autor teatral. Seu filho Augusto Brandão Filho seguiu carreira musical e estudou violino no Conservatório de Bruxelas. O fundador morreu em 26 de outubro de 1948, em Couto de Cucujães, em Portugal, depois de ver o pequeno negócio transformado numa das casas comerciais tradicionais da então capital brasileira.
A organização societária também cresceu. Em 1924, a antiga Castro Lopes & Brandão foi reorganizada. Francisco Dias Lopes Brandão retirou-se da firma, enquanto Augusto permaneceu no negócio ao lado de José Maria Lopes da Costa e Carlos Darbelly Brandão. Henriqueta Ida Brandão aparecia como sócia de indústria. Carlos Brandão se tornaria, nas décadas seguintes, um dos principais rostos públicos da empresa.
A própria produção acompanhou a expansão. Em 1929, anúncios já destacavam formalmente a Fábrica Progresso, instalada na Rua do Senado 189. A velha camisaria produzia e comercializava camisas, pijamas, roupa íntima, chapéus, gabardines, tecidos, artigos femininos, roupas de cama e muitos outros produtos.
Nos anos 1940, a estrutura já podia ser considerada um pequeno grupo comercial. Além da matriz, os Brandão controlavam A Cristaleira, na região da Praça Tiradentes; a Alfaiataria Guanabara, na Rua da Carioca 54; A Progresso de Copacabana, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana 1350; e a própria fábrica da Rua do Senado. A Cristaleira chegou a ser anunciada como o departamento de louças da Camisaria Progresso. Depois do incêndio da matriz, apareceria ainda uma unidade na Rua Visconde de Pirajá 102, em Ipanema.
A trajetória guarda certa semelhança com a expansão que, em outra escala e por caminhos diferentes, seria feita por Daniel Villela Monteiro, que também partiu do vestuário e construiu uma estrutura combinando varejo, fabricação e diferentes marcas. Não há, porém, evidência de sociedade ou negócio entre os dois grupos. Eles pertenciam ao mesmo extraordinário universo comercial que fez do Centro do Rio um dos maiores polos de consumo do país.
Antes das Loucuras de Maio, a Progresso já colocava a loja na rua
Quem leu no DIÁRIO DO RIO a história de Agostinho Pereira e de O Camiseiro conhece a dimensão quase teatral que o comércio carioca poderia assumir. Agostinho fazia barulho, colocava vendedores nas portas, promovia campanhas com nomes como “Loucuras de Maio” e transformava uma ida à Rua da Assembleia numa experiência.
A Progresso participou da mesma tradição — e muito cedo.
Em 1912, sete anos antes da fundação de O Camiseiro, a Camisaria Progresso organizou um verdadeiro préstito carnavalesco pelas ruas do Rio. Não se tratava de uma metáfora publicitária. A loja levou às ruas cavaleiros, músicos, carros ornamentados, fantasias, flores, confetes e alegorias, divulgando antecipadamente até o itinerário do desfile.
As notícias da época descrevem uma longa composição de landaus e carros decorados, concebidos para divertir o público e, evidentemente, colocar o nome da Progresso diante de milhares de cariocas. Uma das alegorias representava o Forte de São Marcelo e lançava flores e confetes. O sucesso foi tamanho que no Carnaval seguinte a imprensa ainda se referia ao préstito comercial promovido pela casa.
A estratégia demonstra que, muito antes do marketing contemporâneo, o varejo carioca já compreendia o valor de transformar uma marca em acontecimento urbano.
Existe, inclusive, uma ligação ainda mais intrigante com Agostinho Pereira. Biografias do fundador de O Camiseiro afirmam que, antes de abrir sua própria casa em 1919, ele trabalhou em diversos estabelecimentos, tendo como último emprego uma “Camisaria Brandão”. A Camisaria Progresso pertencia justamente a Castro Lopes Brandão, e não foi localizada na pesquisa outra grande casa independente que explique de forma inequívoca aquela referência.
A hipótese de que Agostinho tenha trabalhado na própria Progresso é, portanto, bastante plausível, embora as fontes encontradas não permitam tratá-la como fato definitivamente comprovado. O que é certo é que, depois, Progresso e O Camiseiro passaram a disputar o mesmo público. Almanaques comerciais colocam as duas firmas na mesma categoria e, em 1940, uma mesma edição do periódico Beira-Mar trazia uma grande promoção dos “30 Dias da Feira” da Camisaria Progresso e, algumas páginas depois, uma reportagem comemorando O Camiseiro e suas famosas Loucuras de Maio.
Era a batalha pela atenção do carioca impressa dentro do mesmo jornal.
A Progresso, curiosamente, nem sempre gostou da ideia de liquidação. Em determinados períodos, sua propaganda afirmava que a casa não precisava liquidar porque mantinha preços baixos o ano inteiro. Posteriormente, porém, a empresa abraçou com entusiasmo as grandes campanhas promocionais. Os 30 Dias da Feira tornaram-se tradicionais e acabaram atravessando o jornal para chegar ao rádio.
O publicitário e compositor Miguel Gustavo, que anos mais tarde escreveria Pra Frente Brasil, criou o jingle “Trinta Dias de Feira da Camisaria Progresso”, preservado no disco Samba de Jingles, de Britinho. Era a velha casa de 1898 aprendendo a falar a língua da publicidade moderna.
Também havia promoções fora das lojas. Em dezembro de 1936, durante uma festa no Vasco da Gama, a Progresso ofereceu prêmios para provas infantis e distribuiu 5 mil aviõezinhos de papel numa homenagem à aviação nacional. Em outros momentos patrocinou concursos, eventos e programação radiofônica.
E o comércio carioca daquele tempo não vivia em compartimentos isolados. Em fevereiro de 1936, uma reportagem do Diário de Notícias sobre compras para o Carnaval colocou lado a lado Parc Royal, Camisaria Progresso e A Exposição, entre as casas procuradas pelos consumidores. O carioca percorria aquele Centro comparando preços, tecidos, novidades e promoções décadas antes de o shopping center se tornar parte da paisagem urbana.
O incêndio na noite de Ano-Novo e uma reconstrução em tempo recorde
A maior tragédia da história da Camisaria Progresso começou às 19h31 de 31 de dezembro de 1957.
Enquanto o Rio se preparava para a passagem do ano, a velha loja da Praça Tiradentes começou a arder. A coincidência criou uma imagem quase cinematográfica registrada pela imprensa: uma parte da decoração ainda desejava Feliz Natal, enquanto outra saudava o Ano Novo. Em poucas horas, uma das mais conhecidas casas comerciais da cidade estava devastada.
O fogo mobilizou bombeiros, atingiu ou ameaçou imóveis vizinhos e reuniu uma multidão na Praça Tiradentes. Houve bombeiros feridos e os jornais publicaram diferentes estimativas para os prejuízos, então avaliados em dezenas de milhões de cruzeiros.
Carlos Brandão, que já ocupava posição central na condução da empresa, enfrentou imediatamente outro problema: os empregados. Mais de duas centenas de trabalhadores dependiam da Progresso. Nos dias seguintes ao incêndio, Brandão afirmou que não pretendia simplesmente dispensá-los e que buscaria redistribuir funcionários entre os demais estabelecimentos enquanto a matriz fosse recuperada.
É aqui que a história da Progresso se distancia radicalmente de outra casa que os leitores do DIÁRIO DO RIO conhecem bem.
O gigantesco incêndio de 1943 marcou praticamente o fim do Parc Royal. A Camisaria Progresso, quatorze anos depois, recusou-se a ter o mesmo destino.
Enquanto a operação era reorganizada em outros pontos do grupo, começou a reconstrução da matriz. Em apenas 11 meses, um novo edifício estava pronto no mesmo local. A reinauguração aconteceu em dezembro de 1958, com a presença de autoridades como Negrão de Lima, que havia autorizado a reconstrução quando prefeito, e do então prefeito Sá Freire Alvim.
A velha Progresso conseguira algo extraordinário: transformar um incêndio que poderia ter encerrado seis décadas de atividade numa reinauguração antes mesmo do primeiro aniversário da tragédia.
O episódio teve ainda uma consequência improvável na história da televisão brasileira.
Nos primeiros tempos da TV, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, criou um programa infantil chamado Rancho Alegre. Levou o projeto a Carlos Brandão, que aceitou colocar a Camisaria Progresso como patrocinadora. Uma reportagem da Revista do Rádio, publicada em 1959, registrou a sequência: depois do incêndio da loja, Chacrinha precisou procurar outro anunciante.
O patrocinador seguinte seria Casas da Banha.
Assim, uma das inúmeras ramificações daquele incêndio da Praça Tiradentes acabou alcançando a própria trajetória de um personagem que se tornaria símbolo da televisão brasileira.
Depois de mais de 70 anos, a Progresso desapareceu — e deu lugar à Sapasso
O incêndio, portanto, não encerrou a empresa. A documentação consultada pelo DIÁRIO DO RIO ainda registra a Camisaria Progresso na Praça Tiradentes 2 e 4 em 1969, mais de sete décadas depois da fundação.
Há referências posteriores segundo as quais o controle da empresa teria passado para o comerciante José Tufick Simão e, mais tarde, para seus herdeiros. Também circulam versões envolvendo uma posterior passagem do ponto para outras redes. A pesquisa realizada até aqui não encontrou documentação suficientemente segura para reconstruir toda essa sucessão societária, e não há necessidade de preencher artificialmente as lacunas.
O que se sabe é que a Camisaria Progresso acabou desaparecendo do comércio carioca nos anos seguintes, e o antigo ponto da Praça Tiradentes seria ocupado por décadas pela Sapataria Sapasso, loja ainda lembrada por quem frequentou aquele trecho do Centro nas décadas posteriores.
Encerrava-se assim uma das histórias mais longas do velho comércio carioca.
A Progresso atravessou o Rio dos bondes, dos grandes teatros da Praça Tiradentes, das camisarias da Rua da Assembleia, das primeiras grandes liquidações, do rádio, do crediário e da televisão. Viu nascer concorrentes, viu desaparecer casas gigantescas, acompanhou o deslocamento de parte do comércio para Copacabana e Ipanema e sobreviveu até ao incêndio que poderia tê-la destruído.
Seu desaparecimento ajuda também a medir a transformação do próprio Centro. Hoje, para muita gente que atravessa a Praça Tiradentes, é difícil imaginar que naquele endereço funcionou durante mais de 70 anos uma casa conhecida em praticamente todo o Rio — uma camisaria que fabricava suas próprias mercadorias, teve diferentes lojas, colocou carros alegóricos nas ruas no Carnaval, distribuiu milhares de aviõezinhos, virou jingle, patrocinou Chacrinha e, depois de arder inteira na última noite de um ano, voltou a abrir as portas antes que o seguinte terminasse.
A placa desapareceu. A Camisaria Progresso, porém, pertence àquela geração de estabelecimentos que fizeram do comércio carioca muito mais do que uma simples sucessão de balcões e vitrines: fizeram dele parte da memória e da personalidade da cidade.















































































































