
O roubo de cargas voltou a crescer na cidade do Rio de Janeiro. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) apontam 779 ocorrências entre janeiro e maio deste ano, alta de 32,5% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço reacende a preocupação de transportadoras, caminhoneiros e empresas de logística que atuam no estado.
Segundo investigações policiais, parte desse aumento tem relação com a atuação de facções criminosas. O Terceiro Comando Puro (TCP), rival do Comando Vermelho (CV) em comunidades do Rio, passou a investir mais no roubo de cargas como forma de financiar suas atividades. Como a facção controla menos territórios que o CV, teria menor margem para obter lucro com outras práticas criminosas, como a extorsão.
Um levantamento nacional da NTC&Logística mostra que o Rio de Janeiro liderou os registros de roubo de cargas em 2025. Foram 3.777 ocorrências no estado, média aproximada de dez crimes por dia. São Paulo aparece em seguida, com 3.470 casos. Juntos, os dois estados concentraram mais de 80% dos registros do país. A Região Sudeste respondeu por 86,8% das ocorrências.
Apesar do cenário fluminense, o estudo aponta queda de 60% nos roubos de carga no Brasil em comparação com 2017, ano do pico histórico da modalidade. A entidade usou dados do governo federal e das secretarias estaduais de Segurança Pública.
Zona Norte concentra áreas sensíveis
O cruzamento dos dados do ISP com o Mapa Histórico dos Grupos Armados, cuja versão mais recente é de 2024, mostra maior concentração de registros em delegacias que atendem bairros sob influência ou controle do TCP. Entre as áreas citadas estão a Maré, o Complexo de Israel e a Pedreira, todos na Zona Norte.
Na favela da Pedreira, investigações apontam que cargas desviadas acabam revendidas por comerciantes ilegais em locais de grande circulação, como estações de trem, metrô e feiras. Quando caminhões são bloqueados por ferramentas de segurança, a mercadoria pode ser saqueada com aval do tráfico local, segundo a polícia.
As cargas mais visadas são alimentos e cigarros. Depois aparecem medicamentos, bebidas e eletroeletrônicos. O critério, segundo o setor, não é o valor mais alto da mercadoria, mas a facilidade de revenda rápida.
A Maré também aparece entre os pontos de atenção. O conjunto de 16 favelas fica entre a Baía de Guanabara, a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela, corredores importantes para o transporte de mercadorias. Parte do território é dominada pelo CV, e outra parte pelo TCP.
No dia 10 de junho, as polícias Civil e Militar fizeram uma operação na Maré contra o TCP. De acordo com a investigação, parte dos produtos roubados em ataques a caminhões na Avenida Brasil era revendida em um baile funk semanal na Vila do João.
Em 2024, a polícia instalou blocos de concreto em ruas da Maré para dificultar a entrada e circulação de veículos de grande porte. A medida provocou protestos de moradores e representantes comunitários, que alegaram prejuízo ao direito de ir e vir.
Operação Torniquete mira roubos e receptação
Procurada para comentar os dados, a Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que mantém ativa a Operação Torniquete, voltada ao combate a roubos e receptação de cargas e veículos.
Segundo a corporação, 1.050 pessoas foram presas no âmbito da operação desde setembro de 2024. Ainda de acordo com a polícia, cargas e veículos recuperados no período somam R$ 56 milhões.
A Polícia Civil afirmou que usa dados do ISP para orientar suas ações. Em nota, a corporação disse que isso permite direcionar operações de forma “técnica, eficiente e alinhada à dinâmica criminal do estado”.
Custo Rio pesa sobre transportadoras
O roubo de cargas também tem impacto direto no custo das operações. Há quase uma década, transportadores cobram de empresas de logística uma taxa extra para atuar no Rio de Janeiro. A cobrança é chamada de taxa emergencial adicional ou “custo RJ”.
O valor varia conforme a rota e o tipo de carga. Para representantes do setor, o risco maior no estado encarece seguros, fretes e operações.
O presidente da NTC&Logística, Eduardo Rebuzzi, afirmou que o Rio ainda é visto como uma praça de alto risco. “O Rio desperta risco. O motorista tem medo de ir para lá, não quer ir. As empresas evitam colocar filial”, disse.
A avaliação é parecida entre empresas que oferecem tecnologia contra roubo de cargas. Luiz Henrique Nascimento, sócio da T4S, afirma que o domínio territorial de facções aumenta a dificuldade de recuperação das mercadorias. “Eu e meu sócio tivemos uma transportadora entre 2003 e 2013, fomos roubados praticamente todos os dias e o Rio sempre foi a praça de maior desafio”.
Ele também apontou o uso de comunidades como áreas de proteção para criminosos. “É desafiador porque as comunidades são zonas de segurança dos criminosos. Na medida em que a polícia não pode entrar para recuperar uma carga, o objetivo dos criminosos é simplesmente desviar o caminhão para dentro de uma comunidade”.
As quadrilhas investigadas pela polícia usam principalmente favelas da Zona Norte, região cortada por importantes vias de tráfego, como Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. A área também concentra conexões logísticas e grande circulação de caminhões.
Há, porém, críticas à forma como o estado é tratado pelo setor. Antonio Vitaliano, da Confederação Nacional de Transportadores Autônomos (CNTA) e presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Rio (Fecam-RJ), avalia que a taxa adicional também carrega preconceito contra o Rio. “A cobrança existe e é uma demonização, forma de barganha para aumentar a lucratividade. O Rio de Janeiro é alvo fácil para se jogar pedras”.
As informações são da Folha de São Paulo















































































































