De quem era o Morro de Santo Antônio? A guerra imobiliária pelo morro que o Rio apagou do mapa


Charles Fichot, “Panorama da Cidade do Rio de Janeiro”, tomada do Morro de Santo Antônio a Voo de Pássaro, vendo-se o Morro do Castelo em frente / Reprodução da Internet, gravura de 1854

Em 26 de agosto de 1931, a Prefeitura do então Distrito Federal fez uma operação imobiliária de proporções difíceis de imaginar hoje: adquiriu de uma empresa privada os direitos sobre praticamente um morro inteiro no coração do Rio. O preço acertado com a Companhia Industrial Santa Fé foi de 33 mil contos de réis, pagos em títulos municipais. O negócio envolvia uma enorme extensão de terras a poucos minutos da Rua do Ouvidor, da Cinelândia e da Avenida Rio Branco, justamente onde urbanistas enxergavam uma das grandes fronteiras de expansão do Centro.

Poucos dias depois, porém, o negócio começou a desmoronar antes mesmo que o morro começasse a ser desmontado. O Governo Provisório mandou suspender os pagamentos e abriu uma investigação. Em maio de 1932, Getúlio Vargas, então chefe do Governo Provisório, anulou a operação. A razão parecia espantosa: para o Governo Federal, a Santa Fé simplesmente não era dona do Morro de Santo Antônio. A Prefeitura, portanto, teria comprado de uma empresa privada uma propriedade que pertencia à União.

Seria uma história relativamente simples se a companhia não tivesse em mãos algo muito difícil de ignorar: uma escritura pública lavrada em cartório em 1891 na qual a própria Fazenda Nacional dizia que vendia os terrenos do morro, dava quitação e transferia “domínio e posse” à antecessora da Santa Fé. Para completar o imbróglio, naquele mesmo ano de 1891 até a representação diplomática da Santa Sé entrou na discussão, sustentando que direitos históricos sobre Santo Antônio remontavam aos franciscanos e poderiam chegar ao próprio Papa.

Durante quase um século, o Morro de Santo Antônio foi simultaneamente acidente geográfico, lugar de moradia, objeto de concessões públicas, garantia de empréstimos, empreendimento imobiliário, projeto urbanístico e campo de batalha entre empresários, bancos, Prefeitura e Governo Federal. Quando uma das últimas decisões judiciais sobre o caso foi proferida, em 1966, boa parte da formação geográfica que dera origem à disputa já não existia.

Boa parte — mas não toda. Um pedaço do velho morro permanece até hoje sobre o Largo da Carioca, ocupado pelo Convento de Santo Antônio e pela belíssima e majestosa Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, toda forrada em ouro para a glória de Deus. Quem passa diariamente pelo Centro talvez nunca tenha pensado nisso, mas aquele conjunto religioso está literalmente sobre o sobrevivente da montanha que o Rio passou décadas discutindo a quem pertencia.

A história daquela guerra imobiliária ajuda a explicar não apenas quem era dono de um morro no coração do que era à época o que havia de mais valorizado na cidade, mas como o Rio conseguiu transformar montanha em terreno, terreno em avenida e a própria terra arrancada de Santo Antônio em nova geografia junto à Baía de Guanabara.

Um morro que o Império já queria fazer desaparecer

Muito antes de a Santa Fé existir, o poder público já olhava para Santo Antônio como um obstáculo ao crescimento da cidade. Em 1853, D. Pedro II autorizou a desapropriação da área com o objetivo de permitir seu futuro desmonte. A justificativa da época combinava ideias de salubridade, circulação e expansão urbana. O Governo temia, inclusive, que novas construções no morro tornassem a futura demolição cada vez mais cara.

Os terrenos tinham uma história ainda mais antiga. Durante séculos, a presença franciscana fez do Convento de Santo Antônio uma das referências religiosas e paisagísticas da região. Documentos posteriormente utilizados na disputa registram que os religiosos haviam alienado parcelas em 1852 a José Maria Velho da Silva e Joaquim Ribeiro de Avellar. Em 1856, a Fazenda Nacional adquiriu os terrenos por diferentes escrituras, desembolsando ao todo 372:632$996.

E os compradores não eram personagens quaisquer. José Maria Velho da Silva, homem do círculo da Casa Imperial, comprou os terrenos ao lado do próprio genro, Joaquim Ribeiro de Avellar, que havia se casado em 1849 com sua filha Mariana e décadas depois receberia de D. Pedro II o título de Visconde de Ubá. O casamento unira duas forças características da elite do Império: de um lado, os Velho da Silva e sua intimidade com a Corte; de outro, uma das grandes fortunas cafeeiras do Vale do Paraíba, a família Ribeiro de Avellar.

Esse número aparentemente perdido no século XIX voltaria a assombrar a história do morro durante mais de 80 anos.

Em 19 de outubro de 1889, menos de um mês antes da Proclamação da República, o Governo Imperial entregou aos engenheiros João Pedreira do Coutto Ferraz Júnior e Libânio Lima uma gigantesca concessão para o arrasamento de Santo Antônio. A ideia era muito mais ambiciosa do que simplesmente destruir uma elevação. Os concessionários deveriam desmontar o morro, aterrar áreas da orla, abrir ruas e praças, realizar obras de drenagem, construir cais e preservar a igreja e o convento.

Em troca, receberiam algo que explica por que Santo Antônio despertava tamanho apetite empresarial. Poderiam comercializar os terrenos que fossem surgindo à medida que o morro fosse nivelado e áreas fossem conquistadas ao mar.

O grande negócio, portanto, não era ter uma montanha. Era transformar a montanha em cidade. Ao retirar milhões de metros cúbicos de solo, apareceria uma imensa esplanada edificável em pleno Centro. E parte daquela mesma terra poderia ser lançada sobre a Baía de Guanabara, produzindo outro território onde antes havia água. Era uma verdadeira máquina de fabricar terrenos.

Com a República, a concessão passou à Companhia de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro. Para entrar no empreendimento, a companhia deveria reembolsar ao Tesouro exatamente os 372:632$996 que o Governo gastara décadas antes para adquirir os terrenos.

E então aconteceu aquilo que alimentaria toda a futura confusão.

Em 23 de janeiro de 1891, a Fazenda Nacional lavrou uma escritura pública em favor da Companhia de Melhoramentos. O texto declarava a venda dos terrenos, tratava os 372:632$996 como preço, dava plena quitação e transferia direito, ação, domínio e posse, comprometendo-se ainda a fazer a venda “firme e valiosa”. Uma típica escritura de venda de imóvel, nos moldes que é feita até os dias de hoje.

Para qualquer empresário que encontrasse aquele documento numa due diligence, a conclusão pareceria óbvia: o Governo havia vendido o morro.

Só que dentro da própria escritura estava o germe da tese contrária. Ao transcrever o recibo do Tesouro relativo aos mesmos 372 contos, o documento explicava que o pagamento correspondia à indenização do que o Estado havia anteriormente despendido na aquisição dos terrenos.

A escritura dizia “venda”. O recibo dizia, na prática, “reembolso”. A confusão ficaria ainda mais extraordinária poucos meses depois.

Em janeiro de 1891, a Internunciatura Apostólica no Brasil apresentou ao Governo uma reivindicação ligada ao Morro de Santo Antônio. O argumento remontava a um documento de 1607 e à condição dos franciscanos, que, pela regra da ordem, não deveriam possuir determinados bens em nome próprio. A representação da Santa Sé sustentava que o domínio direto poderia estar ligado ao Sumo Pontífice e pretendia o reconhecimento dos direitos correspondentes.

A hipótese chegou aos jornais com sabor quase fantástico: por um instante, discutiu-se se um pedaço monumental do Centro do Rio poderia ter direitos vinculados ao Papa.

O Governo brasileiro rejeitou a pretensão. Em julho de 1891, ao responder à Santa Sé, reconstruiu a compra dos terrenos realizada pela Fazenda Nacional no Império e afirmou que o domínio cabia ao Estado.

A contradição cronológica é deliciosa. Em janeiro, uma repartição da República assinara uma escritura afirmando vender os terrenos. Em julho, o próprio Governo respondia ao Vaticano como proprietário deles.

A pergunta que dominaria as décadas seguintes já estava pronta: afinal, de quem era o Morro de Santo Antônio?

Em 1899, o Governo tentou esclarecer sua interpretação. A antiga Companhia de Melhoramentos entrara em liquidação, e os direitos passaram a José Marcellino Pereira de Moraes. Ao formalizar a transferência da concessão, o presidente Campos Sales deixou registrado que a cessão dos terrenos existia para a finalidade exclusiva do arrasamento e não conferia propriedade definitiva do solo antes de seu nivelamento. Se a concessão caducasse, os terrenos retornariam à Fazenda, mediante restituição daqueles mesmos 372:632$996.

Para a União, portanto, o raciocínio era simples: o empreendedor só consolidaria os direitos sobre aquilo que efetivamente transformasse. O direito à terra nascia conforme o próprio morro desaparecesse.

O problema era que a escritura de 1891 continuava existindo, registrada, dizendo claramente outra coisa.

A companhia que queria transformar Santo Antônio em negócio imobiliário

Os direitos que haviam pertencido a José Marcellino chegaram, após sua morte e sucessão, à Companhia Industrial Santa Fé, comandada por Theodomiro Carneiro Santiago. Por volta de 1920, a empresa já aparecia como sucessora do patrimônio e dos interesses ligados ao Morro de Santo Antônio.

A Santa Fé encontrou um ativo tão promissor quanto problemático. A concessão original atravessara décadas sem produzir o resultado prometido. A cidade mudara, os governos mudaram e as ideias urbanísticas também. Em determinado momento, a ambição deixou de ser simplesmente arrasar Santo Antônio: passou-se a imaginar a urbanização do próprio morro.

Em 1921, a companhia celebrou com a Prefeitura um novo programa de embelezamento, preparação dos terrenos e abertura de vias de acesso que permitiriam edificar a área. Uma planta daquele ano, preservada no acervo federal com o título “Companhia Industrial Santa Fé — Projeto de Embelezamento do Morro de Santo Antonio”, permite enxergar uma cidade alternativa que jamais chegou a existir.

Em vez da grande esplanada plana que o Rio acabaria conhecendo, poderia ter surgido ali um bairro adaptado à topografia, com ruas, escadarias e terrenos acompanhando as curvas do velho morro.

A companhia passou anos tentando remover os obstáculos de um empreendimento localizado justamente numa das áreas mais congestionadas e sensíveis da cidade. Em relatos posteriores, Theodomiro citava negociações envolvendo a Ferro Carril Carioca, o próprio Convento de Santo Antônio, a Imprensa Nacional, o observatório da Escola Politécnica, o Teatro Lírico, instalações militares e diversos ocupantes da região.

Para quem trabalhava ou circulava pelo Centro, aquilo tinha consequências bem menos abstratas. Nos anos 1920, jornais reclamavam das obras intermináveis, da lama, das mudanças nos pontos dos bondes de Santa Teresa e dos transtornos ao redor do Largo da Carioca. A divertida expressão “obras de Santa Engrácia”, utilizada para empreendimentos que nunca terminavam, chegou a ser aplicada ao caso.

A Santa Fé sustentaria mais tarde ter consumido enormes recursos nesse processo. Em 1937, defensores da companhia apresentaram balanços segundo os quais mais de 30 mil contos de réis haviam sido empregados no empreendimento até o final de 1930, incluindo gastos financeiros decorrentes do capital tomado para mantê-lo.

Os números vinham da própria empresa e não devem ser confundidos com uma auditoria independente, mas revelam a escala do problema. Santo Antônio deixara de ser apenas uma concessão antiga: havia se tornado um projeto carregado por financiamento, juros e credores.

Entre estes, ganhou importância o Banco Português do Brasil, grande credor hipotecário da companhia.

Sob um olhar atual, a situação é surpreendentemente familiar. Havia um enorme ativo urbano travado, um empreendedor endividado, um banco interessado em receber, sucessivas mudanças de projeto e um poder público tentando encontrar a fórmula para destravar a área.

Foi nesse ambiente que entrou em cena o interventor prefeito Adolfo Bergamini.

Com o Plano Agache (plano urbanístico de Alfred Agache para modernizar e reorganizar o Rio) redesenhando as ambições para o Centro e imaginando Santo Antônio como futura zona de grandes edifícios e negócios, a Prefeitura passou a estudar a aquisição dos direitos da companhia.

Uma comissão avaliou direitos, trabalhos e benfeitorias da Santa Fé em 34.336:260$000. Em 26 de agosto de 1931, foi lavrada a escritura pela qual a Prefeitura acertou pagar 33 mil contos em títulos municipais de 5%.

Só que a operação tinha uma cláusula especialmente interessante para quem acompanha o mercado imobiliário.

A Santa Fé não sairia inteiramente da futura urbanização. Reservava para si cinco lotes, com área total de aproximadamente dez mil metros quadrados, que somente passariam a existir depois que o morro fosse arrasado. Os terrenos ficariam em posições valorizadas da nova malha urbana, com frente para a avenida planejada como prolongamento da Avenida Almirante Barroso.

Era um negócio singular: a companhia entregava seus direitos sobre o morro, a Prefeitura assumia o empreendimento e, depois de eliminar fisicamente a montanha, a antiga titular receberia lotes na cidade nova criada em seu lugar.

Os adversários de Bergamini reagiram violentamente. Jornais calcularam valores altíssimos para esses terrenos futuros, somaram décadas de juros aos títulos municipais e acusaram a Prefeitura de realizar um negócio ruinoso. Parte dessa cobertura tinha evidente caráter de combate político e não pode ser lida como avaliação financeira neutra.

A Santa Fé respondia com outra conta. Segundo números atribuídos ao engenheiro e urbanista Armando de Godoy, a venda dos futuros terrenos poderia render à Prefeitura mais de 62 mil contos, além da valorização geral e das receitas tributárias que viriam com os novos edifícios.

Curiosamente, a discussão de 1931 parece saída de uma reunião do mercado imobiliário de hoje.

Os defensores enxergavam valorização futura e criação de terreno edificável. Os críticos argumentavam que o Rio ainda não absorvera inteiramente os lotes produzidos pelo recente desmonte do Morro do Castelo e que colocar outro enorme estoque de terrenos no mercado poderia provocar desvalorização.

Há quase cem anos, discutia-se no Rio o momento certo de lançar uma gigantesca quantidade de novo produto imobiliário no Centro.

A Prefeitura compra. Getúlio pergunta: comprou de quem?

A crise começou quase imediatamente.

O Governo Provisório suspendeu os pagamentos e mandou examinar o negócio. O problema ultrapassava o preço, os cinco terrenos e as condições financeiras. Havia uma questão anterior a todas elas: a Santa Fé podia vender o morro?

Em 2 de maio de 1932, Getúlio Vargas respondeu que não.

O decreto que anulou a operação sustentava que Santo Antônio integrava o patrimônio nacional desde o Império e que os atos praticados desde 1889 tinham natureza de concessões de obras públicas, não de simples alienações de propriedade. A escritura de 1931 teria sido feita por quem não possuía o domínio da coisa.

Traduzindo a decisão para o leitor de hoje: a Prefeitura havia comprado um morro de quem, segundo o Governo Federal, não era dono dele.

A reação da Santa Fé foi imediata e espetacular.

Seu advogado, Astolpho Rezende, publicou nos jornais uma extensa defesa dirigida ao público. E colocou no centro da página a arma mais poderosa da companhia: a escritura de 23 de janeiro de 1891.

A empresa perguntava, em essência, como a União poderia afirmar que continuava proprietária de uma área que a própria Fazenda Nacional declarara vender quarenta anos antes, recebendo o preço, dando quitação e transmitindo domínio e posse.

Não era um argumento extravagante. O documento existia.

Por outro lado, a União também possuía uma cadeia de atos administrativos sustentando que aquela suposta venda jamais poderia ser separada da concessão para o arrasamento, cujo resultado não havia sido cumprido. O decreto de 1899 chegava a declarar explicitamente que não havia propriedade plena antes do nivelamento.

É justamente por isso que o caso é mais interessante do que uma história de esperteza empresarial ou de arbitrariedade governamental. Os dois lados possuíam documentos capazes de convencer um leitor desavisado.

A disputa ainda guardava uma ironia adicional. Em 1921, ao substituir o antigo projeto de arrasamento por seu programa de urbanização e embelezamento, a Santa Fé havia desistido da velha concessão federal. A companhia fez questão de ressalvar que não abria mão dos direitos de propriedade que afirmava possuir. Para ela, concessão e propriedade eram coisas diferentes. Para a União, justamente aí estava o erro: uma não poderia sobreviver à outra daquela maneira.

O caso atravessou os anos 1930, voltou ao debate político e envolveu sucessivas tentativas de composição.

A solução oficial para a propriedade veio em 1939 de maneira quase irônica. Depois de impedir a Prefeitura de comprar o morro da Santa Fé sob o argumento de que o imóvel era federal, a própria União transferiu formalmente à Prefeitura a propriedade do Morro de Santo Antônio.

A questão do domínio, na interpretação do Governo, estava resolvida.

Mas havia outra conta.

Mesmo que a Santa Fé não fosse proprietária do morro, ela sustentava ter investido dinheiro durante anos numa concessão que havia gerado obras, despesas, financiamentos e prejuízos. Essa parte acabou submetida a arbitragem. O laudo levou posteriormente à abertura de crédito de aproximadamente 9,781 milhões de cruzeiros para pagamento da indenização à companhia e aos interesses ligados ao Banco Português.

Dentro daquela conta reaparecia, meio século depois, a velha quantia de 372:632$996 que os primeiros concessionários haviam entregue ao Governo.

O dinheiro pago no início da República ainda gerava discussão quando o Estado Novo já caminhava para o fim.

O morro some, mas o processo continua

Enquanto empresários, advogados e governos discutiam Santo Antônio em escrituras, pareceres, arbitragens e tribunais, milhares de pessoas conheciam o morro de uma maneira completamente diferente.

Elas moravam nele.

No início do século XX, a imprensa já registrava a proliferação de casas modestas e barracos a poucos passos da Rua do Ouvidor e da então Avenida Central. Houve incêndios, sucessivas ameaças de remoção e uma longa convivência entre uma das paisagens mais antigas do Centro e uma ocupação popular que crescia justamente sobre o terreno que urbanistas pretendiam transformar.

Essa dimensão humana aparece de maneira especialmente forte em uma reportagem de agosto de 1954.

O jornalista subiu o morro quando a derrubada das casas já se aproximava e encontrou Maria do Carmo Cabral, grávida, carregando um feixe de lenha. Mãe de cinco filhos, ela quis saber se o repórter fazia parte da equipe que iria destruir os barracos e perguntou para onde sua família deveria ir.

Durante décadas, homens em gabinetes haviam perguntado de quem era o Morro de Santo Antônio.

Para Maria do Carmo, a questão era outra: o que aconteceria quando tirassem o chão debaixo de sua casa?

É impossível contar a transformação da área apenas como uma história de títulos imobiliários. O mesmo terreno que aparecia nos balanços de empresas e nas garantias de bancos era uma pequena cidade para quem ali vivia.

O grande desmonte entrou em sua fase decisiva nos anos 1950. Máquinas, escavadeiras e dezenas de caminhões passaram a retirar diariamente milhares de metros cúbicos de terra. Fotografias daquele período mostram o desaparecimento gradual de uma formação geográfica que durante séculos ajudara a desenhar o perfil do Centro.

Mas é importante esclarecer uma coisa que a paisagem atual pode esconder até de muitos cariocas: o Morro de Santo Antônio não foi inteiramente arrasado.

O pedaço que sobreviveu é justamente aquele que continua elevado sobre o Largo da Carioca, ocupado pelo Convento de Santo Antônio e pela vizinha e majestosa Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Preservado com seu conjunto religioso, ele permanece como uma testemunha física da enorme montanha que um dia se estendia por uma área muito maior do Centro.

Isso significa que ainda hoje é possível, literalmente, subir ao Morro de Santo Antônio.

Quem vence a escadaria a partir do Largo da Carioca não está apenas entrando num dos conjuntos religiosos mais antigos e importantes do Rio. Está pisando na parte remanescente da formação geográfica que gerou toda essa disputa.

Ao lado do convento, a Igreja de São Francisco da Penitência impressiona pela exuberância de sua talha dourada e por uma decoração que está entre os grandes monumentos do barroco carioca. A Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência mantém ali também seu histórico Museu Sacro Franciscano, apontado pela instituição como o primeiro museu sacro da América do Sul, instalado num conjunto em que o próprio prédio, suas capelas e dependências fazem parte do acervo.

E há ainda um Rio muito menos conhecido escondido naquele pedaço preservado do morro.

A Ordem conserva históricas catacumbas com sepultamentos dispostos em nichos verticais, solução funerária raríssima entre os conjuntos religiosos que chegaram aos nossos dias na cidade. Ali sobrevivem espaços ligados às antigas cerimônias de morte e sepultamento das irmandades, incluindo uma das últimas câmaras-ardentes históricas do Rio.

O nome pode provocar uma impressão errada para o leitor moderno. Uma câmara-ardente, na tradição católica, nada tem a ver com cremação. Era o recinto preparado para receber solenemente o corpo de uma pessoa antes de seu sepultamento. O caixão permanecia exposto para orações, despedidas e cerimônias fúnebres, cercado por velas, círios e tochas acesas — daí a expressão “ardente”. Em antigas irmandades e ordens terceiras, esses espaços integravam um verdadeiro conjunto funerário que podia reunir a câmara para o velório, a capela onde se celebravam as exéquias e as catacumbas onde os mortos eram depositados.

Assim, o pequeno trecho de Santo Antônio preservado no Largo da Carioca reúne quase quatro séculos de história religiosa, artística e funerária da cidade. Convento, igreja, museu, catacumbas e câmara-ardente sobreviveram no topo de um morro do qual o restante praticamente desapareceu.

Quando se diz, portanto, que o Rio apagou o Morro de Santo Antônio do mapa, é necessária uma ressalva: apagou quase todo o morro. O que restou é talvez justamente sua parte mais preciosa. O restante da terra também não simplesmente sumiu.

Parte dela foi transportada para dentro da Baía de Guanabara, contribuindo para os grandes aterros que alteraram a linha da costa entre o Centro, a Glória e o Flamengo. De certa maneira, o Morro de Santo Antônio teve dois destinos: uma pequena parte permaneceu no Largo da Carioca; outra mudou de endereço.

Onde antes existiam ladeiras, casas e uma grande massa de terra surgiram a Esplanada de Santo Antônio, a Avenida República do Chile e, nas décadas seguintes, alguns dos edifícios mais monumentais da modernização do Centro. A região receberia a Catedral Metropolitana, edifícios empresariais, o BNDES e a antiga sede da Petrobras, além de novas avenidas e espaços públicos.

O que fora durante décadas um negócio imobiliário baseado na promessa de criar terrenos finalmente cumpriu sua profecia. O morro foi convertido em metros quadrados urbanos.

Só que a discussão judicial recusava-se a desaparecer na mesma velocidade.

Em 1966, o antigo Tribunal Federal de Recursos ainda examinava uma ação da Companhia Industrial Santa Fé envolvendo a velha concessão, pretensões sobre o domínio e novas indenizações. A decisão reconstituiu acontecimentos que remontavam ao Império, passou pela escritura de 1891, pela desistência de 1921, pela anulação de Getúlio em 1932, pela transferência da propriedade em 1939 e pela arbitragem dos anos seguintes.

O tribunal considerou que a questão da propriedade já estava resolvida contra a companhia e que as indenizações ligadas à antiga concessão haviam sido abrangidas pela solução arbitral anterior.

Aquela decisão, porém, encerrava algo mais curioso do que um processo imobiliário.

Quando os desembargadores ainda examinavam quem havia tido direitos sobre Santo Antônio, a maior parte da montanha que dera origem a toda a disputa já havia sido substituída por ruas, prédios e terrenos planos. Parte de sua terra estava longe dali, lançada sobre antigas águas da Guanabara, enquanto o pequeno fragmento sobrevivente permanecia diante do Largo da Carioca, sustentando o convento, a igreja dourada dos terceiros, suas catacumbas e séculos de memória.

Poucas histórias mostram de maneira tão literal como o Rio sempre foi uma cidade em construção. O poder público comprou o morro no Império, concedeu seu desmonte às vésperas da República, assinou um documento que parecia vendê-lo, negou ter vendido, enfrentou uma reivindicação que chegou até a Santa Sé, viu empresas e bancos transformarem a área em ativo financeiro, anulou uma compra milionária feita pela Prefeitura e finalmente transferiu o imóvel ao próprio Município.

No meio disso tudo, engenheiros imaginaram bairros que nunca existiram, investidores fizeram contas sobre terrenos que ainda estavam dentro de uma montanha, moradores criaram filhos sobre o solo disputado e caminhões carregaram parte daquele pedaço do Centro para dentro da Baía de Guanabara.

A guerra pelo Morro de Santo Antônio durou tanto que aconteceu algo que talvez nenhum dos homens que assinaram a primeira escritura pudesse imaginar: o processo sobreviveu ao morro.

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